Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Índios isolados em Jirau: alerta de genocídio /// blog de Mary Alegretti /// Globo.com

qui, 28/01/10por m.allegretti

Recebi agora há pouco a mensagem que transcrevo a seguir e o manifesto que publico logo abaixo. Todos já sabem da existência de índios isolados na área da hidrelétrica Jirau desde que a licença ambiental começou a ser questionada publicamente. Mas é inacreditável que essa delicada situação não tenha merecido atenção e encaminhamento adequados, como mostra a carta escrita ao Presidente Lula. Parece que estou lendo um relato daqueles tempos da BR 364, da década de 70, sobre os quais falarei aos meus alunos aqui da Universidade da Flórida em algumas semanas. O que vou dizer a eles – que o governo brasileiro se envergonha de ser um dos únicos países do mundo a abrigar em seu território sociedades totalmente desconhecidas; que não se importa, que não cuida, que não tem nada a aprender. Quisera eu viver em um país que, diante de existência de sinais de grupos em isolamento, pararia as obras e criaria condições de existência a uma sociedade que sequer pode mostrar sua face.

E eles vão me perguntar, certamente: “e quem será responsabilizado por este genocídio?” E eu vou ficar constrangida ao responder.

“Prezada Sra Mary Alegretti,

Em relação aos impactos da hidrelétrica de Jirau, indigenistas ligados a atuação junto a índios isolados e de recente contato lançaram no início do ano um alerta de genocídio na forma de ABAIXO ASSINADO ONLINE http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/5450
, conclamando a sociedade para exigirmos do Estado a atenção devida à questão dos isolados em Rondônia. Enquanto o último sobrevivente de uma etnia massacrada, o chamado “Homem do Buraco” é caçado por pistoleiros e os últimos Akuntsú estão ameaçados por cardiopatias graves, os grandes projetos simplesmente ignoram dezenas de registros , inclusive oficiais (da FUNAI) de grupos remanescentes de etnias sem contato regular com a sociedade envolvente, que podem ser exterminados com o adensamento de contatos não controlados provocados por tais ‘construções”, além de terem seus últimos refúgios devassados e destruídos. A imprensa comentou o abaixo-assinado como uma “carta de protesto” (Folha Online, Amazônia.org e outros), mas é importante divulgar que trata-se de um documento online ainda em aberto, o que permite a adesão de todas as pessoas igualmente indignadas com a situação crítica de ameaça que as grandes obras de infraestrutura provocam sobre os povos indígenas isolados e seus últimos nichos de sobrevivência. Entre centenas de populares e profissionais ligados ao indigenismo, signatários eminentes, como os bispos D.Pedro Casaldáliga e D.Erwin Krautler, a antropóloga e economista Betty Mindlin , o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto e o fotógrafo Sebastião Salgado, entre outros, apoiam o manifesto: http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/abaixoassinado/5450?show=500
 Apelamos pela divulgação: apenas a voz da sociedade civil pode se expressar pela voz inaudível e proscrita dos ‘povos invisíveis’!



Saudações Indigenistas,

Rosa Cartagenes – AMAZOÉ-Apoio Mobilizado ao Povo Zo’é e Outras Etnias- http://www.amazoe.org.br/






Abaixo-Assinado (#5450): ÍNDIOS ISOLADOS EM RONDÔNIA E NO BRASIL: ALERTA DE GENOCÍDIO:Destinatário: Presidente do Brasil, Ministro da Justiça e Ministério Público Federal

ÍNDIOS ISOLADOS EM RONDÔNIA E NO BRASIL: ALERTA DE GENOCÍDIO

Exmo Senhor Luís Inácio Lula da Silva, Presidente da República Federativa do Brasil

Exmo Senhor Tarso Genro, Ministro da Justiça do Brasil

Exmos. Senhores Procuradores do Ministério Público Federal –Procuradoria Geral da República – 6ª Câmara de Coordenação e Revisão/Índios e Minorias, e MPF do Estado de Rondônia

Nós, indivíduos e agentes sociais de diversas áreas de atuação, cidadãos brasileiros e do mundo envolvidos e comprometidos com os direitos humanos e das minorias étnicas, tanto da proteção de suas vidas físicas quanto da continuidade de seu patrimônio ambiental, cultural, social e imaterial, manifestamos aqui nosso clamor e profunda preocupação quanto às críticas condições de sobrevivência dos povos indígenas em isolamento voluntário e recentemente contatados no Brasil, em especial àqueles remanescentes no Estado de Rondônia, Amazônia Brasileira.

Por seu distanciamento da sociedade majoritária e ausência de voz nos fóruns de discussões públicas e políticas, tais povos subsistem em condições de tamanha invisibilidade social, que os torna vítimas preferenciais de uma série de ações deletérias levadas a cabo pelas vorazes frentes de expansão, sobretudo em território amazônico. A grande mobilidade à qual estes pequenos grupamentos humanos foram obrigados ao longo de décadas ou séculos, ocultando-se e camuflando-se como única via de sobrevivência, tem repetidamente sido argumento dos invasores dos territórios indígenas da “inexistência” ou “implante de índios”, sobretudo daqueles que se beneficiaram de titulações governamentais nos idos das décadas de 70/80 – justamente o período em que as ações genocidas sobre tais povos demonstraram-se mais sanguinárias no Estado de Rondônia. À época, a perspectiva desenvolvimentista da Amazônia como uma “terra sem homens”, para a qual seria necessário alocar “homens sem terra”, ignorando a milenar presença indígena, promoveu a ocupação ilegal e grilagem por parte de latifundiários e exploradores egressos em sua maioria do centro-sul do país, que rapidamente subverteram a lógica do assentamento de trabalhadores rurais trasladados pelo estímulo oficial. Concomitantemente, realizaram uma brutal “limpeza territorial e étnica” através de repetidas chacinas sobre inúmeros povos indígenas nativos. Métodos facínoras com requintes de crueldade, como o incêndio de aldeias, derrubada de moradias com tratores de esteira, envenenamento com raticida misturado à alimentos ofertados, escravismo e abusos sexuais, execuções sumárias por armas de fogo, caçadas humanas e torturas de todo tipo são resguardados por testemunhos silenciados pelo medo e pela memória dos últimos sobreviventes de etnias indígenas recentemente contatadas em Rondônia. Para nossa vergonha e espanto, não são fatos remotos, e sim eventos históricos registrados nas últimas décadas, quando deveria o Brasil vivenciar o pleno estado democrático de direito!


Recentemente, o último sobrevivente conhecido de uma etnia massacrada em Rondônia, denominado como “Índio do Buraco”, sofreu atentado à bala por pistoleiros, apesar de protegido legalmente pela interdição federal da “Terra Indígena Tanarú”(municípios de Corumbiara, Chupinguaia, Parecis e Pimenteiras do Oeste-RO), e monitorado por equipe local da Coordenação Geral de Índios Isolados, da FUNAI. O posto local da FUNAI foi atacado e teve seus parcos equipamentos destruídos, exemplificando a ação intimidatória criminosa que a impunidade vigente permite aos mandatários regionais. Não distante dali, na Terra Indígena Omerê, os últimos Akuntsú e Kanoê, etnias as quais, somadas, restam apenas oito sobreviventes, além de terem suas terras invadidas, têm apresentado graves deficiências de saúde que podem inviabilizar sua sobrevivência imediata , o que exige ação urgente e assistência modelar por parte do Estado Brasileiro.

É necessário reafirmar que constam evidências ou informes da existência de diversos povos indígenas isolados no Estado de Rondônia: Povo Isolado da cabeceira do rio Formoso; Povo Isolado do rio Candeias; Povo Isolado do rio Karipuninha; Povo Isolado do rio Jaci-Paraná; Povo Isolado do rio Jacundá; Povo Isolado das cabeceiras dos rios Marmelo e Maicizinho; Povo Isolado do rio Novo e Cachoeira do rio Pacaas Novas; Povo Isolado da Rebio Jaru; Povo Isolado da Serra da Cutia; Povo Isolado do Parque Estadual de Corumbiara; Povo Isolado do chamado “Índio do Buraco”, quase extinto no rio Tanarú. Há registros do povo isolado conhecido por JURUREÍ há menos de 5 km do trecho de pavimentação previsto da BR 429 , e relatórios internos da FUNAI indicam pelo menos cinco grupos de índios isolados na área de abrangência da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira. A Terra Indígena Massaco, também habitada por índígenas não-contatados, é igualmente território ameaçado por invasões e conflitos fundiários que podem se traduzir em genocídio iminente.

É intolerável à sociedade e ao Estado Brasileiro compactuarem ou demonstrarem-se omissos diante do flagrante descaso, opressão e genocídio expresso em pleno século XXI, que tem se configurado sobre os últimos povos nativos livres em território nacional. Tais povos, independentemente de sua fragilidade demográfica – fruto de séculos de extermínio silencioso no país – são parte crucial da matriz cultural, social e humana da nação brasileira. São sobreviventes meritórios de nossa resistência nativa, e constituem-se em patrimônio humano, biológico, cultural, histórico e espiritual do povo brasileiro e da Humanidade. Têm tido seus direitos mais elementares, sobretudo à vida, vilipendiados e ignorados ao longo da história de brutalidade pretensamente civilizatória na ocupação territorial do Brasil.

Reivindicamos aos últimos povos nativos livres no Brasil o direito de VIVEREM EM PAZ, sob a PROTEÇÃO EFETIVA DO ESTADO e do modo que sua perspectiva humana lhes indique que seja a FORMA DIGNA DE CONTINUAR A VIVER. É inaceitável que, ainda que juridicamente protegidos pelo Estado, os povos indígenas em isolamento no Brasil subsistam ignorados pelos investimentos desenvolvimentistas, pressionados e executados pela exploração desmedida dos últimos nichos preservados de suas florestas e vitimados, ainda, pelos mais torpes métodos de extermínio que a impunidade estimula.


-PELO COMPROMISSO DO ESTADO BRASILEIRO COM A SALVAGUARDA PÚBLICA , PROTEÇÃO ESPECIAL E DEFESA INTRANSIGENTE DOS DIREITOS ÉTNICOS, SOCIOCULTURAIS, TERRITORIAIS E À VIDA DOS POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO VOLUNTÁRIO E RECENTEMENTE CONTATADOS NO BRASIL.


-PELA URGENTE REGULARIZAÇÃO E DESINTRUSÃO DA TERRA INDÍGENA TANARÚ (RO), COM EFETIVA PROTEÇÃO AO ÚLTIMO REMANESCENTE DO POVO DO CHAMADO “HOMEM DO BURACO”, BEM COMO PUNIÇÃO LEGAL DOS RESPONSÁVEIS POR AÇÕES INTIMIDATÓRIAS E CRIMINOSAS NA TERRA INDÍGENA TANARÚ.


- POR UMA ATENÇÃO MÉDICA DIFERENCIADA, URGENTE , EFICIENTE E ADEQUADA ÀS NECESSIDADES CRÍTICAS DOS ÚLTIMOS AKUNTSÚ E KANOÊ NA TERRA INDÍGENA RIO OMERÊ (RO), E TOTAL DESINTRUSÃO DE SUAS TERRAS.


- PELA URGENTE REAVALIAÇÃO E CONSIDERAÇÃO DE FATO DA PRESENÇA INDÍGENA DE GRUPOS AUTÔNOMOS EM ISOLAMENTO NAS ÁREAS AFETADAS POR OBRAS GOVERNAMENTAIS DE INFRAESTRUTURA, TAIS COMO RODOVIAS INTERESTADUAIS E TRANSNACIONAIS, BARRAGENS HIDRELÉTRICAS, HIDROVIAS E OUTROS PROJETOS DE ALTO IMPACTO SOCIOAMBIENTAL, COMO A RODOVIA BR 429 E AS USINAS HIDRELÉTRICAS NA BACIA DO RIO MADEIRA, ENTRE OUTROS.

A sociedade civil espera do Estado Brasileiro atitudes à altura da urgência e importância social e política na proteção à sobrevivência e continuidade dos últimos povos indígenas autônomos no Brasil, bem como a conservação e proteção de seus territórios, esteio de suas vidas e de suas possibilidades de futuro.

Mui atenciosamente,
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Tribo usa internet como instrumento de integração e ativismo /// BBC Brasil



O repórter da BBC Brasil Pablo Uchoa saiu de Londres para passar três dias com a tribo dos Suruí, os donos da reserva Sete de Setembro, na divisa de Rondônia com o Mato Grosso.

A viagem faz parte da série Superpotência que investiga o impacto da internet.

Em um projeto pioneiro, os indígenas estão usando a internet como meio de auto-afirmação cultural e política, e de ativismo contra o desmatamento da Amazônia, que ameaça a integridade das suas terras.

Acompanhe o diário.

Dia 5: Os ventos da mudança

Gasodá Suruí e Tori Tupari, chamemo-los por seus nomes indígenas, se conheceram no Orkut, flertaram pelo MSN Messenger e agora, casados, observam achando graça o aparato do jornalista que montou uma câmera de vídeo e improvisou um auxiliar técnico para segurar o microfone boom, medidas essenciais para garantir a boa captação de imagem e som e, assim, a qualidade técnica da matéria.

O jornalista, o leitor já desconfia, é esse que vos escreve. E o casal, quando a entrevista se inicia, no fim das contas nem é tão tímido assim. Pelo contrário, estão acostumados a serem o centro das atenções, na qualidade de único casal internético indígena por estas bandas.

A história deles, que o leitor conhecerá em breve, quando a BBC Brasil colocar no ar as matérias em texto e vídeo, é uma dessas narrativas pela qual vale a pena cruzar o Atlântico. As coisas estão mudando por estes lados. E ao mesmo tempo, permanecem como eram antes.

No cair da tarde, com todos os moradores da aldeia de volta às suas casas, o lugar imerge em uma pacata vida comunitária. As mulheres assam a carne e pilam a farinha de mandioca para a paçoca. A mãe do líder Almir Suruí conta histórias de caçadas e pajelança para o grupo, em dialeto Páiter. As casas de madeira têm luz elétrica, mas basta caminhar 30 metros para longe delas e já se pode contemplar o céu limpo, cheio de estrelas.

Só nos 45 minutos de estrada de barro que separam a terra indígena da estrada de asfalto é que me dou conta da distância – física, é claro, mas também em vários sentidos figurados – de casa. Ao longo de toda esta viagem, a distância às vezes diminuiu, como quando Gasodá e Tori contaram sua história que, em sua essência, tirando as cores do cenário, é bastante parecida com a de qualquer casal de jovens que se conheceu na internet em qualquer lugar do mundo.

Mas Almir e Neide não esquecem de que seu mundo e o meu são mundos diferentes. Fazem questão de me escoltar até a cidade de Cacoal porque sabem que jornalistas estrangeiros aqui podem ser mal vistos por dar voz aos indígenas, que tentam manter suas raízes e preservar o meio ambiente em que vivem. Para muitos, isso é impedir o progresso.

Para além da reserva indígena, agora sou capaz de perceber a transformação que se operou por aqui. Deixo Cacoal antes da primeira luz do dia e, quando os raios de sol iluminam a estrada, o que vejo é uma paisagem que associo mais ao Pantanal que à Amazônia. Pastos e áreas de agricultura mecanizada formam uma sequência nos 500 km até Porto Velho.

No rádio do carro, os programas tocam sertanejo entre comerciais de frigoríficos e indústrias de máquinas e químicos. A música é bonita. É uma cultura de cowboys, de rodeios, de criação de gado. Em outro canal, em um programa só de músicas do Nordeste, o apresentador “acorda” os ouvintes riscando a lâmina de uma peixeira.
É um reflexo, creio, da composição social desta parte da Amazônia e de outras. O problema é que nem todas estas partes da mesma sociedade convivem em paz aqui. E eu não vou fazer chover no molhado, listando para o leitor a tensão por conta dos conflitos fundiários, ambientais e sociais da região.

Esta reportagem, que se originou a partir de uma história isolada dos Suruí e sua parceira com a internet, acabou servindo de metáfora das pressões por transformações sobre a Amazônia brasileira. Mas que reportagem não o faria? Não são poucas as divergências sobre o que deve ser esta transformação, em que ritmo ela deve ocorrer e qual deve ser o resultado dela.
Os ventos da mudança sopram forte por aqui. E ninguém sabe para onde eles vão levar em 30, 40, 50 anos.

Dia 4: O 'tempo amazônico'

Neidinha, como todo mundo chama Ivaneide Cardozo por aqui, gosta de dizer, sempre, "o tempo amazônico" é diferente.
E eu acho que qualquer um entende o que ela quer dizer com isso, em princípio. Mas só mesmo passando umas poucas e boas para saber, com todas as letras, o que é que ela chama de "tempo amazônico".

Neidinha recorda seu ditado enquanto esperamos que passe a chuva torrencial que começou a cair e não parou mais, deixando pouca opção senão estirar-nos nas redes da varanda da casa do líder Suruí, Almir, na aldeia de Lapetanha, a pouco mais de uma hora de Cacoal.

É uma espécie de pausa forçada no trabalho. Mas contra a força da natureza não há o que fazer.
Lapetanha, a aldeia mais próxima da estrada de asfalto, segue seu ritmo habitual. Poucas casas de madeira entre as quais se destacam uma ou outra maloca típica, de teto de palha seca. Sou informado de que a maior, que podia receber até 200 pessoas, pegou fogo não muito tempo atrás.

Antigamente, a aldeia se estendia até Cacoal e os índios eram 5 mil, me dizem. O contato com o homem branco, em 1969, dizimou grande parte da etnia, que chegou a ter apenas 250 membros e agora tem 1.350.

Fiz e refiz inúmeras vezes imagens das crianças que brincam na aldeia e dos cães que me olham com cara de bocejo enquanto caminho de lá para cá de tripé na mão. Adiante, uma mulher faz um colar de coquinhos enquanto ferve pupunha e castanha. Mais cedo, antes da chuva, outra lavava roupa em um tanque com uma máquina de lavar do lado.

Demos o azar de desencontrar uns membros da tribo que estão monitorando as florestas da reserva Sete de Setembro usando GPS. Agora, é preciso esperar até amanhã. O tempo amazônico.

Cabe-nos experimentar a vida na aldeia. Jogar conversa fora aqui e ali com os moradores. Os jovens demais não falam português ainda, só tupi mondé; os adolescentes e adultos jovens falam as duas línguas; os mais velhos, sempre falaram só o tupi mondé.

Do nada, a oportunidade para fazer gravações aparece, como quando Arildo, um dos coordenadores de cultura dos Suruí, disse que nos mostraria o centro de cultura do vilarejo, que possui alguns computadores.

Mal ele abriu a sala, um enxame de garotos e garotas de oito ou dez anos voou para os dois computadores nos quais um programa dá informações sobre as aves nativas e reproduz o canto dos pássaros.

Os garotos ainda são muito jovens para receber treinamento em computação, mas demonstram um entusiasmo incrível. Arildo me ajuda com o tupi mondé para conversar com um deles

Mais tarde, repassando as gravações do dia, divirto-me com a festa de "passarinhos" que ilustra o pano de fundo. Isso foi na "hora do computador", se é que posso falar assim. Mas tudo no seu devido tempo.

Antes, quando o "tempo amazônico" da Neidinha ainda nos "impunha" a contemplação, os passarinhos que povoaram minhas gravações foram outros, os de verdade. Com o microfone em punho para captar sons para um programa de rádio que prometi para o serviço em inglês, me embrenhei no mato e deixei o equipamento "ouvir" os sons da floresta.

Foi uma sinfonia de cantos. Lembrei-me de uma rádio londrina que só toca o som dos passarinhos – a rádio Birdsong, vejam que criativo – e que estourou na audiência, sugerindo o quanto nossa corrida vida moderna sente falta disso no dia-a-dia.

Deixei-me levar pela suavidade dos sons, e se não fosse pela bufada de um cavalo, a coisa mais barulhenta que soou em muitos minutos, teria continuado por outros mais.

E ainda há os que não têm tempo para perceber essas coisas simples da vida. Para esses, uma boa dose de "tempo amazônico", tempo para parar e contemplar a existência, não faria nada mal.


Dia 3: Um líder indígena 'bem na foto'

"Sua câmera é bem pequeninha. Tenho medo dessas coisas assim."

Almir, o líder dos Suruí, me observa de lá fazendo cara de desconfiança. Posicionei-o para nossa entrevista a alguns metros de distância, o que no plano fechado da minha lente cria um agradável efeito de fundo, e no plano aberto mostra a grama verdinha e uma maloca indígena típica dos Suruí.

Sei que sua declaração é só charme. Ora, se há um povo indígena que percebeu muito bem a utilidade desses pequenos gadgets e faz uso deles de maneira pioneira e criativa, esse povo se chama Suruí. Mostrar isso não é justamente o propósito da minha visita aqui?

"Imagine", respondo. "Nisso sei que quem dá aula são vocês."
Almir me recebeu na sede de sua associação, Metareilá, em Cacoal, com uma apresentação de Powerpoint feita sob medida para o interlocutor que o escuta pela primeira vez. De um laptop pequeninho, que fez o meu trombolho passar vergonha, ele projetou as imagens do desmatamento ao redor da reserva indígena Sete de Setembro na parede de sua sala.

Internet, Picasa, Google Earth, todas essas são ferramentas de que ouvi falar uma porção de vezes conversando sobre os projetos dos Suruí.

E o xodó deles já nem é mais o computador ou o laptop, e sim os telefones que tiram fotos e enviam por internet. Um carregamento desses deve chegar em breve e permitir aos indígenas postar fotos do desmatamento na internet em tempo real, poupando o tempo do download e do envio.

Os Suruí não são os únicos nem os primeiros a utilizar a tecnologia moderna em seu benefício. Há seis anos, editei um programa de TV sobre os Kamayurá, que vivem no Xingu, e entre os diversos personagens havia um que era cinegrafista e contava como essa tecnologia vinha ajudando os indígenas a registrar suas tradições orais.

O que diferencia os Suruí é a maneira criativa e pioneira, para repetir minhas próprias palavras, de integrar estas tecnologias a um plano de desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Algo que tem sido creditado à visão de longo alcance de Almir. Curiosamente, o clã dele é responsável, entre o povo Suruí, por tratar dos assuntos ligados à guerra, à diplomacia e ao meio-ambiente. Ao ‘trocar o arco-e-flecha pelo laptop’, ele revolucionou os três campos de uma só vez.

Demonstrou um notável talento político, e se o leitor me perdoa a ousadia, inclusive certa qualidade de estadista. E lá nas prateleiras da Associação Metareilá estão reportagens e reportagens, a grande maioria publicadas em jornais estrangeiros, sobre Almir e a luta ambiental dos Suruí. Inclusive uma edição da revista Época que o coloca entre os cem brasileiros mais influentes do país.

No fim de nossa entrevista, para efeito de making of, Fred, da ONG ACT Brasil, nos sugere que tiremos uma foto conjunta.
"Se até o Príncipe Charles tirou uma foto com o Almir, eu também quero", disse Fred, referindo-se a uma imagem de Almir com o príncipe herdeiro britânico exposta na sala do líder indígena.

Almir, que por acaso deve ter sabido de minhas andanças pelo mundo cobrindo as viagens de outro lider, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, não perdeu a piada.

"Então vamos. Se até o Lula tira foto com o Pablo, então eu também quero."
Sei, sei. Pode ter sido só brincadeira, mas a comparação com Lula me deixou com a pulga atrás da orelha. E me diverti pensando que pode ter sido apenas um deslize da modéstia de Almir, tentando esconder ambições maiores.

Dia 2: Na floresta verde, tapete vermelho para os convidados

Continuando viagem a aldeia dos Suruí, em Rondônia, desde muito cedo botei o pé na estrada – e quanta estrada.
Por um desses mal-entendidos de roteiro, fui pego de surpresa ao desembarcar em Porto Velho, após uma conexão em Brasília, e descobrir que ainda estava a sete ou oito horas de viagem de carro até a cidade de Cacoal, que servirá de base para as gravações com os indígenas.

A BR 364 corta a paisagem verde passando por cima de rios e do lago criado pelas águas da hidrelétrica de Samuel, que gera parte da energia de Porto Velho. É uma paisagem encantadora, mas igualmente triste para quem é capaz de decodificar os rastros da ação do homem sobre o meio ambiente.

Onde antes era floresta, troncos de árvores mortas hoje espetam para fora do lago formado pela represa, formando os chamados “paliteiros”.

Ao largo das frondosas áreas de plantio de soja e arroz e de pastagem por onde a estrada passa, aparecem solitárias, aqui e ali, as palmeiras de babaçu, que acabam sendo deixadas de pé porque resistem aos dentes das serras elétricas.

“Quarenta etnias indígenas desapareceram por conta da construção dessa estrada”, frisou a porta-voz da associação indígena Kanindé, Ivaneide Bandeira Cardozo– ela que, junto com o representante da ONG Equipe de Conservação da Amazônia (ACT Brasil) Frederico Schlottfeldt, forma a agradável companhia neste estirão de asfalto.

“Foi construída com financiamento do Banco Mundial e foi a única vez em que o banco pediu desculpas publicamente por uma obra que custeou”, prossegue Ivaneide.
Vencemos os 450 quilômetros até Cacoal e tocamos, no sentido geográfico e simbólico, o coração da realidade desta terra.

Conversamos sobre movimento indígena e as diferentes culturas indígenas, conflitos fundiários, grilagem e desmatamento, mecanismos de desenvolvimento limpo e programas de reflorestamento e sequestro de carbono. E muito mais.

Questões que os Suruí estão ajudando a expor para o mundo com ajuda de tecnologia de ponta. É um permanente diálogo entre dois mundos.

Aqui e ali, Ivaneide pontua a conversa contando as “aventuras” dos Suruí no mundo dos “brancos”, como ela diz. Do estupor de alguns membros da etnia diante das brancas paisagens dos alpes suíços a uma prazerosa xícara de chá com o príncipe Charles em Londres. Uma intensa de viagens internacionais para angariar apoio às suas causas.

Mas são assuntos para outros posts. Deixemos de lado o mundo dos brancos, por ora. Nos próximos dias, os anfitriões são eles; eu e o leitor, os convidados.

Dia 1: Mudando conceitos
Virou lugar comum dizer que o poder da internet não conhece limites. Mas pense de novo - será? Será que a rede mundial de computadores chega nos grotões da África, nas áreas mais remotas da gélida Rússia, nos bolsões de pobreza da Amazônia brasileira?

Essa, aposto, é de fazer titubear. Porque a gente sabe, embora na maior parte do tempo nem se lembre, que a internet não vem num passe de mágica. Depende de computadores, conexões, sinais e, tão importante quanto tudo isso, educação digital. E essas condições não existem em qualquer lugar do mundo...

Este blog vai acompanhar a história de um povo indígena que tem conseguido vencer todas essas adversidades e se plugar, sim, no mundo virtual.

A tribo começou disponibilizando no Google Earth, o programa de mapas da gigante Google, um "mapa cultural" que conta a história dessa nação indígena que permaneceu incontactada até quase os anos 1970.

Se você for no YouTube, pode ver Clique imagens de como o projeto começou.

O próximo passo, dizem os Suruí, é usar programas de compartilhamento de fotos, como o Picasa, para denunciar a perda de florestas ao redor da reserva indígena.
Segundo eles mesmos, a tribo está "trocando o arco flecha pelo laptop" para impulsionar sua luta social e ambiental.

Não posso esperar para saber mais sobre como vencer desafios para criar um mundo verdadeiramente conectado, e avaliar o efeito da tecnologia moderna no dia-a-dia em um povo que também se orgulha de manter suas tradições.

A gigante de informática Google é parceira do projeto, e em uma escala em São Paulo eu conversei com o gerente de produtos da empresa, Marcelo Quintella, que foi um dos que estiveram lá na reserva Sete de Setembro para dar treinamento aos índios.

"Selecionamos 20 pessoas para receber treinamento de internet. Metade nunca tinha mexido em um mouse. Mas, dos outros dez, uns cinco sabiam usar o computador - não eram usuários diários de internet mas sabiam - e outros cinco tinham até email e (perfil no) Orkut", disse Marcelo.

Pelo visto, prepare-se para mudar os seus conceitos nos próximos dias.
E aliás: a internet também chega, sim, a grotões da África e partes remotas da Rússia. Basta acompanhar a série Superpotência, que a BBC põe no ar a partir desta semana, para conhecer as histórias por trás de cada uma das reportagens enviadas pelos nossos repórteres.

Se preferir, também pode fazer o contrário: ver como ocupantes de um edifício na Coréia do Sul, o país mais conectado do mundo, se viram sem conexão nenhuma.

Histórias que fazem pensar, talvez não seja a internet que não conhece limites. É que o desejo humano de transformar dramaticamente esse mundo, de abolir as fronteiras do acesso à informação e ao conhecimento é que é incontível.

Extrativistas buscam certificação florestal /// Estadão

Andrea Vialli - O Estado de S. Paulo


Comunidades tradicionais da Amazônia que trabalham com madeira de áreas de manejo controlado e produtos como óleos, castanhas e artesanato estão buscando a certificação florestal para conquistar consumidores. No País já há oito comunidades que usam em seus produtos a certificação FSC (Conselho de Manejo Florestal, na sigla em inglês), o selo verde mais conhecido no exterior.

No caso dos produtos amazônicos, especialmente a madeira, a certificação funciona como uma garantia de origem. “É uma maneira de mostrar para o consumidor que o produto foi feito sem promover o desmatamento ilegal, respeitando o conhecimento das comunidades tradicionais”, diz Patrícia Cota Gomes, coordenadora de certificação comunitária do Imaflora, entidade que realiza a certificação FSC no Brasil.

Segundo ela, embora ainda seja pequeno o número de comunidades certificadas, o interesse é crescente. O Brasil hoje possui a maior floresta certificada do mundo, com cerca de 4,7 milhões de hectares – sendo 2,5 milhões de hectares na Amazônia.

Um dos termômetros do crescimento do mercado para produtos com certificação florestal é a feira de negócios Brasil Certificado, que começa hoje, em São Paulo, e é aberta ao público. Realizada desde 2004, a feira apresenta produtores de madeira, celulose e papel, produtos não madeireiros (alimentos, cosméticos e essências) e este ano deverá trazer empresas do setor agroindustrial que possuem o selo Rainforest Alliance, para práticas agrícolas com menor impacto ambiental. A última edição do evento, em 2008, atraiu 3 mil visitantes e 39 expositores. Este ano serão 60 expositores.

Estratégia. A Cooperfloresta, cooperativa de produtores extrativistas do Acre, é uma das associações que reúne comunidades tradicionais e que conseguiu ampliar seu espaço no mercado graças à certificação florestal. O grupo, com sede em Rio Branco, agrupa e comercializa a produção de 88 famílias de produtores de madeira, organizados em 4 comunidades.

A madeira vem de planos de manejo, que, no Acre, são delimitados pelo governo do Estado. As propriedades passam por um zoneamento econômico e ecológico e por um plano de manejo, que determina a quantidade de madeira que poderá ser extraída sem prejuízo à regeneração da floresta. Depois, é feito o licenciamento ambiental.

“Atualmente, o manejo florestal é importante para a sobrevivência econômica das comunidades. E também para a manutenção da floresta em pé”, explica Evandro Araújo, superintendente da Cooperfloresta. Sua trajetória é semelhante à de muitos acreanos. Filho de seringueiros, Araújo desistiu da atividade por causa da falta de rentabilidade. Fez um curso de técnico florestal e hoje cuida da administração da Cooperfloresta. “Os desafios para uma comunidade que se certifica é ter acesso a mercados que paguem mais pela madeira explorada de forma sustentável. No Brasil, ainda são pequenos nichos que valorizam a origem do produto”, diz Araújo.

Apesar das dificuldades, os negócios vão bem. No ano passado, a Cooperfloresta conseguiu fechar contrato com uma empresa de Xapuri (AC) que produz e exporta pisos de madeira e aceitou pagar 75% a mais pela madeira certificada. A parceria permitiu à cooperativa produzir 6.340 metros cúbicos de madeira com selo verde, 165% a mais do que em 2008, quando a produção foi de 2.500 m³. “Cada cooperado recebeu R$ 5,2 mil de renda líquida, o que fez mais comunidades se interessarem pela certificação. Hoje a exploração controlada de madeira já representa 43% da renda das famílias, atrás apenas da castanha.”

Este ano, a Cooperfloresta pretende incluir 136 famílias de extrativistas no manejo florestal, o que, na prática, significa a extração de 13 mil m³ de madeira. Com isso, o faturamento da cooperativa deve triplicar.

Artesanato. No Pará, a certificação FSC também mudou a rotina da TucumArte, cooperativa de mulheres que trabalham com artesanato de tucumã, palmeira nativa da Amazônia. A comunidade de Urucureá, distante quatro horas de barco de Santarém, hoje consegue vender as cestas de tucumã para grandes lojas de decoração de São Paulo e do Rio.

“A certificação valorizou o produto e trouxe mais organização para a comunidade”, conta Rosângela Tapajós, gerente de vendas da TucumArte. As 32 mulheres que trabalham na cooperativa produzem 600 peças por mês, o que garante uma renda mensal média de R$ 300.

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