Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Suruí aposta em REDD como preservação da Floresta

Qua, 14 de Março de 2012 00:00
Iniciativa pioneira de REDD indígena garante preservação da floresta e autonomia dos povos. Sem contrato assinado, o Projeto Carbono Surui teve o processo de construção acompanhado pela FUNAI e submetido a uma validação independente, seguindo critérios e salvaguardas internacionais.

“É preciso afirmar que não há contrato nenhum assinado por nós. O Forest Trends, assim como outras organizações, nos fornece apoio técnico na formulação e implementação do projeto, assessoria jurídica, capacitação em pagamento por serviços ambientais, contato com investidores, análise de risco e outras ações que resguardam os nossos direitos” – declarou Almir Surui sobre o Projeto Florestal Carbono Suruí.

O líder do povo Paiter, por meio da Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí, convidou a Associação de Defesa Etnoambiental (Kanindé), Equipe de Conservação da Amazônia (ACT-Brasil), Forest Trends, Fundo Brasileiro para Biodiversidade (FUNBIO) e Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (IDESAM) para apoiar a construção de uma iniciativa de estoque de carbono.

Construído em 2007, o Projeto Carbono Surui se insere dentro do Plano de Gestão e é uma iniciativa pioneira do movimento indígena, representando uma ação de gestão ambiental para os povos indígenas Suruí da Terra Indígena Sete de Setembro. Entretanto não é isso que defende a matéria publicada ontem (12) pelo jornal estado de S. Paulo.

De acordo com a reportagem, as primeiras famílias indígenas escolhidas para receber o bolsa-família foram aquelas mais assediadas por projetos de carbono, com o objetivo de impedir a “venda” de direitos e benefícios da biodiversidade de seus territórios. De acordo com o presidente da Funai, Márcio Meira, “apesar da incerteza jurídica dos contratos, eles vêm crescendo na Amazônia e fogem ao controle do órgão”. Ainda de acordo com a reportagem, a falta de regras claras seria a origem das irregularidades com os índios.

“Nós não começamos a discutir o projeto de REDD+ pela idéia de sequestro carbono, mas como parte das ações de conservação, proteção e sustentabilidade previstas no Plano de Gestão que traz um planejamento para os próximos 50 anos do povo Surui” – declarou Almir. Foi debatendo a necessidade de criar programas, como o de cultura, fortalecimento institucional, saúde, educação e meio ambiente que surgiu a idéia de desenvolver uma iniciativa de incentivo ambiental, com vistas à promover atividades de proteção, fiscalização, produção sustentável e melhoria da capacidade local.

Primeira iniciativa indígena, o projeto dos Surui teve a participação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), tanto em nível local quanto nacional, durante todo o processo. Apesar de não aconselhar a assinatura de um contrato, o órgão indigenista recomenda o Projeto como um bom exemplo (ver documento).

"O povo Suruí, quando foi procurado para celebrar um contrato de crédito de carbono imediatamente fez o certo; procurou a FUNAI para que pudesse orientá-los primeiro o que é REDD, o que é crédito de carbono e como que isso pode ser feito. Tivemos uma série de reuniões com eles e estamos orientando-os para que, quando no futuro, eventualmente seja regulamentado, eles possam assinar um contrato legal” – destacou Márcio Meira, presidente da FUNAI durante coletiva de imprensa realizada hoje (14), quarta-feira. (Assista ao vídeo na íntegra)

Com o intuito de garantir a autonomia do gerenciamento dos recursos obtidos pelo Carbono Surui e transformar esses benefícios em ações em prol das comunidades foi proposta pelos indígenas a criação do Fundo Surui; um mecanismo financeiro que tem o papel de fazer a gestão dos ativos do projeto e outras atividades de renda dentro do Plano de Gestão. Ou seja, quando aprovado um contrato, os recursos oriundos pela venda dos créditos de carbono e provenientes de outras fontes serão partes que integrarão o Fundo Surui. O responsável pelo desenho e desenvolvimento do Fundo é o FUNBIO, que também capacitará a comunidade para a implantação desse mecanismo.

As organizações parceiras têm apoiado a realização do Projeto Carbono Surui, a construção de seu documento de concepção, que descreve as atividades e o potencial de redução de emissões, assim como a situação de conservação da terra indígena, sua riqueza em termos de biodiversidade, a relação da comunidade com o meio ambiente e o processo de consentimento livre, prévio e informado, que culminou na assinatura de um acordo de cooperação entre seus quatro clãs, visando garantir salvaguardas socioambientais para as comunidades.

O projeto foi divulgado publicamente em duas audiências públicas, sendo uma na Câmara de Vereadores de Cacoal (RO) e na Câmara de Vereadores de Rondolândia (MT), para que a população não indígena pudesse se manifestar. Também foi apresentado ao Ministério Público e ao Governo do Estado de Rondônia que emitiu um documento de apoio ao Projeto.

Entre os benefícios adicionais dessa iniciativa, os realizadores esperam que ela possa contribuir para a conservação da biodiversidade, melhoria na qualidade de vida das comunidades, manutenção de bacias hidrográficas, recuperação de áreas degradadas e o reflorestamento e fortalecimento da cultura indígena. O intuito do Projeto de REDD+ da Metareilá é ser um mecanismo de financiamento de longo prazo para subsidiar um dos pilares do plano de gestão sustentável das comunidades indígenas.

A Terra Indígena Sete de Setembro contempla uma área de aproximadamente 248.000 hectares, abrangendo os estados de Rondônia (RO) e Mato Grosso (MT) e uma população de cerca de 1,3 mil habitantes.

Portal do Observatório do REDD

O Projeto Carbono Surui foi o primeiro a se cadastrar no Portal OR e divulgar informações acerca do processo de construção da iniciativa. Além dos dados citados acima essa página do Portal contém fotos, publicações, documentos, vídeos e artigos sobre o projeto. Além disso, um questionário de perguntas baseadas nos Princípios e Critérios Socioambientais de REDD+ foi preenchido pelo proponente.

O Portal do Observatório do REDD é uma plataforma online cujo papel é de comunicar as informações dos projetos e programas de REDD, de forma a promover a transparência, controle social e diálogo entre os atores envolvidos. Para acessar todas essas informações clique aqui.

O mecanismo

Há alguns anos o mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) tem sido alvo dos debates sobre mudanças climáticas, com destaque para Convenção Quadro das Nações Unidas sobre mudança do clima (UNFCCC, em inglês). Com maior biodiversidade do Planeta a Amazônia está ameaçada pela produção agropecuária, de soja e extração ilegal de madeira, práticas responsáveis por maior parte das emissões brasileiras de gases poluentes na atmosfera. Nesse contexto muitas organizações acreditam que o REDD possa ser uma alternativa econômica (oportunidade) para viabilizar a preservação da floresta, da biodiversidade e, consequentemente apoiar o modo de vida dos povos da floresta.

Esse é um tema distante de consenso nos debates sobre mitigação às mudanças climáticas no Brasil e no mundo. Em vários, campos, notadamente nos movimentos populares, há uma declarada resistência aos mecanismos de REDD, principalmente no seu formato de mercado. As críticas giram em torno das incertezas que envolvem o mecanismo, da forma em que as comunidades indígenas vêm sendo abordadas e da desconfiança de determinados setores de que as soluções de mercado sejam capazes de solucionar o problema ambiental sem impactar culturalmente as populações.

Apesar das opiniões divergentes sobre o tema, muitos atores apostam na urgência da definição de um Plano Nacional de REDD, que em breve trará luz e regulamentação para esse tipo de iniciativa.

Validação independente

O Projeto Carbono Surui foi submetido a um processo de validação independente para assegurar o cumprimento de normas internacionais relacionadas aos cálculos de redução de emissões e ao atendimento a salvaguardas socioambientais. Assim, este projeto é o primeiro projeto indígena de REDD+ a passar por uma validação segundo os sistemas internacionais VCS (Verified Carbon Standard) e CCBA (Clima, Comunidade e Biodiversidade). Estes processos de validação, conduzidos pelo Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e pela Rainforest Alliance, estão em sua fase final e espera-se que a validação formal seja emitida nos próximos dias.


Assessoria de Comunicação – Observatório do REDD

Tribo usa internet como instrumento de integração e ativismo /// BBC Brasil



O repórter da BBC Brasil Pablo Uchoa saiu de Londres para passar três dias com a tribo dos Suruí, os donos da reserva Sete de Setembro, na divisa de Rondônia com o Mato Grosso.

A viagem faz parte da série Superpotência que investiga o impacto da internet.

Em um projeto pioneiro, os indígenas estão usando a internet como meio de auto-afirmação cultural e política, e de ativismo contra o desmatamento da Amazônia, que ameaça a integridade das suas terras.

Acompanhe o diário.

Dia 5: Os ventos da mudança

Gasodá Suruí e Tori Tupari, chamemo-los por seus nomes indígenas, se conheceram no Orkut, flertaram pelo MSN Messenger e agora, casados, observam achando graça o aparato do jornalista que montou uma câmera de vídeo e improvisou um auxiliar técnico para segurar o microfone boom, medidas essenciais para garantir a boa captação de imagem e som e, assim, a qualidade técnica da matéria.

O jornalista, o leitor já desconfia, é esse que vos escreve. E o casal, quando a entrevista se inicia, no fim das contas nem é tão tímido assim. Pelo contrário, estão acostumados a serem o centro das atenções, na qualidade de único casal internético indígena por estas bandas.

A história deles, que o leitor conhecerá em breve, quando a BBC Brasil colocar no ar as matérias em texto e vídeo, é uma dessas narrativas pela qual vale a pena cruzar o Atlântico. As coisas estão mudando por estes lados. E ao mesmo tempo, permanecem como eram antes.

No cair da tarde, com todos os moradores da aldeia de volta às suas casas, o lugar imerge em uma pacata vida comunitária. As mulheres assam a carne e pilam a farinha de mandioca para a paçoca. A mãe do líder Almir Suruí conta histórias de caçadas e pajelança para o grupo, em dialeto Páiter. As casas de madeira têm luz elétrica, mas basta caminhar 30 metros para longe delas e já se pode contemplar o céu limpo, cheio de estrelas.

Só nos 45 minutos de estrada de barro que separam a terra indígena da estrada de asfalto é que me dou conta da distância – física, é claro, mas também em vários sentidos figurados – de casa. Ao longo de toda esta viagem, a distância às vezes diminuiu, como quando Gasodá e Tori contaram sua história que, em sua essência, tirando as cores do cenário, é bastante parecida com a de qualquer casal de jovens que se conheceu na internet em qualquer lugar do mundo.

Mas Almir e Neide não esquecem de que seu mundo e o meu são mundos diferentes. Fazem questão de me escoltar até a cidade de Cacoal porque sabem que jornalistas estrangeiros aqui podem ser mal vistos por dar voz aos indígenas, que tentam manter suas raízes e preservar o meio ambiente em que vivem. Para muitos, isso é impedir o progresso.

Para além da reserva indígena, agora sou capaz de perceber a transformação que se operou por aqui. Deixo Cacoal antes da primeira luz do dia e, quando os raios de sol iluminam a estrada, o que vejo é uma paisagem que associo mais ao Pantanal que à Amazônia. Pastos e áreas de agricultura mecanizada formam uma sequência nos 500 km até Porto Velho.

No rádio do carro, os programas tocam sertanejo entre comerciais de frigoríficos e indústrias de máquinas e químicos. A música é bonita. É uma cultura de cowboys, de rodeios, de criação de gado. Em outro canal, em um programa só de músicas do Nordeste, o apresentador “acorda” os ouvintes riscando a lâmina de uma peixeira.
É um reflexo, creio, da composição social desta parte da Amazônia e de outras. O problema é que nem todas estas partes da mesma sociedade convivem em paz aqui. E eu não vou fazer chover no molhado, listando para o leitor a tensão por conta dos conflitos fundiários, ambientais e sociais da região.

Esta reportagem, que se originou a partir de uma história isolada dos Suruí e sua parceira com a internet, acabou servindo de metáfora das pressões por transformações sobre a Amazônia brasileira. Mas que reportagem não o faria? Não são poucas as divergências sobre o que deve ser esta transformação, em que ritmo ela deve ocorrer e qual deve ser o resultado dela.
Os ventos da mudança sopram forte por aqui. E ninguém sabe para onde eles vão levar em 30, 40, 50 anos.

Dia 4: O 'tempo amazônico'

Neidinha, como todo mundo chama Ivaneide Cardozo por aqui, gosta de dizer, sempre, "o tempo amazônico" é diferente.
E eu acho que qualquer um entende o que ela quer dizer com isso, em princípio. Mas só mesmo passando umas poucas e boas para saber, com todas as letras, o que é que ela chama de "tempo amazônico".

Neidinha recorda seu ditado enquanto esperamos que passe a chuva torrencial que começou a cair e não parou mais, deixando pouca opção senão estirar-nos nas redes da varanda da casa do líder Suruí, Almir, na aldeia de Lapetanha, a pouco mais de uma hora de Cacoal.

É uma espécie de pausa forçada no trabalho. Mas contra a força da natureza não há o que fazer.
Lapetanha, a aldeia mais próxima da estrada de asfalto, segue seu ritmo habitual. Poucas casas de madeira entre as quais se destacam uma ou outra maloca típica, de teto de palha seca. Sou informado de que a maior, que podia receber até 200 pessoas, pegou fogo não muito tempo atrás.

Antigamente, a aldeia se estendia até Cacoal e os índios eram 5 mil, me dizem. O contato com o homem branco, em 1969, dizimou grande parte da etnia, que chegou a ter apenas 250 membros e agora tem 1.350.

Fiz e refiz inúmeras vezes imagens das crianças que brincam na aldeia e dos cães que me olham com cara de bocejo enquanto caminho de lá para cá de tripé na mão. Adiante, uma mulher faz um colar de coquinhos enquanto ferve pupunha e castanha. Mais cedo, antes da chuva, outra lavava roupa em um tanque com uma máquina de lavar do lado.

Demos o azar de desencontrar uns membros da tribo que estão monitorando as florestas da reserva Sete de Setembro usando GPS. Agora, é preciso esperar até amanhã. O tempo amazônico.

Cabe-nos experimentar a vida na aldeia. Jogar conversa fora aqui e ali com os moradores. Os jovens demais não falam português ainda, só tupi mondé; os adolescentes e adultos jovens falam as duas línguas; os mais velhos, sempre falaram só o tupi mondé.

Do nada, a oportunidade para fazer gravações aparece, como quando Arildo, um dos coordenadores de cultura dos Suruí, disse que nos mostraria o centro de cultura do vilarejo, que possui alguns computadores.

Mal ele abriu a sala, um enxame de garotos e garotas de oito ou dez anos voou para os dois computadores nos quais um programa dá informações sobre as aves nativas e reproduz o canto dos pássaros.

Os garotos ainda são muito jovens para receber treinamento em computação, mas demonstram um entusiasmo incrível. Arildo me ajuda com o tupi mondé para conversar com um deles

Mais tarde, repassando as gravações do dia, divirto-me com a festa de "passarinhos" que ilustra o pano de fundo. Isso foi na "hora do computador", se é que posso falar assim. Mas tudo no seu devido tempo.

Antes, quando o "tempo amazônico" da Neidinha ainda nos "impunha" a contemplação, os passarinhos que povoaram minhas gravações foram outros, os de verdade. Com o microfone em punho para captar sons para um programa de rádio que prometi para o serviço em inglês, me embrenhei no mato e deixei o equipamento "ouvir" os sons da floresta.

Foi uma sinfonia de cantos. Lembrei-me de uma rádio londrina que só toca o som dos passarinhos – a rádio Birdsong, vejam que criativo – e que estourou na audiência, sugerindo o quanto nossa corrida vida moderna sente falta disso no dia-a-dia.

Deixei-me levar pela suavidade dos sons, e se não fosse pela bufada de um cavalo, a coisa mais barulhenta que soou em muitos minutos, teria continuado por outros mais.

E ainda há os que não têm tempo para perceber essas coisas simples da vida. Para esses, uma boa dose de "tempo amazônico", tempo para parar e contemplar a existência, não faria nada mal.


Dia 3: Um líder indígena 'bem na foto'

"Sua câmera é bem pequeninha. Tenho medo dessas coisas assim."

Almir, o líder dos Suruí, me observa de lá fazendo cara de desconfiança. Posicionei-o para nossa entrevista a alguns metros de distância, o que no plano fechado da minha lente cria um agradável efeito de fundo, e no plano aberto mostra a grama verdinha e uma maloca indígena típica dos Suruí.

Sei que sua declaração é só charme. Ora, se há um povo indígena que percebeu muito bem a utilidade desses pequenos gadgets e faz uso deles de maneira pioneira e criativa, esse povo se chama Suruí. Mostrar isso não é justamente o propósito da minha visita aqui?

"Imagine", respondo. "Nisso sei que quem dá aula são vocês."
Almir me recebeu na sede de sua associação, Metareilá, em Cacoal, com uma apresentação de Powerpoint feita sob medida para o interlocutor que o escuta pela primeira vez. De um laptop pequeninho, que fez o meu trombolho passar vergonha, ele projetou as imagens do desmatamento ao redor da reserva indígena Sete de Setembro na parede de sua sala.

Internet, Picasa, Google Earth, todas essas são ferramentas de que ouvi falar uma porção de vezes conversando sobre os projetos dos Suruí.

E o xodó deles já nem é mais o computador ou o laptop, e sim os telefones que tiram fotos e enviam por internet. Um carregamento desses deve chegar em breve e permitir aos indígenas postar fotos do desmatamento na internet em tempo real, poupando o tempo do download e do envio.

Os Suruí não são os únicos nem os primeiros a utilizar a tecnologia moderna em seu benefício. Há seis anos, editei um programa de TV sobre os Kamayurá, que vivem no Xingu, e entre os diversos personagens havia um que era cinegrafista e contava como essa tecnologia vinha ajudando os indígenas a registrar suas tradições orais.

O que diferencia os Suruí é a maneira criativa e pioneira, para repetir minhas próprias palavras, de integrar estas tecnologias a um plano de desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Algo que tem sido creditado à visão de longo alcance de Almir. Curiosamente, o clã dele é responsável, entre o povo Suruí, por tratar dos assuntos ligados à guerra, à diplomacia e ao meio-ambiente. Ao ‘trocar o arco-e-flecha pelo laptop’, ele revolucionou os três campos de uma só vez.

Demonstrou um notável talento político, e se o leitor me perdoa a ousadia, inclusive certa qualidade de estadista. E lá nas prateleiras da Associação Metareilá estão reportagens e reportagens, a grande maioria publicadas em jornais estrangeiros, sobre Almir e a luta ambiental dos Suruí. Inclusive uma edição da revista Época que o coloca entre os cem brasileiros mais influentes do país.

No fim de nossa entrevista, para efeito de making of, Fred, da ONG ACT Brasil, nos sugere que tiremos uma foto conjunta.
"Se até o Príncipe Charles tirou uma foto com o Almir, eu também quero", disse Fred, referindo-se a uma imagem de Almir com o príncipe herdeiro britânico exposta na sala do líder indígena.

Almir, que por acaso deve ter sabido de minhas andanças pelo mundo cobrindo as viagens de outro lider, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, não perdeu a piada.

"Então vamos. Se até o Lula tira foto com o Pablo, então eu também quero."
Sei, sei. Pode ter sido só brincadeira, mas a comparação com Lula me deixou com a pulga atrás da orelha. E me diverti pensando que pode ter sido apenas um deslize da modéstia de Almir, tentando esconder ambições maiores.

Dia 2: Na floresta verde, tapete vermelho para os convidados

Continuando viagem a aldeia dos Suruí, em Rondônia, desde muito cedo botei o pé na estrada – e quanta estrada.
Por um desses mal-entendidos de roteiro, fui pego de surpresa ao desembarcar em Porto Velho, após uma conexão em Brasília, e descobrir que ainda estava a sete ou oito horas de viagem de carro até a cidade de Cacoal, que servirá de base para as gravações com os indígenas.

A BR 364 corta a paisagem verde passando por cima de rios e do lago criado pelas águas da hidrelétrica de Samuel, que gera parte da energia de Porto Velho. É uma paisagem encantadora, mas igualmente triste para quem é capaz de decodificar os rastros da ação do homem sobre o meio ambiente.

Onde antes era floresta, troncos de árvores mortas hoje espetam para fora do lago formado pela represa, formando os chamados “paliteiros”.

Ao largo das frondosas áreas de plantio de soja e arroz e de pastagem por onde a estrada passa, aparecem solitárias, aqui e ali, as palmeiras de babaçu, que acabam sendo deixadas de pé porque resistem aos dentes das serras elétricas.

“Quarenta etnias indígenas desapareceram por conta da construção dessa estrada”, frisou a porta-voz da associação indígena Kanindé, Ivaneide Bandeira Cardozo– ela que, junto com o representante da ONG Equipe de Conservação da Amazônia (ACT Brasil) Frederico Schlottfeldt, forma a agradável companhia neste estirão de asfalto.

“Foi construída com financiamento do Banco Mundial e foi a única vez em que o banco pediu desculpas publicamente por uma obra que custeou”, prossegue Ivaneide.
Vencemos os 450 quilômetros até Cacoal e tocamos, no sentido geográfico e simbólico, o coração da realidade desta terra.

Conversamos sobre movimento indígena e as diferentes culturas indígenas, conflitos fundiários, grilagem e desmatamento, mecanismos de desenvolvimento limpo e programas de reflorestamento e sequestro de carbono. E muito mais.

Questões que os Suruí estão ajudando a expor para o mundo com ajuda de tecnologia de ponta. É um permanente diálogo entre dois mundos.

Aqui e ali, Ivaneide pontua a conversa contando as “aventuras” dos Suruí no mundo dos “brancos”, como ela diz. Do estupor de alguns membros da etnia diante das brancas paisagens dos alpes suíços a uma prazerosa xícara de chá com o príncipe Charles em Londres. Uma intensa de viagens internacionais para angariar apoio às suas causas.

Mas são assuntos para outros posts. Deixemos de lado o mundo dos brancos, por ora. Nos próximos dias, os anfitriões são eles; eu e o leitor, os convidados.

Dia 1: Mudando conceitos
Virou lugar comum dizer que o poder da internet não conhece limites. Mas pense de novo - será? Será que a rede mundial de computadores chega nos grotões da África, nas áreas mais remotas da gélida Rússia, nos bolsões de pobreza da Amazônia brasileira?

Essa, aposto, é de fazer titubear. Porque a gente sabe, embora na maior parte do tempo nem se lembre, que a internet não vem num passe de mágica. Depende de computadores, conexões, sinais e, tão importante quanto tudo isso, educação digital. E essas condições não existem em qualquer lugar do mundo...

Este blog vai acompanhar a história de um povo indígena que tem conseguido vencer todas essas adversidades e se plugar, sim, no mundo virtual.

A tribo começou disponibilizando no Google Earth, o programa de mapas da gigante Google, um "mapa cultural" que conta a história dessa nação indígena que permaneceu incontactada até quase os anos 1970.

Se você for no YouTube, pode ver Clique imagens de como o projeto começou.

O próximo passo, dizem os Suruí, é usar programas de compartilhamento de fotos, como o Picasa, para denunciar a perda de florestas ao redor da reserva indígena.
Segundo eles mesmos, a tribo está "trocando o arco flecha pelo laptop" para impulsionar sua luta social e ambiental.

Não posso esperar para saber mais sobre como vencer desafios para criar um mundo verdadeiramente conectado, e avaliar o efeito da tecnologia moderna no dia-a-dia em um povo que também se orgulha de manter suas tradições.

A gigante de informática Google é parceira do projeto, e em uma escala em São Paulo eu conversei com o gerente de produtos da empresa, Marcelo Quintella, que foi um dos que estiveram lá na reserva Sete de Setembro para dar treinamento aos índios.

"Selecionamos 20 pessoas para receber treinamento de internet. Metade nunca tinha mexido em um mouse. Mas, dos outros dez, uns cinco sabiam usar o computador - não eram usuários diários de internet mas sabiam - e outros cinco tinham até email e (perfil no) Orkut", disse Marcelo.

Pelo visto, prepare-se para mudar os seus conceitos nos próximos dias.
E aliás: a internet também chega, sim, a grotões da África e partes remotas da Rússia. Basta acompanhar a série Superpotência, que a BBC põe no ar a partir desta semana, para conhecer as histórias por trás de cada uma das reportagens enviadas pelos nossos repórteres.

Se preferir, também pode fazer o contrário: ver como ocupantes de um edifício na Coréia do Sul, o país mais conectado do mundo, se viram sem conexão nenhuma.

Histórias que fazem pensar, talvez não seja a internet que não conhece limites. É que o desejo humano de transformar dramaticamente esse mundo, de abolir as fronteiras do acesso à informação e ao conhecimento é que é incontível.

Tribo na Amazônia quer garantir futuro com projeto de carbono /// BBC Brasil



Uma etnia indígena da Amazônia brasileira quer ser pioneira na elaboração de um projeto de redução de carbono para financiar o seu desenvolvimento de forma sustentável.


Os Surui, que detêm a posse da reserva Sete de Setembro, na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, querem receber recursos para manter a floresta de pé, e aplicar o dinheiro em um plano de desenvolvimento capaz de garantir pelo menos meio século de sobrevivência da etnia.

A reserva, homologada em 1983, tem uma área total de cerca de 248 mil hectares, dos quais 243 mil ainda estão preservados. A idéia é que a etnia se comprometa a evitar o desmatamento dentro desta área e, em troca, receba recursos oriundos da não-emissão de CO2 na atmosfera.

Para saber quanto carbono deixará de ser emitido, técnicos do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Idesan) estão fazendo um estudo do estado de degradação da área e de como ela poderia ser recuperada a partir da adoção de atividades sustentáveis.

O modelo deve ficar pronto até o fim de junho. A partir dele, um plano deve ser desenvolvido até setembro.
A atividade econômica na reserva já deixou uma marca de degradação na terra. O primeiro contato com o homem branco, em 1969, fez a população cair de 5 mil habitantes para em torno de 250 pessoas. As doenças e os conflitos com os madeireiros ilegais levaram à escassez dos recursos.

Atividades de exploração degradaram parte da reserva de 248 mil hectares
Sem fonte de renda, muitos indígenas fizeram acordos para explorar a madeira ao redor de suas aldeias. Outros arrendaram terras para a pecuária ou para o plantio do café. Uma situação que perdurou até há poucos anos.

"O território está relativamente conservado, mas a tendência para o futuro é de que, sem nenhum projeto, aumente a área desmatada", explica o coordenador do estudo de campo, Gabriel Carrero.

"Nosso trabalho hoje é entrar na terra indígena para procurar essas áreas de degradação e avaliar o grau de degradação."

A pesquisadora do Idesan Claudia Vitel diz que a definição desta variável permitirá estimar quanto carbono poderia deixar de ser emitido até 2050 a partir de atividades sustentáveis que podem "afetar a cobertura da terra no futuro".

Essa estimativa, a da quantidade de CO2 não-emitido é convertida em créditos de carbono, que são vendidos no mercado internacional. Uma tonelada de CO2 equivale a um crédito de carbono. O preço do crédito tem variado muito, está em torno de 13 euros (cerca de R$ 30).

Com o estudo, o Idesan quer obter certificações internacionais para garantir a validade do projeto e atrair recursos de investidores.

Feição indígena
Não será o primeiro projeto de redução de emissões de carbono por desmatamento e degradação – mais conhecidos pela sigla Redd – no Brasil, mas os Surui querem que este seja o primeiro intimamente relacionado à sobrevivência de uma etnia indígena.

Indígenas querem aplicar recursos na melhoria das condições de vida
O projeto de Redd mais citado e reconhecido no país, na Reserva Juma, no Amazonas, representa uma forma de ajuda para ribeirinhos, mas não necessariamente indígenas.

"O fato de ser indígena é um diferencial para os Surui", diz o diretor da ONG Equipe de Conservação da Amazônia (ACT-Brasil), Vasco van Roosmalen, parceiras dos Surui em diversos projetos, inclusive no de Redd.

O líder da etnia, Almir Surui, diz que os recursos serão aplicados em um plano de desenvolvimento sustentável da etnia que engloba os próximos 50 anos.

O planejamento prevê, por exemplo, a produção sustentável de castanha, óleo de copaíba e café orgânico e a prestação dos chamados "serviços ambientais", como turismo. Outra parte do dinheiro seria destinada ao fortalecimento das associações da etnia, e à educação e à saúde da população.

"Temos de construir um futuro de longo prazo, que garanta as gerações. Se a gente tiver responsabilidade no plano de desenvolvimento, esses produtos florestais podem ser ferramentas que fortalecem a economia verde e os Surui, economicamente", diz Almir.

Roosmalen, da ACT-Brasil, explica outro ponto que chama atenção no projeto dos Surui: o mecanismo do fundo que receberá os recursos provenientes da venda dos créditos de carbono.

Segundo ele, a aplicação do dinheiro será decidida por representantes dos quatro clãs dos Suruí, "talvez um ou dois", diz Vasco. É possível ainda que tenham voz no fundo lideranças de associações indígenas.

As organizações parceiras dos Surui podem ter um papel no mecanismo, mas apenas consultivo.
Temos de construir um futuro de longo prazo, que garanta as gerações. Esses produtos florestais podem ser ferramentas que fortalecem a economia verde e os Surui, economicamente.

Almir Suruí, líder indígena
"A redução de emissão é deles (dos Surui), então a decisão (sobre a aplicação dos recursos) é deles", diz o diretor da ONG. "Também a responsabilidade se eles não conseguirem conter as emissões é deles."

Futuro
Os projetos de Redd são um dos principais mecanismos para incentivar a preservação de florestas após 2012, quando, espera-se, entre em vigor um acordo do clima para substituir o atual Protocolo de Kyoto, que expira nesta data.

Porém, a definição exata de como será o mecanismo de venda de carbono ainda não está clara, porque o próprio acordo ainda está indefinido.

Os projetos pioneiros em andamento ou em estado de planejamento se dão em arranjos pontuais.

O desmatamento responde por quase 20% das emissões globais de carbono e a maioria das emissões do Brasil.

Informação & Conhecimento