Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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China lidera ações de combate à mudança climática, aponta estudo

No entanto, país ainda enfrenta graves problemas como a poluição.
EUA também lideram ações; crise econômica ajudou a baixar emissões.

Do G1, em São Paulo

A Agência espacial americana (Nasa) divulga imagem de satélite que mostram a névoa espessa de poluição que cobre Pequim, capital da China, no início do ano. Estudo aponta que o país se tornou protagonista no combate às mudanças climáticas (Foto: Reuters/Nasa/Terra - Modis)

A China está rapidamente assumindo um papel de liderança global frente às mudanças climáticas, protagonismo que é dividido com os Estados Unidos, revela um estudo publicado nesta segunda-feira (29), o qual alertou que as emissões globais de gases de efeito estufa continuam a crescer com força.
O informe da Comissão do Clima, uma organização independente sediada na Austrália, intitulado "A década crítica: ação internacional contra as mudanças climáticas" oferece um panorama geral das ações empreendidas nos últimos nove meses.

O documento é divulgado ao mesmo tempo em que inicia uma nova rodada de negociações climáticas da Organização das Nações Unidas, em Bonn, sobre como estimular as ações contra esse processo que já dura duas décadas, tem sido marcado por disputas processuais e defesa de interesses nacionais.

Segundo a agência France Presse, o estudo revelou que todas as grandes economias do mundo têm políticas em andamento para abordar a questão, mas que a China assume um papel de liderança ao fortalecer suas respostas, 'dando passos ambiciosos para inserir as energias renováveis à sua matriz'.
'"A China está acelerando as ações", afirmou Tim Flannery, co-autor do estudo e figura chave da Comissão do Clima, que reúne cientistas internacionalmente reconhecidos, assim como líderes políticos e de negócios.

"Depois de anos de um forte crescimento do uso do carvão, ele começou a se estabilizar. Estão começando a colocar em andamento sete esquemas de comércio de emissões, que cobrirão 250 milhões de pessoas", afirmou.
saiba mais

Apesar das ações, desde o começo do ano as grandes cidades do país, como Pequim e Xangai, sofrem constantemente com névoas densas de poluição. O governo precisou intervir e anunciou em janeiro que iria divulgar novas regras sobre como a capital da China deve reagir à perigosa poluição do ar.
As regras vão formalizar medidas pontuais tomadas anteriormente, incluindo o fechamento de fábricas, corte na queima de carvão e a proibição de certas classes de veículos nas estradas nos dias em que a poluição atingir níveis inaceitáveis.

Parceria
O estudo acrescentou que a China, que este mês concordou em trabalhar com os Estados Unidos para fazer frente ao aquecimento global, quer "posicionar os dois países na liderança mundial em energias renováveis". "Qualquer que seja a razão, os resultados falam por si. A China está rapidamente movendo-se rumo ao topo da liderança no que diz respeito às mudanças climáticas", afirmou Flannery.

Segundo o estudo, só em 2012 a China investiu US$ 65,1 bilhões em energias limpas, 20% mais que em 2011, um feito comparação com outros países e que representou 30% de todos os investimentos dos membros do G20 no ano passado.
O informe apontou ainda que a capacidade elétrica chinesa a partir da energia solar se expandiu 75% no ano passado, enquanto o volume de eletricidade gerada a partir do vento em 2012 foi 36% maior do que em 2011.

Os Estados Unidos, que ao lado da China produzem 37% das emissões mundiais de gases estufa, também fortaleceram significativamente sua resposta às mudanças climáticas, investindo US$35,6 bilhões em energias renováveis no ano passado, sendo superados apenas por Pequim.

Crise econômica "ajudou" a frear emissões
O informe destacou que o impacto do declínio econômico e a mudança progressiva do carvão para o gás manteve Washington no caminho de alcançar suas metas de redução de emissões em 17% em 2020 com base nos níveis de 2005.

"Foram estabelecidos importantes alicerces que são propensos a ter um impacto duradouro nas próximas décadas", acrescentou, apontando para a Califórnia, a nona maior economia do mundo, e que inicia um esquema de comércio de emissões em janeiro.
Mais da metade dos Estados americanos agora tem políticas para encorajar o uso das energias renováveis. Além de China e Estados Unidos, atualmente 98 países assumiram compromissos para limitar suas emissões.

"A energia renovável aumenta em todo o mundo, com a capacidade solar crescendo 42% e eólica, 21% em apenas um ano", disse Flannery. "Com tanto dinamismo global, esta é claramente o início da era da energia limpa", emendou. Mas apesar dos avanços, o informe alertou que as ações ainda não são suficientes. "As emissões continuam a crescer.

Vá às compras e salve o mundo

Finalmente, um discurso sustentável vem absolver nosso pecado favorito: o consumismo. Entenda aqui como é possível se esbaldar nas lojas sem poluir o ambiente. A resposta está na árvore ao seu lado

Sabine Righetti e Karin Hueck

Superinteressante / Edição Verde – 12/2011

Não ande de carro, não coma carne, não produza lixo, não gaste água e nem ouse ter filhos. Poucas coisas são tão negativas (e chatas) quanto o discurso ecológico radical, que prega que devemos fazer de tudo para causar o menor estrago possível ao ambiente. Não é à toa que muitos não aguentam mais ouvir falar no assunto. Mas finalmente uma nova proposta percebeu que fazer "menos mal" ao planeta ainda não é o suficiente - é preciso não causar mal algum. (Afinal, gastar menos água ainda é gastar água.) E o melhor: esse novo discurso alivia a consciência dos ecopecadores. Com ele poderemos - não, melhor, precisaremos - fazer compras à vontade, porque assim estaremos também salvando o planeta. Já que empresas sempre vão procurar o lucro e as pessoas sempre vão querer o novo iPod ou a TV de led, o jeito é fazer isso combinar com sustentabilidade. E como isso seria possível? Imitando a natureza e reciclando os produtos eternamente. Parece difícil, mas já está acontecendo - e vai exigir uma mudança de hábito comparável à Revolução Industrial, envolvendo empresas, cidades, casas e pessoas.

Uma dupla de pesquisadores tem trabalhado com fervor nessa, digamos, missão impossível da sustentabilidade. William McDonaugh, designer americano, e Michael Braungart, químico alemão, lançaram a nova proposta num livro chamado Cradle to Cradle - Remaking the Way We Make Things ("Do Berço ao Berço: Repensando a Maneira Como Fazemos as Coisas").

Sua teoria defende que nossos produtos de consumo sejam fabricados imitando as leis da natureza, reaproveitando todos os elementos, num ciclo de vida infinito. As empresas seriam sediadas em prédios que, assim como as árvores, produzem mais energia do que consomem (já existe uma construção assim nos EUA, que é mantida com placas de energia solar). Os dejetos seriam tão saudáveis quanto a água potável. E o mais importante: os produtos seriam feitos já pensando em como seriam reciclados e reabsorvidos pela natureza - como uma maçã que cai da árvore é reaproveitada pelo solo ao redor.

À MODA ANTIGA
É assim que se reaproveitam os materiais na reciclagem tradicional. Mas, mesmo quando a garrafa pet vira brinquedo, seu destino continua sendo o lixo. – Veja infográfico

Colocando em ordem prática, isso não é exatamente difícil de fazer. Os autores testaram a lógica em seu próprio livro, que foi impresso em folhas de plástico com tinta não poluente que, ao serem folheadas, fazem um som de cartas de baralho. A publicação pode se transformar em outra desde que suas páginas sejam aquecidas e limpas de uma maneira específica. É um livro se transformando em outro - em uso interminável como a natureza. Mas a verdade é que isso pode ser feito com quase tudo: boa parte do que consumimos hoje em dia, de embalagens a eletrônicos, tem insumos suficientes para gerar novos produtos iguais aos anteriores, sem perda de qualidade. Basta que se aprendam os processos necessários para extrair, purificar e reutilizar esses insumos. No extremo ideal, seria fazer com que tudo funcionasse como as latinhas de alumínio. O caso do alumínio é espetacular: a lata pode ser reciclada infinitamente sem perder qualidade, e cada item vendido num supermercado volta a ser colocado na prateleira para o consumidor em 30 dias.

Mas o melhor exemplo para essa nova ideologia de produção é um tecido desenvolvido pela empresa suíça Rohner com a ajuda dos dois pesquisadores do Berço ao Berço. O DesignTex serve para forrar móveis de escritório - só que com uma diferença. Ele é totalmente biodegradável e seu dejeto tem impacto zero no ambiente. Para chegar a esse resultado, a empresa examinou os 8 mil materiais que normalmente são usados na fabricação de tecidos, e escolheu apenas os 16 mais seguros e de origem garantida (até o algodão ficou de fora porque seu plantio é responsável por 20% dos inseticidas usados no mundo). O resultado? "O time desenhou um tecido tão seguro que poderia ser comido", escreve McDonaugh em seu livro. De fato, os restos de tecidos que hoje são fabricados na Rohner viram adubo para fazendeiros próximos.



LAVOU, TÁ NOVO
O papel, apesar de vir de um recurso renovável (as árvores), também não é infinito. Não é possível reciclar o papel eternamente, porque suas fibras vão se desgastando. – Veja infográfico


NOVA ORDEM MUNDIAL
Ampliando a proposta dos pesquisadores, a mudança é ainda mais radical. No caso dos eletrônicos, por exemplo, o que a dupla prega é que as pessoas continuem consumindo, mas que o consumo sofra uma alteração. Por exemplo, do mesmo modo que hoje uma pessoa recebe em casa um aparelho que dá sinal à TV a cabo, e depois devolve esse aparelho quando termina o contrato do serviço, o mesmo poderia acontecer com a própria TV. Os usuários receberiam uma espécie de licença para usar aquele produto e, quando não o quisessem mais ou quando quisessem trocá-lo por um mais novo, esse produto voltaria à fábrica que o produziu - que passaria a ser responsável pela reutilização de seus componentes.

Essa concepção altera por completo o conceito de "posse" sobre os bens e afeta a percepção que as pessoas têm de consumo - ao mesmo tempo em que o estimula. Pela visão dos autores, é mais sustentável que os consumidores paguem pelo serviço do eletrônico, e não pelo produto em si. A comparação é com as antigas garrafas de refrigerante, que eram feitas de vidro: pagava-se pelo líquido, e a embalagem era devolvida e reutilizada. A consequência positiva desse novo conceito é que o consumismo perde o estigma ambiental negativo: você poderá trocar de aparelho de TV infinitamente sem gerar mais lixo por isso.

PROBLEMA DO FABRICANTE
No berço-ao-berço, as indústrias e empresas serão responsabilizadas pelos produtos depois que eles forem dispensados. O consumidor vai comprar apenas o direito de ter o serviço - e não o produto em si. – Veja infografico

As empresas são as que mais vão ter de se adaptar a essa nova realidade. A ideia é que elas - e não o setor público - fiquem responsáveis pela gestão dos resíduos, ou seja, que a recepção dos produtos descartados após uso faça parte da logística da empresa. Isso, se bem planejado, poderia ser altamente lucrativo: estima-se que hoje o Brasil jogue fora cerca de R$ 5 bilhões em produtos que poderiam ser reaproveitados nos processos produtivos - especialmente os eletrônicos. Mas há uma questão ainda mais urgente no caso dos eletrônicos. Muitos deles dependem de metais pouco abundantes para serem fabricados - como o antimônio para controles remotos e o índio para TVs de lcd. Pois esses metais estão com os dias contadosna Terra: em 13 anos o antimônio estará extinto e o índio, em 4. A única maneira, então, para continuar produzindo os aparelhos será reutilizar os metais dos produtos antigos.

Essa nova concepção de sustentabilidade vai além da reciclagem tradicional - a reinserção de materiais que seriam jogados fora sem passar por processos físicos ou químicos complexos. Os produtos mais famosos dessa técnica são os feitos de garrafa PET, como árvores de natal, tapetes, roupas etc. O upcycling prolonga a vida do material descartado - mas não resolve o problema. Depois de um tempo, o dono da árvore de natal de garrafa PET vai enjoar do estilo da árvore - ou simplesmente o Natal vai passar - e o destino das PET será, enfim, o lixo. Se o Berço ao Berço pegar, ninguém mais vai ter que se contentar com reciclados mais ou menos bonitos e mais ou menos funcionais. Em vez de pensar no que será "menos ruim" pro planeta, finalmente poderemos pensar no que faz "bem" para ele.

PARA SABER MAIS
Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things
William McDonaugh e Michael Braungart, North Point Press, 2002.

Cidades verticais, civilização rural?, artigo de Washington Novaes


Tendencia de Urbanização é Crescente, principalmente nos países em desenvolvimento (Laercio Bruno Filho)

Artigo de Washington Novaes, jornalista especializado em Meio Ambiente
Já chegamos a mais de 50% da população global vivendo em áreas urbanas - o que amplia muito certas necessidades, como as de transporte, energia, habitação, alimentação industrializada etc

 .
Artigo publicado em "O Estado de SP":

Na época em que morou no Rio de Janeiro, de meados da década de 1960 ao início da de 1980, o autor destas linhas se assustava com a rapidíssima verticalização da até ali amena "Cidade Maravilhosa", a partir da derrubada do gabarito de quatro pavimentos nas praias de Ipanema e do Leblon, seguida pelo início da ocupação intensa de São Conrado e da Barra da Tijuca, até então lugares quase só de piqueniques e praias prolongadas dos poucos donos de automóveis.

Dizia, por isso, em tom de blague, que chegaria o dia em que derrubariam o Pão de Açúcar para, com o material de demolição, aterrar a Lagoa Rodrigo de Freitas e, nela e nos vizinhos Jockey Club e Jardim Botânico, erguer imensos edifícios.

O meio ambiente não pode esperar a inércia demográfica

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
Ecodebate

A “inércia demográfica” é um conceito utilizado pela demografia para explicar o fato da população continuar crescendo, mesmo depois que as pessoas e os casais passam a ter um número menor de filhos. A taxa de fecundidade mede o número médio de filhos por mulher e a quantia de 2,1 filhos por mulher é considerada taxa de reposição. Se a fecundidade ficar neste nível, no longo prazo, a população não cresce e nem diminui, ou seja, fica estável. Fecundidade acima de 2,1 filhos por mulher significa que a população vai crescer. Fecundidade abaixo de 2,1 filhos, no longo prazo, significa que a população vai diminuir.

Eduardo Giannetti defende que PIB e sistema de preços levem em conta critérios verdes, como poluição e desmatamento///O Globo

Entrevista: Eduardo Giannetti defende que se contabilize um PIB verde

Economista de formação e professor do Instituto de Estudos e Pesquisas (Inesp), o mineiro Eduardo Giannetti, 52 anos, está convencido de que o modo convencional como os países medem sua economia está totalmente anacrônico. Não só a forma com que “contabilizamos a economia”, mas o sistema de preços vigentes também deixa a desejar no tocante aos impactos ambientais. Defensor de um PIB verde e observador atento da Conferência do Clima (COP-15), Giannetti, autor de livros premiados, resume, em bom português, por que as decisões importantes foram adiadas para a COP-16: “É que o ideal para cada país é que todos façam esforço, menos ele”. Entrevista de Liana Melo, no O Globo.

O GLOBO: O senhor virou um crítico feroz do PIB. Por quê?
EDUARDO GIANNETTI: Tanto o sistema de preço como a forma com que contabilizamos os fatos em economia deixam a desejar no tocante ao impacto ambiental. Se uma comunidade tem acesso a água potável com a mesma facilidade com que consome o ar que respira, isso não entra nas contas nacionais. A água ainda é considerada um bem livre, como o ar que respiramos.

O GLOBO: Como assim?
GIANNETTI: Vamos supor que uma comunidade, ao se desenvolver, polui todas as fontes de água potável e passa, por isso, a ser obrigada a engarrafar água e distribuí-la. O PIB desSe país vai aumentar, no lugar de diminuir. Tudo porque algo que não era transacionado pelo mercado e que não passava pelo sistema de preços passou a ser contabilizado. Por essa lógica econômica, quando todos nós tivermos que carregar nosso tubinho de oxigênio para respirar, a sociedade, pelo registro puramente monetário, vai ter ficado mais rica. Este método de medição ficou anacrônico.

O GLOBO: O senhor poderia dar um exemplo desse anacronismo do PIB, no caso brasileiro?
GIANNETTI: Se derrubamos nossa floresta para vender madeira no mercado internacional, o PIB brasileiro vai dar um salto fantástico. Só que, ao optarmos por esse caminho, estamos empobrecendo as gerações futuras de uma forma irreparável, porque alguma coisa que era um patrimônio e tinha um valor permanente foi usada no presente para gerar um riqueza passageira. É mais ou menos como vender a prata da família para janta fora.

O GLOBO: O senhor também considera o sistema de preços caduco?
GIANNETTI: Claro, ele padece de alguns defeitos gravíssimos. O sistema de preços não registra o impacto ambiental das ações humanas. Basta compararmos o custo de geração de energia em uma usina eólica com uma termoelétrica: US$ 0,17 contra US$ 0,03 o quilowatt/hora. Nesse custo monetário não está embutido o valor real da poluição provocada por uma termoelétrica, daí porque a comparação é inadequada.

O GLOBO: Então a tonelada de gás carbônico gerada deveria ser precificada?
GIANNETTI: É preciso mudar o sistema de preços, porque ele só capta o custo monetário das atividades econômicas. O impacto ambiental não é contabilizado. O sistema de preços capta apenas uma parcela do custo, que é a monetária.

O GLOBO: No lugar de precificar o custo do CO2, embutir um imposto no preço final do produto não seria uma alternativa?
GIANNETTI: Estou convencido de que só teremos uma mudança estrutural nas decisões de investimento e nas de consumo à medida que o impacto ambiental for incorporado aos produtos, na forma de preço e não de imposto voluntário. As pessoas se declaram preocupadas com o aquecimento global, mas quando se fala em pagar voluntariamente, ninguém quer pagar a conta. Quando compramos uma passagem aérea, pagamos um valor monetário pelos fatores de produção embutidos: equipamento, serviço, combustível. Mas não pagamos o custo não monetário das emissões de CO2 equivalente geradas pela viagem.

O GLOBO: Um dos motivos de a COP-15 não ter avançado é porque ninguém quer pagar a conta?
GIANNETTI: Exatamente isso. O ideal para cada país é que todos façam esforço, menos ele. O grande complicador é a ação coletiva internacional, que se resume a como distribuir os custos da redução de CO2 equivalente entre os países.

O GLOBO: O Protocolo de Kioto expira em 2012, e o resultado não é dos mais alvissareiros. Por quê?
GIANNETTI – O Protocolo de Kioto revelou-se um acordo com uma série de problemas. Alguns dos países signatários, como a Espanha, não fizeram nada. Os espanhóis aumentaram suas emissões de CO2 equivalente após a assinatura do acordo, enquanto os Estados Unidos, que nem sequer são signatários, avançaram mais que a Espanha. Ficou claro que precisamos ter mecanismos para garantir o cumprimento do acordo e evitar que alguns países exportem suas indústrias sujas para os países em desenvolvimento.

O GLOBO: Dono da maior floresta tropical do mundo, o senhor considera que o Brasil tem uma posição relevante nas negociações internacionais sobre clima?
GIANNETTI – Os três grandes atores são a China, os Estados Unidos e a União Europeia. Os três juntos representam mais de 60% das emissões globais. O Brasil responde por 4,5%. A grande peculiaridade do Brasil é sua matriz energética, que é limpa, mas, em compensação, estamos destruindo nossa floresta. Já está comprovado que investir na prevenção do desmatamento é mais barato do que mitigar os impactos provovacos pelo desmatamento.

O GLOBO: Somos o maior exportador de carne do mundo, e a pecuária é apontada como um das grandes responsáveis por parte significativa do desmatamento. É possível fechar essa conta?
GIANNETTI – A emissão de gases-estufa do rebanho mundial supera a da frota automobilística. A Organização para a Agricultura e a Alimentação, órgão das Nações Unidas, a FAO, já previu que o consumo mundial de carne vai dobrar de 229 milhões de toneladas, em 2001, para 465 milhões em 2050. E o de leite vai subir de 580 milhão de toneladas para 1 bilhão nos próximos 40 anos. O meio ambiente não vai aceitar esse desaforo. A única forma de fechar essa conta é fazer como a Nova Zelândia, que está investindo em novas tecnologias. A situação do país é muito parecida com a do Brasil, porque também tem um rebanho grande e exporta para a União Europeia.

O GLOBO: O senhor acha que o governo está atento às questões ambientais?
GIANNETTI: Tendo a crer que a gravidade ambiental ainda não foi incorporada no processo decisório. As decisões são compartimentadas. Fica o Ministério do Meio Ambiente restringindo de um lado e a área econômica tentando atropelar. No lugar de ter uma postura integrada, há setores do governo remando para lados opostos.

O GLOBO: O senhor se considera uma pessoa pessimista?
GIANNETTI: O que me preocupa no Brasil é a combinação da nossa história com a nossa geografia. Geograficamente, fomos premiados com um patrimônio ambiental único. Só que nossa história é pautada pelo imediatismo. Faz parte da nossa formação histórico-cultural essa incapacidade de agir no presente tendo em vista o futuro e o longo prazo. Um dia de sol no planeta, pelo que ele tem de luz e calor, vale mais do que todas as reservas de petróleo no mundo. Esse dia de sol nos é dado gratuitamente e a economia não computa esse bem. Os sinais econômicos são cegos para essa realidade.

EcoDebate, 19/01/2010

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