Publicado em abril 6, 2012 por HCApesar do volume de empréstimos desembolsados para práticas sustentáveis no campo ter dobrado na safra agrícola 2011/2012, os níveis de acesso às chamadas linhas verdes ainda são irrisórios. A conclusão é do estudo Financiamento Agroambiental, lançado pelo Instituto Socioambiental (ISA), que aponta gargalos na operacionalização desse incentivo econômico, a partir de entrevistas com 87 produtores e três agentes financeiros, desde 2010.
De acordo com a engenheira agrônoma Léa Vaz Cardoso, assessora do ISA, o financiamento impõe desafios tecnológicos ao produtor brasileiro. O carro-chefe dessas linhas de crédito é o Programa para a Redução de Emissão de Gases de Efeito Estufa na Agricultura (ABC), lançado em 2010, que propõe modelos mistos de produção.
“As linhas financiam tecnologias um pouco mais complexas que as tradicionais, são sistemas diversificados. Quando você compara uma lavoura de soja em monocultivo, o pacote tecnológico é completamente conhecido. Quando coloca um sistema integrado como lavoura-pecuária-floresta, você passa a ter três produtos numa mesma área, com diferentes prazos e ciclos”, disse.
Um outro ponto, segundo a agrônoma, é que os agricultores não conhecem essas linhas diferenciadas. “O produtor até pode ter intenção de, por exemplo, recuperar Áreas de Proteção Permanente (APP), mas ainda não faz por questões financeiras. E ainda tem a indefinição de decisões sobre o novo Código Florestal e a burocracia ambiental, que assustam esse produtor”, disse a assessora.
A solução, na opinião de Léa Vaz Cardoso, está em investimentos em capacitação e na divulgação e promoção de tecnologias. A agrônoma ainda defende que os benefícios “verdes” sejam ampliados dentro de linhas de crédito tradicionais, incluindo uma espécie de “reconhecimento e premiação” aos agricultores que conservam ou recuperam APPs, por exemplo.“O agricultor incorre em um custo ao preservar essas áreas.
A gente está com uma legislação que está preste a mudar, mas o comando-controle sozinho não é suficiente. O instrumento econômico é complementar à legislação. E não há mal algum, na nossa visão, ajudar o agente econômico a cumprir a lei”, disse Léa Cardoso.
Ainda faltam três meses para o fim do ano agrícola (2011/2012), mas o Banco do Brasil já contabiliza R$ 430 milhões desembolsados. Em toda a safra anterior, o banco desembolsou pouco mais de R$ 230 milhões. A agrônoma do ISA considera que o incremento é resultado de uma ação maior do agente financeiro e do governo, mas alerta que o valor “ainda é marginal em relação aos outros créditos. Estamos falando em quase R$ 500 milhões para linhas sustentáveis, sendo que já foram emprestados mais de R$ 70 bilhões para outras práticas, ou seja, menos de 1% na conta”.
O diretor de Agronegócios do Banco do Brasil, Clênio Severio Teribele, não acredita na insegurança dos produtores brasileiros. “Basta verificar o crescimento da produtividade no Brasil, que a gente atribui a competência dos nossos agropecuaristas”, disse. Mas o executivo do banco admite o desconhecimento do crédito e a falta de capacitação para a tomada do financiamento.
“O que a gente percebe é que o mercado ainda não conhece essas linhas. Temos dificuldade na obtenção de bons projetos. A assistência técnica não chega a todos os locais e precisamos que chegue”, disse Teribele, acresentando que o banco está investindo em uma rede de parcerias com cooperativas, agrônomos e técnicos, para o treinamento para elaboração de projetos. “Temos todos os motivos para acreditar no bom desempenho dessas linhas”, disse.
Reportagem de Carolina Gonçalves, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 09/04/2012
Carta da Terra
"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Para negociador brasileiro do clima, Rio+20 é só o começo da agenda econômica verde
11:31, 9/02/2012
Vinte anos depois da Eco 92, o encontro que transformou a agenda ambiental mundial no século 21, o Rio de Janeiro sediará em junho uma conferência para debater os novos rumos da economia diante de uma crise climática sem precedentes, além da escassez dos recursos naturais. Na Rio+20, líderes de Estado tratarão de temas diversos, de finanças verdes à erradicação da pobreza. José Domingos Miguez, um dos negociadores brasileiros de mudança do clima, falou ao Blog do Planeta sobre o evento.
ÉPOCA – O que esperar da Rio+20?
José Domingos Miguez – A ideia da Rio+20 é dar destaque, na agenda mundial, a temas importantes, que frente às dificuldades de curto prazo, como a crise financeira ou grande acidentes como Fukushima e Macondo, acabam relegados pelos países ou têm recebido uma menor prioridade em diferentes países. A Rio+20 tem como objetivos avaliar o progresso conseguido até hoje, desde a Rio 92, os déficits de implementação de desenvolvimento nos diversos países e enfrentar os novos desafios e temas emergentes que devem ser abordados com maior ênfase por todos os países do mundo. É uma oportunidade para que todos trabalhem em conjunto para buscar soluções conjuntas e cooperem para a solução desses desafios.
ÉPOCA – Quais avanços e retrocessos na área ambiental o Brasil teve da Rio 92 para cá?
Miguez – O Brasil teve importantes avanços na área ambiental de 1992 até os dias de hoje. Há uma maior preocupação ambiental, em especial com a qualidade do ar e redução de poluição local, e houve um grande crescimento dos sistemas de reciclagem. O maior avanço que foi destacado mundialmente foi a redução do desmatamento no Brasil, pela implicação que possui como uma ação para combater o aquecimento global. Obviamente, o nível expressivo de uso de biocombustíveis no Brasil e de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis deixou o país em posição de liderança na agenda ambiental mundial. Eu não vejo retrocessos, apenas que, infelizmente, alguns temas como a disponibilidade de água potável em quantidade e qualidade nos padrões universais e o tratamento de resíduos não tiveram o avanço que foi conseguido em outras áreas como a erradicação da pobreza, a segurança alimentar e o acesso universal aos serviços de energia, em particular ao uso de eletricidade. A Rio+20 se propõe a ser o local para essa avaliação e voltar o foco da sociedade para os temas que não tiveram o avanço com a velocidade que seria necessária.
ÉPOCA – Qual o papel das empresas para o bom desempenho da Rio+20? Elas já estão se mexendo?
Miguez – As empresas têm um papel significativo em diversos temas, em especial na geração de empregos para os jovens. Mas temas como: consumo e produção sustentáveis, mitigação de emissões, segurança alimentar, fornecimento de energia, tratamento de resíduos e produtos químicos são temas que têm que ser enfrentados em grande medida pela maior atuação nesses setores. Em outros temas, as empresas têm um papel complementar importante como em cidades sustentáveis, educação, igualdade de gênero, água, florestas, biodiversidade e degradação da terra. Pela sua capacidade de gerenciamento e mobilização e seu poder econômico, podem dar agilidade à implementação de vários desses temas na agenda universal. Houve, ainda, um avanço muito grande na atuação em termos de desenvolvimento sustentável desde a Rio 92, como a informação que prestam à sociedade sobre sua atuação em termos relatórios empresariais de sustentabilidade. Contudo, ainda falta ser dada prioridade para alguns dos temas relevantes, o que é o objeto de preocupação dos países na Rio+20, como por exemplo, no caso de produção e consumo sustentáveis.
ÉPOCA – O tema mudanças climáticas está visivelmente de fora da pauta da reunião. Isso enfraquece a convenção?
Miguez – A mudança do clima é um dos maiores desafios de nossa época e os países se mostram preocupados com a maior vulnerabilidade dos países em desenvolvimento, que já estão sentindo os impactos adversos da mudança do clima. Isso está claramente na agenda mundial e, portanto, na agenda da Rio+20. A diferença é que a Cúpula do Rio+20 está focada na erradicação da pobreza e no desenvolvimento sustentável, que é um tema muito mais abrangente que o de mudança do clima, mas que o inclui. A mudança do clima tem sua agenda paralela e é um dos temas mais importantes na agenda mundial de todos os países. Desde a Conferência de Copenhague em 2009, o tema passou a ser a maior preocupação mundial e as reuniões de Cancún e Durban, nos anos seguintes, avançaram a agenda que deverá ser completada este ano em Doha, Qatar, com a definição de metas para os países desenvolvidos para o segundo período de Quioto e o início para a negociação dos futuros compromissos para todos os países a partir de 2020. Como a questão de mudança do clima foi o tema que mais avançou desde 1992 e tem um trilho próprio bem definido, com reuniões anuais na Convenção da ONU sobre mudança do clima e no seu Protocolo de Quioto, a Rio+20, que tem um olhar de mais longo prazo e que avalia os avanços a cada década, pode se dedicar às outras questões de desenvolvimento sustentável que merecem atenção e que vêm sendo relegadas.
ÉPOCA – Quais os pontos chaves para caminhar rumo a uma economia verde?
Miguez – A agenda da economia verde é ampla e, também, apresenta enormes desafios. Os pontos chaves são muitos: erradicação da pobreza, segurança alimentar, gerenciamento seguro de água, acesso universal a serviços modernos de energia, cidades sustentáveis, gerenciamento dos oceanos, redução de riscos a desastres e sistemas de alertas preventivos, assim como, saúde pública, desenvolvimento de recursos humanos, crescimento econômico sustentado, inclusivo e equitativo, com ampla geração de emprego, em especial para os jovens. Deve ser centrado no homem e possibilitar novas oportunidades e benefícios para todos os cidadãos e países do mundo. O trabalho é grande e estará apenas começando na Rio+20.
(Aline Ribeiro)
Vinte anos depois da Eco 92, o encontro que transformou a agenda ambiental mundial no século 21, o Rio de Janeiro sediará em junho uma conferência para debater os novos rumos da economia diante de uma crise climática sem precedentes, além da escassez dos recursos naturais. Na Rio+20, líderes de Estado tratarão de temas diversos, de finanças verdes à erradicação da pobreza. José Domingos Miguez, um dos negociadores brasileiros de mudança do clima, falou ao Blog do Planeta sobre o evento.
ÉPOCA – O que esperar da Rio+20?
José Domingos Miguez – A ideia da Rio+20 é dar destaque, na agenda mundial, a temas importantes, que frente às dificuldades de curto prazo, como a crise financeira ou grande acidentes como Fukushima e Macondo, acabam relegados pelos países ou têm recebido uma menor prioridade em diferentes países. A Rio+20 tem como objetivos avaliar o progresso conseguido até hoje, desde a Rio 92, os déficits de implementação de desenvolvimento nos diversos países e enfrentar os novos desafios e temas emergentes que devem ser abordados com maior ênfase por todos os países do mundo. É uma oportunidade para que todos trabalhem em conjunto para buscar soluções conjuntas e cooperem para a solução desses desafios.
ÉPOCA – Quais avanços e retrocessos na área ambiental o Brasil teve da Rio 92 para cá?
Miguez – O Brasil teve importantes avanços na área ambiental de 1992 até os dias de hoje. Há uma maior preocupação ambiental, em especial com a qualidade do ar e redução de poluição local, e houve um grande crescimento dos sistemas de reciclagem. O maior avanço que foi destacado mundialmente foi a redução do desmatamento no Brasil, pela implicação que possui como uma ação para combater o aquecimento global. Obviamente, o nível expressivo de uso de biocombustíveis no Brasil e de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis deixou o país em posição de liderança na agenda ambiental mundial. Eu não vejo retrocessos, apenas que, infelizmente, alguns temas como a disponibilidade de água potável em quantidade e qualidade nos padrões universais e o tratamento de resíduos não tiveram o avanço que foi conseguido em outras áreas como a erradicação da pobreza, a segurança alimentar e o acesso universal aos serviços de energia, em particular ao uso de eletricidade. A Rio+20 se propõe a ser o local para essa avaliação e voltar o foco da sociedade para os temas que não tiveram o avanço com a velocidade que seria necessária.
ÉPOCA – Qual o papel das empresas para o bom desempenho da Rio+20? Elas já estão se mexendo?
Miguez – As empresas têm um papel significativo em diversos temas, em especial na geração de empregos para os jovens. Mas temas como: consumo e produção sustentáveis, mitigação de emissões, segurança alimentar, fornecimento de energia, tratamento de resíduos e produtos químicos são temas que têm que ser enfrentados em grande medida pela maior atuação nesses setores. Em outros temas, as empresas têm um papel complementar importante como em cidades sustentáveis, educação, igualdade de gênero, água, florestas, biodiversidade e degradação da terra. Pela sua capacidade de gerenciamento e mobilização e seu poder econômico, podem dar agilidade à implementação de vários desses temas na agenda universal. Houve, ainda, um avanço muito grande na atuação em termos de desenvolvimento sustentável desde a Rio 92, como a informação que prestam à sociedade sobre sua atuação em termos relatórios empresariais de sustentabilidade. Contudo, ainda falta ser dada prioridade para alguns dos temas relevantes, o que é o objeto de preocupação dos países na Rio+20, como por exemplo, no caso de produção e consumo sustentáveis.
ÉPOCA – O tema mudanças climáticas está visivelmente de fora da pauta da reunião. Isso enfraquece a convenção?
Miguez – A mudança do clima é um dos maiores desafios de nossa época e os países se mostram preocupados com a maior vulnerabilidade dos países em desenvolvimento, que já estão sentindo os impactos adversos da mudança do clima. Isso está claramente na agenda mundial e, portanto, na agenda da Rio+20. A diferença é que a Cúpula do Rio+20 está focada na erradicação da pobreza e no desenvolvimento sustentável, que é um tema muito mais abrangente que o de mudança do clima, mas que o inclui. A mudança do clima tem sua agenda paralela e é um dos temas mais importantes na agenda mundial de todos os países. Desde a Conferência de Copenhague em 2009, o tema passou a ser a maior preocupação mundial e as reuniões de Cancún e Durban, nos anos seguintes, avançaram a agenda que deverá ser completada este ano em Doha, Qatar, com a definição de metas para os países desenvolvidos para o segundo período de Quioto e o início para a negociação dos futuros compromissos para todos os países a partir de 2020. Como a questão de mudança do clima foi o tema que mais avançou desde 1992 e tem um trilho próprio bem definido, com reuniões anuais na Convenção da ONU sobre mudança do clima e no seu Protocolo de Quioto, a Rio+20, que tem um olhar de mais longo prazo e que avalia os avanços a cada década, pode se dedicar às outras questões de desenvolvimento sustentável que merecem atenção e que vêm sendo relegadas.
ÉPOCA – Quais os pontos chaves para caminhar rumo a uma economia verde?
Miguez – A agenda da economia verde é ampla e, também, apresenta enormes desafios. Os pontos chaves são muitos: erradicação da pobreza, segurança alimentar, gerenciamento seguro de água, acesso universal a serviços modernos de energia, cidades sustentáveis, gerenciamento dos oceanos, redução de riscos a desastres e sistemas de alertas preventivos, assim como, saúde pública, desenvolvimento de recursos humanos, crescimento econômico sustentado, inclusivo e equitativo, com ampla geração de emprego, em especial para os jovens. Deve ser centrado no homem e possibilitar novas oportunidades e benefícios para todos os cidadãos e países do mundo. O trabalho é grande e estará apenas começando na Rio+20.
(Aline Ribeiro)
Cidades enfrentam dilema da sustentabilidade frente ao aumento da população mundial
Publicado em junho 28, 2011 por HC
Qualquer criança que nasça em aproximadamente quatro meses poderá se transformar no habitante nº 7 bilhões da Terra, mas tudo indica que esse hipotético bebê nascerá na Índia, onde ocorrem por ano 27 milhões de partos. Em pouco mais de um século a população da Terra se multiplicou por quatro e continuará crescendo de forma vertiginosa por mais meio século ainda, até alcançar os 9 bilhões. Até pouco tempo atrás, a ONU considerava que esse seria o ápice e que a partir desse número começaria uma lenta e progressiva redução da população. Reportagem de Georgina Higueras, El País.
No entanto, agora afirma que o planeta abrigará 10 bilhões de pessoas no final deste século. O desafio não é só a alimentação, mas muito especialmente organizar cidades para que os abriguem.
Urbanistas, arquitetos e dezenas de milhares de especialistas estudam como enfrentar o desafio de adaptar as urbes a tal volume de habitantes. Contam ainda com outro fluxo adicional: os 3 bilhões de pessoas que nas próximas décadas deixarão o campo para buscar um futuro supostamente melhor na cidade. E tudo isso dentro do temor cada dia mais generalizado da mudança climática e das catástrofes naturais que provoca, desde secas horrendas a inundações selvagens que se tornam cada vez mais frequentes conforme a Terra se aquece e aceleram a fuga do campo para a cidade.
O arquiteto e sociólogo José María Ezquiaga, um dos grandes urbanistas espanhóis, afirma que “o problema não é se cabemos, mas se nos alojamos bem”. E isto supõe que os recém-chegados devem ter acesso a educação, saúde, água potável e saneamento. Além disso, a autoridade local deve ser capaz de “mitigar o impacto ambiental pela perda de solo agrícola e a poluição da construção”.
Até agora, as cidades só ocupam 2% da superfície terrestre. Mas o alarme provocado pelo aumento dos preços da alimentação nos últimos três anos, porque a produção não cresceu tanto quanto o consumo, levantou as vozes dos que denunciam que o cimento arrasa solos férteis. Como Hans-Joachim Braun, diretor do Instituto Mexicano do Trigo e Milho, que afirma que a expansão urbana devora terras de cultivo e compete com os agricultores pela água.
Anthony Townsend, diretor de pesquisa do Instituto para o Futuro, da Califórnia, indica por telefone que uma das propostas do IFTF para a sustentabilidade das cidades é “promover o cultivo urbano”. Trata-se de criar edifícios com terraços e sacadas que facilitem o cultivo de hortaliças e verduras, de educar a população para que tenha pequenas hortas urbanas para suas necessidades.
A maioria dos urbanistas consultados não vê o crescimento populacional como uma praga, mas sim como uma oportunidade para utilizar melhor e com mais sabedoria os recursos que temos e para estudar e aplicar as inovações tecnológicas. Além disso, apontam que a cidade atua como um método bem-sucedido de controle de natalidade, já que ao melhorar o nível de vida e ter acesso à saúde se limitam voluntariamente os filhos, sem necessidade de medidas coercitivas, como na China, nem de esterilizações forçadas como as que fizeram a primeira-ministra da Índia Indira Gandhi perder o governo em 1977.
Na atualidade, 50% da população são urbanas e em 2050 essa porcentagem terá aumentado para 75%. “Mas também é importante levar em conta que as cidades já criam 80% da riqueza total”, salienta Ezquiaga.
Para o arquiteto Alejandro Zaera, que participou de diversos projetos internacionais, o urbanismo “é muito excitante porque afeta um número cada vez maior de pessoas”. Zaera, que tem um de seus textos incluído em “Endless City” [Cidade sem Fim], uma das principais obras teóricas da arquitetura mundial, de Ricky Burdett e Deyan Sudjic, afirma que “o grande desafio é a sustentabilidade das cidades”. Isto exige de forma urgente “diminuir seu consumo energético, fomentar o transporte público e eliminar o veículo particular”. Nesse sentido, aposta em urbes com alta densidade de população como Nova York, Xangai, Tóquio, Hong Kong ou Barcelona.
Zaera preconiza “modelos de vida com uma maior tolerância ao frio e ao calor”, de maneira que com edifícios “muito melhor isolados, com um melhor comportamento e que se verticalizam de forma natural” seja possível prescindir em grande parte da calefação e do ar-condicionado. Para combater a mudança climática que afeta a todos, ele defende que a comunidade internacional adote um imposto sobre as emissões de dióxido de carbono, já que, por exemplo, “os cidadãos americanos emitem quatro vezes mais do que deveriam para ser sustentáveis”.
Ezquiaga indica que na hora de preparar as cidades para a avalanche que se prevê é preciso distinguir entre as do mundo desenvolvido e as dos países emergentes. Nos primeiros haverá um mínimo aumento de habitantes. O problema é “conter a dispersão da população”.
Nos países emergentes, por outro lado, a população urbana aumentará 91% entre 2010 e 2030. “O importante não será tanto conter o crescimento das urbes”, afirma Ezquiaga, “como enfrentar a pobreza e facilitar a todos água potável, saneamento, energia e transporte. Além disso, será preciso limitar o impacto ambiental provocado pela passagem do solo agrícola para urbano.”
A UE financia estudos e instituições dedicadas a investigar as chamadas “cidades inteligentes”, nas quais a conectividade desempenha um papel muito importante para garantir “a criação de riqueza, a sustentabilidade social e o meio ambiente”, afirma Panagiotis Tsarchopoulos, diretor do Urenio, um instituto de Salônica (Grécia). Acrescenta que já tem projetada a futura Salônica inteligente, que inclui seis bairros com serviços diferentes e plena conectividade, através de sensores e sistemas de software. E lamenta que a crise econômica tenha impedido que o município financie a implementação do projeto.
Nesta linha também se encontra a Agenda Futura: o Mundo em 2020, um projeto do qual participam numerosas empresas para estudar as possibilidades oferecidas pelo crescimento da população nos próximos dez anos. A ideia foi lançada em Istambul, a maior megalópole da Europa, com mais de 10 milhões de habitantes e, segundo o semanário “The Economist”, a cidade de “melhor comportamento” de 2010, não só pela melhora de seu nível de vida como porque criou 7,3% de emprego, um dos grandes desafios das grandes cidades. De fato, a busca de um emprego remunerado é a grande aspiração dos que abandonam a vida rural pela urbana.
Zaera indica que no futuro “talvez seja necessário prescindir” dos grandes templos que são construídos hoje, “como a Cidade da Cultura de Valência”, em nome da “sustentabilidade e de dedicar recursos financeiros a estruturas urbanas que tornem as cidades mais habitáveis”. Esse é o grande objetivo de urbanistas e especialistas: que embora se transformem em megalópoles de até 100 milhões de habitantes continuem oferecendo aos cidadãos trabalho e esperança em um futuro melhor.
Joan Clos, diretor do Programa da ONU para os Assentamentos Humanos (Habitat): “Uma cidade geriátrica seria terrível”
Ele tem 62 anos e é médico, mas boa parte de sua vida profissional está ligada ao governo das cidades. Foi ministro, mas sobretudo prefeito de Barcelona de 1997 a 2006, cargo que dividiu em vários anos com muitos outros, como presidente da Associação Mundial para a Coordenação das Cidades e Autoridades Locais, presidente do Comitê Assessor de Autoridades Locais da ONU ou vice-presidente de Cidades e Governos Locais Unidos. Desde outubro de 2010, como secretário-geral adjunto da ONU, dirige o organismo Habitat, com sede em Nairóbi (Quênia), que cuida da promoção em todo o mundo de cidades sustentáveis. A entrevista foi feita por correio eletrônico.
P. Hoje a urbanização é mais preocupante que a alimentação?
R. Mais de um bilhão de pessoas vivem em condições de vida terríveis em favelas e zonas de “barraquismo”. A alimentação e a moradia são direitos fundamentais das pessoas, e é preocupante que um número elevado não tenha qualquer um deles.
P. As cidades estão preparadas para absorver o crescimento da população e a migração rural?
R. As cidades dos países desenvolvidos não estão crescendo em população. O problema está nas cidades que não viveram o processo de industrialização e que não são capazes de oferecer aos novos cidadãos um lugar de trabalho e um espaço de produtividade e geração de riqueza.
P. É preciso promover cidades com maior densidade?
R. O principal desafio é a organização da convivência urbana. Quando isso se consegue, a cidade se transforma em um espaço de liberdade e em um grande instrumento de prosperidade e desenvolvimento em todos os níveis. É o momento mágico de eclosão da cidade como elemento de progresso humano. Nas últimas décadas as cidades souberam aproveitar a economia da urbanização, a que deriva dos ativos reais do entorno urbano: edificação, mais valia, venda do solo, hipotecas… Todos conhecemos suas virtudes e infelizmente também seus defeitos. No entanto, ainda há muitas cidades que devem descobrir as oportunidades da economia da densidade, da aglomeração, que permite criar valor, reduzir custos, aumentar a especialização, multiplicar o crescimento dos fluxos de informação, diminuir os custos de produção. A densidade é sem dúvida necessária para conseguir uma cidade produtiva e mais sustentável.
P. É melhor a megalópole ou cidades médias?
R. Não há um tamanho ideal. O que deve ser é uma cidade bem planejada e governada, na qual a qualidade de vida dos cidadãos seja uma prioridade, na qual o urbanismo tenha uma função de melhora da conectividade, de evitar a congestão, de eficiência energética, capaz de se financiar com o valor gerado pela economia da densidade e criar postos de trabalho.
P. É possível construir cidades sustentáveis com emissões zero?
R. Ainda não sabemos como construir uma cidade com emissões zero, mas o desenvolvimento das energias renováveis em escala maciça é a única solução. Entretanto, os esforços estão sendo dirigido para reduzir as emissões por habitante e por unidade de produto econômico com uma cidade bem estruturada.
P. O Ocidente e a própria China avançam rapidamente para o envelhecimento da população. Trabalha-se no projeto de cidades para aposentados?
R. As cidades devem ser diversificadas, mistas. Com serviços adequados e sustentáveis tanto econômica como ambientalmente para nossos jovens, idosos, trabalhadores, estudantes, criadores ou os que fazem tudo isso ao mesmo tempo. A beleza e o interesse da cidade estão na diversidade. Uma cidade geriátrica seria terrível.
P. A população da África duplicará em três décadas. Como enfrentar esse “boom”?
R. Sessenta e cinco por cento dos africanos urbanos vivem em barracos e podem chegar a 80% nos próximos anos. Eles farão isso sem água, sem luz, em péssimas condições de higiene. O barraquismo é um problema em escala global, e só medidas radicais poderão alterar essa terrível realidade. É preciso reintroduzir o planejamento urbanístico na África, assim como se fez na Europa e na América durante a Revolução Industrial.
P. A globalização é positiva para o urbanismo?
R. A globalização está produzindo uma aceleração da urbanização não planejada que termina em barraquismo. Gerações de jovens estão crescendo em favelas, com os riscos e a perda de capital humano que isso representa para os países emergentes e os menos desenvolvidos, que são os que mais o necessitam.
P. Como a inovação tecnológica ajuda o urbanismo?
R. Se a política urbana existe e há capacidade política, a tecnologia ajuda, mas se não houver essa capacidade a tecnologia frequentemente se transforma em um falso instrumento de progresso que não ajuda a enfrentar os problemas de fundo.
P. Politicamente caminhamos para tempos passados, nos quais as cidades eram mais importantes que os Estados?
R. Nunca se volta literalmente ao passado. O que faz falta é um novo contrato entre o Estado-nação e a cidade, porque a importância econômica, social e cultural desta é indubitável. Segundo o Banco Mundial, das cem economias mundiais mais importantes 37 são cidades.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Reportagem de El País, no UOL Notícias
Qualquer criança que nasça em aproximadamente quatro meses poderá se transformar no habitante nº 7 bilhões da Terra, mas tudo indica que esse hipotético bebê nascerá na Índia, onde ocorrem por ano 27 milhões de partos. Em pouco mais de um século a população da Terra se multiplicou por quatro e continuará crescendo de forma vertiginosa por mais meio século ainda, até alcançar os 9 bilhões. Até pouco tempo atrás, a ONU considerava que esse seria o ápice e que a partir desse número começaria uma lenta e progressiva redução da população. Reportagem de Georgina Higueras, El País.
No entanto, agora afirma que o planeta abrigará 10 bilhões de pessoas no final deste século. O desafio não é só a alimentação, mas muito especialmente organizar cidades para que os abriguem.
Urbanistas, arquitetos e dezenas de milhares de especialistas estudam como enfrentar o desafio de adaptar as urbes a tal volume de habitantes. Contam ainda com outro fluxo adicional: os 3 bilhões de pessoas que nas próximas décadas deixarão o campo para buscar um futuro supostamente melhor na cidade. E tudo isso dentro do temor cada dia mais generalizado da mudança climática e das catástrofes naturais que provoca, desde secas horrendas a inundações selvagens que se tornam cada vez mais frequentes conforme a Terra se aquece e aceleram a fuga do campo para a cidade.
O arquiteto e sociólogo José María Ezquiaga, um dos grandes urbanistas espanhóis, afirma que “o problema não é se cabemos, mas se nos alojamos bem”. E isto supõe que os recém-chegados devem ter acesso a educação, saúde, água potável e saneamento. Além disso, a autoridade local deve ser capaz de “mitigar o impacto ambiental pela perda de solo agrícola e a poluição da construção”.
Até agora, as cidades só ocupam 2% da superfície terrestre. Mas o alarme provocado pelo aumento dos preços da alimentação nos últimos três anos, porque a produção não cresceu tanto quanto o consumo, levantou as vozes dos que denunciam que o cimento arrasa solos férteis. Como Hans-Joachim Braun, diretor do Instituto Mexicano do Trigo e Milho, que afirma que a expansão urbana devora terras de cultivo e compete com os agricultores pela água.
Anthony Townsend, diretor de pesquisa do Instituto para o Futuro, da Califórnia, indica por telefone que uma das propostas do IFTF para a sustentabilidade das cidades é “promover o cultivo urbano”. Trata-se de criar edifícios com terraços e sacadas que facilitem o cultivo de hortaliças e verduras, de educar a população para que tenha pequenas hortas urbanas para suas necessidades.
A maioria dos urbanistas consultados não vê o crescimento populacional como uma praga, mas sim como uma oportunidade para utilizar melhor e com mais sabedoria os recursos que temos e para estudar e aplicar as inovações tecnológicas. Além disso, apontam que a cidade atua como um método bem-sucedido de controle de natalidade, já que ao melhorar o nível de vida e ter acesso à saúde se limitam voluntariamente os filhos, sem necessidade de medidas coercitivas, como na China, nem de esterilizações forçadas como as que fizeram a primeira-ministra da Índia Indira Gandhi perder o governo em 1977.
Na atualidade, 50% da população são urbanas e em 2050 essa porcentagem terá aumentado para 75%. “Mas também é importante levar em conta que as cidades já criam 80% da riqueza total”, salienta Ezquiaga.
Para o arquiteto Alejandro Zaera, que participou de diversos projetos internacionais, o urbanismo “é muito excitante porque afeta um número cada vez maior de pessoas”. Zaera, que tem um de seus textos incluído em “Endless City” [Cidade sem Fim], uma das principais obras teóricas da arquitetura mundial, de Ricky Burdett e Deyan Sudjic, afirma que “o grande desafio é a sustentabilidade das cidades”. Isto exige de forma urgente “diminuir seu consumo energético, fomentar o transporte público e eliminar o veículo particular”. Nesse sentido, aposta em urbes com alta densidade de população como Nova York, Xangai, Tóquio, Hong Kong ou Barcelona.
Zaera preconiza “modelos de vida com uma maior tolerância ao frio e ao calor”, de maneira que com edifícios “muito melhor isolados, com um melhor comportamento e que se verticalizam de forma natural” seja possível prescindir em grande parte da calefação e do ar-condicionado. Para combater a mudança climática que afeta a todos, ele defende que a comunidade internacional adote um imposto sobre as emissões de dióxido de carbono, já que, por exemplo, “os cidadãos americanos emitem quatro vezes mais do que deveriam para ser sustentáveis”.
Ezquiaga indica que na hora de preparar as cidades para a avalanche que se prevê é preciso distinguir entre as do mundo desenvolvido e as dos países emergentes. Nos primeiros haverá um mínimo aumento de habitantes. O problema é “conter a dispersão da população”.
Nos países emergentes, por outro lado, a população urbana aumentará 91% entre 2010 e 2030. “O importante não será tanto conter o crescimento das urbes”, afirma Ezquiaga, “como enfrentar a pobreza e facilitar a todos água potável, saneamento, energia e transporte. Além disso, será preciso limitar o impacto ambiental provocado pela passagem do solo agrícola para urbano.”
A UE financia estudos e instituições dedicadas a investigar as chamadas “cidades inteligentes”, nas quais a conectividade desempenha um papel muito importante para garantir “a criação de riqueza, a sustentabilidade social e o meio ambiente”, afirma Panagiotis Tsarchopoulos, diretor do Urenio, um instituto de Salônica (Grécia). Acrescenta que já tem projetada a futura Salônica inteligente, que inclui seis bairros com serviços diferentes e plena conectividade, através de sensores e sistemas de software. E lamenta que a crise econômica tenha impedido que o município financie a implementação do projeto.
Nesta linha também se encontra a Agenda Futura: o Mundo em 2020, um projeto do qual participam numerosas empresas para estudar as possibilidades oferecidas pelo crescimento da população nos próximos dez anos. A ideia foi lançada em Istambul, a maior megalópole da Europa, com mais de 10 milhões de habitantes e, segundo o semanário “The Economist”, a cidade de “melhor comportamento” de 2010, não só pela melhora de seu nível de vida como porque criou 7,3% de emprego, um dos grandes desafios das grandes cidades. De fato, a busca de um emprego remunerado é a grande aspiração dos que abandonam a vida rural pela urbana.
Zaera indica que no futuro “talvez seja necessário prescindir” dos grandes templos que são construídos hoje, “como a Cidade da Cultura de Valência”, em nome da “sustentabilidade e de dedicar recursos financeiros a estruturas urbanas que tornem as cidades mais habitáveis”. Esse é o grande objetivo de urbanistas e especialistas: que embora se transformem em megalópoles de até 100 milhões de habitantes continuem oferecendo aos cidadãos trabalho e esperança em um futuro melhor.
Joan Clos, diretor do Programa da ONU para os Assentamentos Humanos (Habitat): “Uma cidade geriátrica seria terrível”
Ele tem 62 anos e é médico, mas boa parte de sua vida profissional está ligada ao governo das cidades. Foi ministro, mas sobretudo prefeito de Barcelona de 1997 a 2006, cargo que dividiu em vários anos com muitos outros, como presidente da Associação Mundial para a Coordenação das Cidades e Autoridades Locais, presidente do Comitê Assessor de Autoridades Locais da ONU ou vice-presidente de Cidades e Governos Locais Unidos. Desde outubro de 2010, como secretário-geral adjunto da ONU, dirige o organismo Habitat, com sede em Nairóbi (Quênia), que cuida da promoção em todo o mundo de cidades sustentáveis. A entrevista foi feita por correio eletrônico.
P. Hoje a urbanização é mais preocupante que a alimentação?
R. Mais de um bilhão de pessoas vivem em condições de vida terríveis em favelas e zonas de “barraquismo”. A alimentação e a moradia são direitos fundamentais das pessoas, e é preocupante que um número elevado não tenha qualquer um deles.
P. As cidades estão preparadas para absorver o crescimento da população e a migração rural?
R. As cidades dos países desenvolvidos não estão crescendo em população. O problema está nas cidades que não viveram o processo de industrialização e que não são capazes de oferecer aos novos cidadãos um lugar de trabalho e um espaço de produtividade e geração de riqueza.
P. É preciso promover cidades com maior densidade?
R. O principal desafio é a organização da convivência urbana. Quando isso se consegue, a cidade se transforma em um espaço de liberdade e em um grande instrumento de prosperidade e desenvolvimento em todos os níveis. É o momento mágico de eclosão da cidade como elemento de progresso humano. Nas últimas décadas as cidades souberam aproveitar a economia da urbanização, a que deriva dos ativos reais do entorno urbano: edificação, mais valia, venda do solo, hipotecas… Todos conhecemos suas virtudes e infelizmente também seus defeitos. No entanto, ainda há muitas cidades que devem descobrir as oportunidades da economia da densidade, da aglomeração, que permite criar valor, reduzir custos, aumentar a especialização, multiplicar o crescimento dos fluxos de informação, diminuir os custos de produção. A densidade é sem dúvida necessária para conseguir uma cidade produtiva e mais sustentável.
P. É melhor a megalópole ou cidades médias?
R. Não há um tamanho ideal. O que deve ser é uma cidade bem planejada e governada, na qual a qualidade de vida dos cidadãos seja uma prioridade, na qual o urbanismo tenha uma função de melhora da conectividade, de evitar a congestão, de eficiência energética, capaz de se financiar com o valor gerado pela economia da densidade e criar postos de trabalho.
P. É possível construir cidades sustentáveis com emissões zero?
R. Ainda não sabemos como construir uma cidade com emissões zero, mas o desenvolvimento das energias renováveis em escala maciça é a única solução. Entretanto, os esforços estão sendo dirigido para reduzir as emissões por habitante e por unidade de produto econômico com uma cidade bem estruturada.
P. O Ocidente e a própria China avançam rapidamente para o envelhecimento da população. Trabalha-se no projeto de cidades para aposentados?
R. As cidades devem ser diversificadas, mistas. Com serviços adequados e sustentáveis tanto econômica como ambientalmente para nossos jovens, idosos, trabalhadores, estudantes, criadores ou os que fazem tudo isso ao mesmo tempo. A beleza e o interesse da cidade estão na diversidade. Uma cidade geriátrica seria terrível.
P. A população da África duplicará em três décadas. Como enfrentar esse “boom”?
R. Sessenta e cinco por cento dos africanos urbanos vivem em barracos e podem chegar a 80% nos próximos anos. Eles farão isso sem água, sem luz, em péssimas condições de higiene. O barraquismo é um problema em escala global, e só medidas radicais poderão alterar essa terrível realidade. É preciso reintroduzir o planejamento urbanístico na África, assim como se fez na Europa e na América durante a Revolução Industrial.
P. A globalização é positiva para o urbanismo?
R. A globalização está produzindo uma aceleração da urbanização não planejada que termina em barraquismo. Gerações de jovens estão crescendo em favelas, com os riscos e a perda de capital humano que isso representa para os países emergentes e os menos desenvolvidos, que são os que mais o necessitam.
P. Como a inovação tecnológica ajuda o urbanismo?
R. Se a política urbana existe e há capacidade política, a tecnologia ajuda, mas se não houver essa capacidade a tecnologia frequentemente se transforma em um falso instrumento de progresso que não ajuda a enfrentar os problemas de fundo.
P. Politicamente caminhamos para tempos passados, nos quais as cidades eram mais importantes que os Estados?
R. Nunca se volta literalmente ao passado. O que faz falta é um novo contrato entre o Estado-nação e a cidade, porque a importância econômica, social e cultural desta é indubitável. Segundo o Banco Mundial, das cem economias mundiais mais importantes 37 são cidades.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Reportagem de El País, no UOL Notícias
Sustentabilidade: adjetivo ou substantivo? artigo de Leonardo Boff
Publicado em junho 8, 2011 por HC
É de bom tom hoje falar de sustentabilidade. Ela serve de etiqueta de garantia de que a empresa, ao produzir, está respeitando o meio ambiente. Atrás desta palavra se escondem algumas verdades mas também muitos engodos. De modo geral, ela é usada como adjetivo e não como substantivo.
Explico-me: como adjetivo é agregada a qualquer coisa sem mudar a natureza da coisa. Exemplo: posso diminuir a poluição química de uma fábrica, colocando filtros melhores em suas chaminés que vomitam gases. Mas a maneira com que a empresa se relaciona com a natureza donde tira os materiais para a produção, não muda; ela continua devastando; a preocupação não é com o meio ambiente mas com o lucro e com a competição que tem que ser garantida. Portanto, a sustentabilidade é apenas de acomodação e não de mudança; é adjetiva, não substantiva.
Sustentabilidade como substantivo exige uma mudança de relação para com a natureza, a vida e a Terra. A primeira mudança começa com outra visão da realidade. A Terra está viva e nós somos sua porção consciente e inteligente. Não estamos fora e acima dela como quem domina, mas dentro como quem cuida, aproveitando de seus bens mas respeitando seus limites. Há interação entre ser humano e natureza. Se poluo o ar, acabo adoecendo e reforço o efeito estufa donde se deriva o aquecimento global. Se recupero a mata ciliar do rio, preservo as águas, aumento seu volume e melhoro minha qualidade de vida, dos pássaros e dos insetos que polinizam as ávores frutíferas e as flores do jardim.
Sustentabilidade como substantivo acontece quando nos fazemos responsáveis pela preservação da vitalidade e da integridade dos ecossistemas. Devido à abusiva exploração de seus bens e serviços, tocamos nos limites da Terra. Ela não consegue, na ordem de 30%, recompor o que lhe foi tirado e roubado. A Terra está ficando, cada vez mais pobre: de florestas, de águas, de solos férteis, de ar limpo e de biodiversidade. E o que é mais grave: mais empobrecida de gente com solidariedade, com compaixão, com respeito, com cuidado e com amor para com os diferentes. Quando isso vai parar?
A sustentabilidade como substantivo é alcançada no dia em que mudarmos nossa maneira de habitar a Terra, nossa Grande Mãe, de produzir, de distribuir, de consumir e de tratar os dejetos. Nosso sistema de vida está morrendo, sem capacidade de resolver os problemas que criou. Pior, ele nos está matando e ameaçando todo o sistema de vida.
Temos que reinventar um novo modo de estar no mundo com os outros, com a natureza, com a Terra e com a Última Realidade. Aprender a ser mais com menos e a satisfazer nossas necessidades com sentido de solidariedade para com os milhões que passam fome e com o futuro de nossos filhos e netos. Ou mudamos, ou vamos ao encontro de previsíveis tragédias ecológicas e humanitárias.
Quando aqueles que controlam as finanças e os destinos dos povos se reunem, nunca é para discutir o futuro da vida humana e a preservação da Terra. Eles se encontram para tratar de dinheiros, de como salvar o sistema financeiro e especulativo, de como garantir as taxas de juros e os lucros dos bancos. Se falam de aquecimento global e de mudanças climáticas é quase sempre nesta ótica: quanto posso perder com estes fenômenos? Ou então, como posso ganhar comprando ou vendendo bonus de carbono (compro de outros paises licença para continuar a poluir)? A sustentabilidade de que falam não é nem adjetiva, nem substantiva. É pura retórica. Esquecem que a Terra pode viver sem nós, como viveu por bilhões de anos. Nós não podemos viver sem ela.
Não nos iludamos: as empresas, em sua grande maioria, só assumem a responsabilidade socio-ambiental na medida em que os ganhos não sejam prejudicados e a competição não seja ameaçada. Portanto, nada de mudanças de rumo, de relação diferente para com a natureza, nada de valores éticos e espirituais. Como disse muito bem o ecólogo social uruguaio E. Gudynas: “a tarefa não é pensar em desenvolvimento alternativo mas em alternativas de desenvolvimento”.
Chegamos a um ponto em que não temos outra saída senão fazer uma revolução paradigmática, senão seremos vítimas da lógica férrea do Capital que nos poderá levar a um fenomenal impasse civilizatório.
Leonardo Boff, Teólogo e Filósofo, é autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.
EcoDebate, 08/06/2011
É de bom tom hoje falar de sustentabilidade. Ela serve de etiqueta de garantia de que a empresa, ao produzir, está respeitando o meio ambiente. Atrás desta palavra se escondem algumas verdades mas também muitos engodos. De modo geral, ela é usada como adjetivo e não como substantivo.
Explico-me: como adjetivo é agregada a qualquer coisa sem mudar a natureza da coisa. Exemplo: posso diminuir a poluição química de uma fábrica, colocando filtros melhores em suas chaminés que vomitam gases. Mas a maneira com que a empresa se relaciona com a natureza donde tira os materiais para a produção, não muda; ela continua devastando; a preocupação não é com o meio ambiente mas com o lucro e com a competição que tem que ser garantida. Portanto, a sustentabilidade é apenas de acomodação e não de mudança; é adjetiva, não substantiva.
Sustentabilidade como substantivo exige uma mudança de relação para com a natureza, a vida e a Terra. A primeira mudança começa com outra visão da realidade. A Terra está viva e nós somos sua porção consciente e inteligente. Não estamos fora e acima dela como quem domina, mas dentro como quem cuida, aproveitando de seus bens mas respeitando seus limites. Há interação entre ser humano e natureza. Se poluo o ar, acabo adoecendo e reforço o efeito estufa donde se deriva o aquecimento global. Se recupero a mata ciliar do rio, preservo as águas, aumento seu volume e melhoro minha qualidade de vida, dos pássaros e dos insetos que polinizam as ávores frutíferas e as flores do jardim.
Sustentabilidade como substantivo acontece quando nos fazemos responsáveis pela preservação da vitalidade e da integridade dos ecossistemas. Devido à abusiva exploração de seus bens e serviços, tocamos nos limites da Terra. Ela não consegue, na ordem de 30%, recompor o que lhe foi tirado e roubado. A Terra está ficando, cada vez mais pobre: de florestas, de águas, de solos férteis, de ar limpo e de biodiversidade. E o que é mais grave: mais empobrecida de gente com solidariedade, com compaixão, com respeito, com cuidado e com amor para com os diferentes. Quando isso vai parar?
A sustentabilidade como substantivo é alcançada no dia em que mudarmos nossa maneira de habitar a Terra, nossa Grande Mãe, de produzir, de distribuir, de consumir e de tratar os dejetos. Nosso sistema de vida está morrendo, sem capacidade de resolver os problemas que criou. Pior, ele nos está matando e ameaçando todo o sistema de vida.
Temos que reinventar um novo modo de estar no mundo com os outros, com a natureza, com a Terra e com a Última Realidade. Aprender a ser mais com menos e a satisfazer nossas necessidades com sentido de solidariedade para com os milhões que passam fome e com o futuro de nossos filhos e netos. Ou mudamos, ou vamos ao encontro de previsíveis tragédias ecológicas e humanitárias.
Quando aqueles que controlam as finanças e os destinos dos povos se reunem, nunca é para discutir o futuro da vida humana e a preservação da Terra. Eles se encontram para tratar de dinheiros, de como salvar o sistema financeiro e especulativo, de como garantir as taxas de juros e os lucros dos bancos. Se falam de aquecimento global e de mudanças climáticas é quase sempre nesta ótica: quanto posso perder com estes fenômenos? Ou então, como posso ganhar comprando ou vendendo bonus de carbono (compro de outros paises licença para continuar a poluir)? A sustentabilidade de que falam não é nem adjetiva, nem substantiva. É pura retórica. Esquecem que a Terra pode viver sem nós, como viveu por bilhões de anos. Nós não podemos viver sem ela.
Não nos iludamos: as empresas, em sua grande maioria, só assumem a responsabilidade socio-ambiental na medida em que os ganhos não sejam prejudicados e a competição não seja ameaçada. Portanto, nada de mudanças de rumo, de relação diferente para com a natureza, nada de valores éticos e espirituais. Como disse muito bem o ecólogo social uruguaio E. Gudynas: “a tarefa não é pensar em desenvolvimento alternativo mas em alternativas de desenvolvimento”.
Chegamos a um ponto em que não temos outra saída senão fazer uma revolução paradigmática, senão seremos vítimas da lógica férrea do Capital que nos poderá levar a um fenomenal impasse civilizatório.
Leonardo Boff, Teólogo e Filósofo, é autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.
EcoDebate, 08/06/2011
Lançamento do livro ‘Biodiversidade e Carbono Social’ na Carbon Expo >>>> Sustainable Carbon
Desenvolvimento sustentável, biodiversidade, alterações climáticas, sequestro de carbono, Carbono Social. Palavras aparentemente sem relação, mas que merecem uma abordagem profunda. Biodiversidade e Carbono Social, uma ligeira modificação de uma tese de doutorado em Biologia apresentada e defendida em 2009, na Universidade de Aveiro, em Portugal, vem preencher parcialmente uma lacuna e uma necessidade.
Durante a Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992, foram assinados dois importantes instrumentos: a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e a Convenção sobre Diversidade Biológica. O primeiro trouxe avanços e resultados práticos no que diz respeito à definição de metas e resultados. Este fato deveu-se, principalmente, pelo caráter econômico resguardado à Convenção Quadro, que originou o Protocolo de Kyoto, criando assim um mecanismo de mercado. Entretanto, a Convenção sobre Diversidade Biológica ainda não conseguiu mostrar avanços e a perda da biodiversidade é um dos maiores problemas desta década, com perda de milhares de hectares de florestas e de espécies ainda desconhecidas.
Esta obra aponta que no trio Biodiversidade – Mercado de créditos de carbono – Metodologia do CARBONOSOCIAL – pode estar uma oportunidade de transportar benefícios mensuráveis para o desenvolvimento sustentável de diferentes regiões, com forte enfoque no uso racional da biodiversidade e da sua preservação, levando-se em conta diferentes recursos necessários para um meio de vida sustentável.
O livro apresenta o conceito do CARBONOSOCIAL, que segundo Rezende e Merlin, é o carbono absorvido/reduzido através de ações que viabilizem e melhorem as condições de vida das comunidades envolvidas nos projetos de redução de emissões/ mudanças climáticas, visando o bem-estar e a cidadania, sem degradar a base de recursos. Esse conceito surgiu da necessidade de garantir que os projetos dde redução e mitigação de emissões dos gases causadores do efeito estufa pudessem inserir não só as questões de desenvolvimento sustentável, com também garantir um meio de se medir e dimensionar os ganhos sociais e a sustentabilidade das comunidades envolvidas nos projetos.
Hoje, o conceito do CARBONOSOCIAL está sendo utilizado como um standard do mercado voluntário em projetos de diferentes âmbitos, tais como troca de combustível, energia renovável, aterros sanitários, entre outros. Biodiversidade e Carbono Social apresenta exemplos reais de estudos de caso no Brasil, mas que não deixam, por isso, de serem exemplos como essa aplicação pode se generalizar.
Sobre os autores
Divaldo Rezende é engenheiro agrônomo graduado pela Universidae de Lavras (UFLA) e possui metrado em Políticas Ambientais e Recursos Rurais pela Universidade de londres, WYE College, e é PhD em Biologia pela Universidade de Aveiro, Portugal. Co-fundador do Instituto Ecológica, possui vasta experiência em planejamento ambiental, mudanças climáticas, sequestro de carbono e desenvolvimento sustentável. Durante os seus 18 anos de experiência, foi consultor em diversas organizações e governos, como o Banco Mundial, o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o Ministérios e Minas e Energia, o Ministério da Ciência e Tecnologia e Ministério do Meio Ambiente. Publicou três obras sobre mudanças climáticas e o mercado de carbono. Atualmente, é diretor executivo da CantorCO2e Brasil.
Stefano Merlin nasceu em Bressanone, Itália e, atualamente, reside em São Paulo. É graduado em Economia e Administração Empresarial pela Universidade Ca´Foscari, de Veneza, e possui pós-graduação emc Gestão Empresarial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem larga experiência em administração de empresas, desenvolvimento de mercados e negócios sustentáveis, implementação de projetos de mudança climática e de desenvolvimento comunitário. É co-fundador e presidente do Instituto Ecológica e consultor do PNUD na área de energias renováveis no Brasil.
Atualmente é sócio-diretor da Sustainable Carbon, que desenvolve projetos voltados para o mercado voluntário de carbono na América Latina e que hoje é uma das empresas líderes no panorama internacional do mercado de carbono.
Biodiversidade e Carbono Social
Autores: Divaldo Rezende e Stefano Merlin
Edições Afrontamento – 1a. edição – 2009 - 150 páginas
ISBN: 978-972-36-1050-5
Informações:
Cecilia Michellis
(11) 2649-0036
cecilia@socialcarbon.org
Durante a Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992, foram assinados dois importantes instrumentos: a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e a Convenção sobre Diversidade Biológica. O primeiro trouxe avanços e resultados práticos no que diz respeito à definição de metas e resultados. Este fato deveu-se, principalmente, pelo caráter econômico resguardado à Convenção Quadro, que originou o Protocolo de Kyoto, criando assim um mecanismo de mercado. Entretanto, a Convenção sobre Diversidade Biológica ainda não conseguiu mostrar avanços e a perda da biodiversidade é um dos maiores problemas desta década, com perda de milhares de hectares de florestas e de espécies ainda desconhecidas.
Esta obra aponta que no trio Biodiversidade – Mercado de créditos de carbono – Metodologia do CARBONOSOCIAL – pode estar uma oportunidade de transportar benefícios mensuráveis para o desenvolvimento sustentável de diferentes regiões, com forte enfoque no uso racional da biodiversidade e da sua preservação, levando-se em conta diferentes recursos necessários para um meio de vida sustentável.
O livro apresenta o conceito do CARBONOSOCIAL, que segundo Rezende e Merlin, é o carbono absorvido/reduzido através de ações que viabilizem e melhorem as condições de vida das comunidades envolvidas nos projetos de redução de emissões/ mudanças climáticas, visando o bem-estar e a cidadania, sem degradar a base de recursos. Esse conceito surgiu da necessidade de garantir que os projetos dde redução e mitigação de emissões dos gases causadores do efeito estufa pudessem inserir não só as questões de desenvolvimento sustentável, com também garantir um meio de se medir e dimensionar os ganhos sociais e a sustentabilidade das comunidades envolvidas nos projetos.
Hoje, o conceito do CARBONOSOCIAL está sendo utilizado como um standard do mercado voluntário em projetos de diferentes âmbitos, tais como troca de combustível, energia renovável, aterros sanitários, entre outros. Biodiversidade e Carbono Social apresenta exemplos reais de estudos de caso no Brasil, mas que não deixam, por isso, de serem exemplos como essa aplicação pode se generalizar.
Sobre os autores
Divaldo Rezende é engenheiro agrônomo graduado pela Universidae de Lavras (UFLA) e possui metrado em Políticas Ambientais e Recursos Rurais pela Universidade de londres, WYE College, e é PhD em Biologia pela Universidade de Aveiro, Portugal. Co-fundador do Instituto Ecológica, possui vasta experiência em planejamento ambiental, mudanças climáticas, sequestro de carbono e desenvolvimento sustentável. Durante os seus 18 anos de experiência, foi consultor em diversas organizações e governos, como o Banco Mundial, o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o Ministérios e Minas e Energia, o Ministério da Ciência e Tecnologia e Ministério do Meio Ambiente. Publicou três obras sobre mudanças climáticas e o mercado de carbono. Atualmente, é diretor executivo da CantorCO2e Brasil.
Stefano Merlin nasceu em Bressanone, Itália e, atualamente, reside em São Paulo. É graduado em Economia e Administração Empresarial pela Universidade Ca´Foscari, de Veneza, e possui pós-graduação emc Gestão Empresarial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem larga experiência em administração de empresas, desenvolvimento de mercados e negócios sustentáveis, implementação de projetos de mudança climática e de desenvolvimento comunitário. É co-fundador e presidente do Instituto Ecológica e consultor do PNUD na área de energias renováveis no Brasil.
Atualmente é sócio-diretor da Sustainable Carbon, que desenvolve projetos voltados para o mercado voluntário de carbono na América Latina e que hoje é uma das empresas líderes no panorama internacional do mercado de carbono.
Biodiversidade e Carbono Social
Autores: Divaldo Rezende e Stefano Merlin
Edições Afrontamento – 1a. edição – 2009 - 150 páginas
ISBN: 978-972-36-1050-5
Informações:
Cecilia Michellis
(11) 2649-0036
cecilia@socialcarbon.org
Ser sustentável vende: a “maquiagem verde” em alta!
Em mais uma semana de comemoração do meio ambiente, este que nos fornece tudo sem cobrar nada, é interessante refletirmos como estão nos vendendo a “causa verde”. Como a palavra “eco” e “sustentável” está agora na mídia, seqüestrada pelas empresas para nos fazer consumir sem culpa, de consciência limpa e tranqüila! Separando os bem intencionados desta categoria, o termo usado em inglês é “greenwashing”, o que aqui podemos chamar de maquiagem ou verniz verde. Isto mesmo, consumidores, vamos ao supermercado, ao shopping ou as compras virtuais, e lá estão os produtos maquiados, pintados de verde, nos convidando a sermos ambientalmente corretos.
Um olhar menos atento, acaba acreditando que uma palha de aço usada na limpeza diária da casa, agora é ecológica, apenas por degradar-se no ambiente. Uma garrafa de plástico de um refrigerante de cor escura, agora é biodegradável por usar etanol brasileiro na sua fabricação. Latinhas de cervejas feitas a partir de um metal maleável são ecologicamente corretas por poderem ser recicladas.
O que não dizer de uma famosa mostra de ambientes de arquitetura e design de interiores, que nos convida a “morar verde”, “ao bem-estar sustentável”, que as pessoas ainda pagam para ver! A equação aqui é simples: verde + marketing e propaganda = melhoria de imagem e aumento de lucros. Todos no ramo já sabem da tendência de sermos “amigos do ambiente”. Em recente estudo conduzido entre sete países, entre eles, o Brasil, conclui-se que em média, as pessoas ouvidas estão dispostas a gastar 37% a mais em produtos verdes.
Apesar da mesma pesquisa ter concluído que há uma percepção de que produtos limpos são mais caros, 73% dos brasileiros responderam que pretendem gastar mais com eles em 2010. Vamos aos fatos, o que falta é mais informação e conhecimento por parte do consumidor do que é realmente ecológico ou sustentável.
Temos um nível raso de discussão nas escolas, que acham que basta fazer programa de separação de resíduos e transformar garrafa PET em carrinhos e aviõezinhos ser o suficiente para uma educação ambiental (sem falar na tradicional plantio de uma árvore no pátio no dia 05 de junho!). Ou mesmo nas empresas, universidades e secretárias de governo que utilizam papel reciclado nos seus impressos, acreditando que fazem a parte verde que lhes cabe!
Para reverter esta situação, talvez uma primeira medida a ser implantada, seria ensinar aos estudantes (e também professores) de todos os níveis e cursos, além de patrões e empregados, o que é Análise de Ciclo de Vida (ACV) de um produto. Trata-se de entender qual o impacto socioambiental de toda a trajetória de fabricação do mesmo, do berço ao túmulo (ou ressurreição). Quer dizer, mapear desde a extração do recurso, a produção da matéria-prima e a transformação em produto, além do transporte, uso e descarte final (ser reaproveitado ou reciclado), para assim sabermos o quanto o mesmo é ecológico ou insustentável. Em países sérios, selos e certificações que atestam cientificamente os produtos verdes se utilizam do ACV.
Este é o papel que deve assumir o governo, as universidades, as instituições reguladoras, que tem credibilidade para tal, sem a contaminação comercial. Assim, poderíamos entender que o aço e o alumínio causam um grande impacto no ambiente, desde a extração no minério de ferro e a bauxita, passando pelos os ácidos e produtos químicos usados nas suas transformações, até a enorme quantidade de energia utilizada no seu processo.
Ser sustentável, também seria as empresas darem melhores condições de coleta e reciclagem de suas latinhas para o exército de catadores que vagueiam pelas ruas e lixões das cidades brasileiras. Também compreenderíamos que longas distâncias não são sustentáveis, como querem nos convencer os fabricantes da garrafa de “plástico verde”, a base do etanol brasileiro, que viaja meio mundo para ser transformado em garrafa na Índia, para depois voltar ao Brasil, o que significa 14 mil quilômetros de emissão de carbono.
Sem contar, que “morar verde” em Curitiba ou em qualquer parte do Planeta é muito mais do que tomar chá em uma mesinha de madeira de demolição ou colocar meia dúzia de vasos de flores dentro de casa. Para termos o bem-estar sustentável e saudável, temos de abdicar um pouco do luxo em pró da simplicidade, projetar ambientes com conforto térmico-acústico e deixarmos de usar produtos de base sintética ou que usam colas cancerígenas, assim como os metais cromados, tintas tóxicas e lâmpadas de alto consumo energético.
Com informação correta, conscientização e educação, poderemos evoluir e limparmos o Planeta da eco-maquiagem.
Eloy Casagrande Jr, PhD em Eng. de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor e coordenador do Escritório Verde da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR
Um olhar menos atento, acaba acreditando que uma palha de aço usada na limpeza diária da casa, agora é ecológica, apenas por degradar-se no ambiente. Uma garrafa de plástico de um refrigerante de cor escura, agora é biodegradável por usar etanol brasileiro na sua fabricação. Latinhas de cervejas feitas a partir de um metal maleável são ecologicamente corretas por poderem ser recicladas.
O que não dizer de uma famosa mostra de ambientes de arquitetura e design de interiores, que nos convida a “morar verde”, “ao bem-estar sustentável”, que as pessoas ainda pagam para ver! A equação aqui é simples: verde + marketing e propaganda = melhoria de imagem e aumento de lucros. Todos no ramo já sabem da tendência de sermos “amigos do ambiente”. Em recente estudo conduzido entre sete países, entre eles, o Brasil, conclui-se que em média, as pessoas ouvidas estão dispostas a gastar 37% a mais em produtos verdes.
Apesar da mesma pesquisa ter concluído que há uma percepção de que produtos limpos são mais caros, 73% dos brasileiros responderam que pretendem gastar mais com eles em 2010. Vamos aos fatos, o que falta é mais informação e conhecimento por parte do consumidor do que é realmente ecológico ou sustentável.
Temos um nível raso de discussão nas escolas, que acham que basta fazer programa de separação de resíduos e transformar garrafa PET em carrinhos e aviõezinhos ser o suficiente para uma educação ambiental (sem falar na tradicional plantio de uma árvore no pátio no dia 05 de junho!). Ou mesmo nas empresas, universidades e secretárias de governo que utilizam papel reciclado nos seus impressos, acreditando que fazem a parte verde que lhes cabe!
Para reverter esta situação, talvez uma primeira medida a ser implantada, seria ensinar aos estudantes (e também professores) de todos os níveis e cursos, além de patrões e empregados, o que é Análise de Ciclo de Vida (ACV) de um produto. Trata-se de entender qual o impacto socioambiental de toda a trajetória de fabricação do mesmo, do berço ao túmulo (ou ressurreição). Quer dizer, mapear desde a extração do recurso, a produção da matéria-prima e a transformação em produto, além do transporte, uso e descarte final (ser reaproveitado ou reciclado), para assim sabermos o quanto o mesmo é ecológico ou insustentável. Em países sérios, selos e certificações que atestam cientificamente os produtos verdes se utilizam do ACV.
Este é o papel que deve assumir o governo, as universidades, as instituições reguladoras, que tem credibilidade para tal, sem a contaminação comercial. Assim, poderíamos entender que o aço e o alumínio causam um grande impacto no ambiente, desde a extração no minério de ferro e a bauxita, passando pelos os ácidos e produtos químicos usados nas suas transformações, até a enorme quantidade de energia utilizada no seu processo.
Ser sustentável, também seria as empresas darem melhores condições de coleta e reciclagem de suas latinhas para o exército de catadores que vagueiam pelas ruas e lixões das cidades brasileiras. Também compreenderíamos que longas distâncias não são sustentáveis, como querem nos convencer os fabricantes da garrafa de “plástico verde”, a base do etanol brasileiro, que viaja meio mundo para ser transformado em garrafa na Índia, para depois voltar ao Brasil, o que significa 14 mil quilômetros de emissão de carbono.
Sem contar, que “morar verde” em Curitiba ou em qualquer parte do Planeta é muito mais do que tomar chá em uma mesinha de madeira de demolição ou colocar meia dúzia de vasos de flores dentro de casa. Para termos o bem-estar sustentável e saudável, temos de abdicar um pouco do luxo em pró da simplicidade, projetar ambientes com conforto térmico-acústico e deixarmos de usar produtos de base sintética ou que usam colas cancerígenas, assim como os metais cromados, tintas tóxicas e lâmpadas de alto consumo energético.
Com informação correta, conscientização e educação, poderemos evoluir e limparmos o Planeta da eco-maquiagem.
Eloy Casagrande Jr, PhD em Eng. de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor e coordenador do Escritório Verde da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR
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