Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Seringueiros renovam contrato de venda com empresa francesa /// Agencia de Noticias do Acre

Escrito por Tatiana Campos
12-Mai-2010

FDL é vendida para indústria de calçados européia. Seringueiros de Assis Brasil vão entregar 10 toneladas de borracha

Representantes da empresa apresentaram avanços na parceria com os seringueriros para compra do látex (Fotos: Angela Peres/Secom)

A Folha de Defumação Líquida (FDL), produzida por seringueiros acreanos continuará a virar solas de sapatos europeus. O francês Francois Morillion renovou, pelo terceiro ano consecutivo, o contrato de compra e venda da borracha acreana. Até o final de 2010 serão entregues dez toneladas de FDL para a empresa francesa de calçados Veja.
No contrato celebrado em 2009, o seringueiro que mais produzisse FDL seria contemplado com um bônus de R$ 1 por quilo produzido. Raimundo Nonato Lopes, o Tamba, de apenas 23 anos, representa a nova geração de seringueiros e foi, pelo segundo ano, o campeão de produtividade no Seringal Icuriã. Foram 519 quilos de FDL entregues no contrato. Tamba relembra que não queria participar do novo processo de produção de látex no início, quando os primeiros seringueiros começaram a produzir FDL em Assis Brasil.

Mas, se viu obrigado a tocar a produção com a morte de um dos irmãos, que havia ganhado uma Unidade de Produção do Governo do Estado. "Hoje eu vejo o quanto este método é melhor que o outro, por não precisar da fumaça e ser melhor de lidar. E a renda é melhor também. Sobra mais dinheiro pra gente comprar o que precisa, roupa, sapato, remédio. A luz [Luz para Todos] chegou lá em casa. Já temos televisão e agora, com o dinheiro que ganhamos com a entrega da borracha, vamos comprar uma geladeira", disse o seringueiro.

A borracha produzida na Reserva Chico Mendes, em Assis Brasil, é vendida para a empresa francesa Veja, onde vira solas de tênis produzidos com algodão orgânico. Os seringueiros recebem um valor justo pela produção e são incentivados a produzir cada vez mais. Não há impactos ambientais. A floresta continua em pé e valorizada. Os governos estaduais e municipais incentivam a cadeia produtiva. A vida de quem mora nos seringais está melhorando.

A borracha sai da floresta beneficiada, transformada em FDL. O novo método de extração do látex foi desenvolvido pela Universidade de Brasília (UNB) pela equipe do professor Floriano Pastore, que estuda o processo há quinze anos. O projeto Tecbor foi trazido para Assis Brasil através de uma parceria da UNB com o Governo do Estado, Ufac, WWF, e Prefeitura de Assis Brasil.

A borracha é uma das cadeias produtivas prioritárias definidas pelo Governo do Estado. Com recursos do Programa de Apoio às Populações Tradicionais e Pequenos Produtores, o Pró-Florestania, 248 famílias em Assis Brasil, Feijó, Tarauacá, Sena Madureira, Marechal Thaumaturgo, Bujari e Senador Guiormard serão beneficiadas com o kit necessário para a produção da FDL. Mais de 305 das 248 unidades de produção já foram construídas e equipadas.

Borracha em FDL produzida em Assis Brasil vira sapato na indústria francesa Veja
(Foto: Sérgio Vale/Secom)













O que está por trás deste contrato?
Com a produção de borracha, óleos, e outros produtos de base florestal, populações que vivem na floresta passam a ter renda e condições de se manter sem a necessidade de derrubar as árvores para vender a madeira, uma opção que esgota os recursos naturais. Ou seja, com a floresta em pé e bem manejada é possível, além de preservá-la, ter uma fonte de renda inesgotável.

Em busca de novos mercados
Dande Tavares, do escritório da WWF Brasil, diz que ideia é tornar contrato referência para novos negócios (Foto: Angela Peres/Secom) A WWF Brasil é parceira do Projeto Tecbor desde o início. "Nós atuamos em todo o mundo, então a nossa missão é procurar mercados para a borracha, pesquisando novos produtos e aplicações em mercadorias que façam a diferença do ponto de vista ambiental e social. Só nos interessa empresas que tenham ideologia e preocupação com as questões ambientais", explica Alberto Tavares, o Dande, do escritório regional da WWF Brasil no Acre.

O objetivo da WWF, segundo Dande, é tornar o contrato da Veja com a Amopreab uma referência para outros negócios. "Queremos dialogar com outras empresas que tenham também esta preocupação ambiental, que queriam praticar um comércio justo, numa negociação que seja interessante para a empresa e para os fornecedores, numa relação de equilíbrio. Para conservar a floresta, é preciso ter produção florestal".

Contrato justo
No contrato anterior, a Veja pagava até R$ 7 por quilo de FDL, já com os bônus por produtividade. No contrato atual, os bônus foram incorporados ao preço pago por quilo e os bônus foram extintos. Os seringueiros se comprometeram a entregar para a empresa de calçados francesa 10 toneladas de borracha beneficiada. Com o subsídio pagos pelo Governo do Estado (R$ 0,70) e agora, com o subsídio pago pela prefeitura de Assis Brasil (R$ 0,70) os seringueiros da Resex que fornecem para a Veja vão receber R$ 8,40 por quilo de Folha de Defumação Líquida.














Seringueiros se comprometeram a entregar para a empresa de calçados francesa 10 toneladas de borracha beneficiada (Foto: Angela Peres/Secom)

"No ano anterior foram contratadas cinco toneladas e os seringueiros produziram e entregaram seis mil quilos. Este ano o contrato é de dez toneladas. Isso demonstra duas coisas: a Veja aprova a qualidade da borracha produzida aqui e os seringueiros acreditam que este é um bom caminho, estão vendo os frutos dessa produção", disse o secretário de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof), Nilton Cosson.

A prefeitura de Assis Brasil é a primeira no Acre e a segunda no Brasil a pagar subsídio para a borracha. "Nosso município tem boa parte do território como reserva extrativistas. Precisamos incentivar os seringueiros e achamos que esta é uma boa forma de contribuir", disse Eliane Gadelha.

Para o presidente da Amopreab, Antônio Araújo, o Tota, o FDL é um dos melhores produtos da floresta. "Ele é mais caro que um quilo de carne de boi, e para produzir essa carne é preciso derrubar a floresta para abrir pastos. Na reserva nós podemos extrair essa borracha de forma ambientalmente correta, sem impacto ambiental, preservando a mata e oferecendo renda para o seringueiro".

Segundo a agente de compras da Veja, Bia Saldanha, a valorização da origem da matéria-prima é um passo importante na execução de um contrato justo. "É fundamental no mercado em que a gente atua a valorização da origem da borracha, que é de primeira qualidade. O personagem principal neste cenário é o seringueiro. Os consumidores escolhem o produto porque acham bonito e porque sabem, entendem e conhecem a origem dele".

Borracha sai beneficiada da floresta
Processo de fabricação do FDL garante um látex mais limpo, flexível e resistente (Foto: Angela Peres/Secom) A FDL agregou valor à borracha por não conter impurezas e sair da floresta pronta para ser processada nas indústrias. Os estudos da UnB demonstraram que a borracha resultante do uso dessa técnica é mais flexível e mais resistente que a sintética ou a obtida com a defumação tradicional.

No processo de fabricação da FDL, o látex é colhido de forma tradicional. Cada litro de leite é coagulado com dois litros de água e uma medida de ácido Pirolenhoso (APL), proveniente da queima da madeira. Na produção de carvão, o APL é encontrado fartamente e costuma ser descartado pelas indústrias na forma líquida. Esse ácido substitui o processo de defumação tradicional. O látex coagulado descansa em bandejas de plástico por 24 horas, quando atinge o ponto ideal para ser passado pela calandra, um instrumento que ajuda a deixar as folhas de látex na espessura desejada. Depois desta etapa, o passo seguinte é a secagem e a armazenagem das folhas.





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Atualizado em ( 12-Mai-2010 )

Pesca predatória consome Rio Jauaperi na bacia amazônica /// Estadão.com.br

Conflito entre pescadores comerciais e artesanais ameaça a biodiversidade e o modo de vida ribeirinha

RIO JAUAPERI, AMAZÔNIA - Franciel, 6 anos, nasceu e cresceu na floresta amazônica, à beira de um rio. Mas nunca viu um pirarucu. O maior peixe da Amazônia, ele só conhece pelas figurinhas de colorir no livro da escola. "Um dia ele veio me perguntar se o pirarucu de verdade era assim mesmo, igual ao do papel", assustou-se o pai, Francisco Pareide de Lima, artesão e pescador do Rio Jauaperi.


Lima mesmo, aos 42 anos, não vê um pirarucu faz tempo por ali. Não por causa das águas escuras da Bacia do Rio Negro, mas porque a espécie virou mesmo coisa rara - raríssima - no entorno da comunidade onde vive, chamada Itaquera, a um dia e meio de barco de Manaus.

É o sintoma mais emblemático de um conflito entre pesca artesanal e comercial que há anos ameaça a subsistência dos ribeirinhos e a preservação do meio ambiente na região do Jauaperi e do baixo Rio Branco, na divisa do Amazonas com Roraima. A pesca artesanal é a base da alimentação dos ribeirinhos, que têm no peixe sua principal - e às vezes única - fonte de proteína. Sair em uma canoa com um anzol ou uma zagaia (arpão de três pontas) na mão é como ir à padaria buscar pão para o café da manhã. Faz parte da rotina.

É difícil faltar peixe na Amazônia. Mas a concorrência com os barcos comerciais (chamados geleiros) que arrastam suas redes rio acima vem tornando essa rotina cada vez mais sacrificada para os ribeirinhos. Em 2001, já notando uma diminuição na quantidade de peixe, um grupo de moradores entrou com pedido no Ministério do Meio Ambiente (MMA) para a criação de uma Reserva Extrativista (Resex) no Baixo Rio Branco-Jauaperi, que daria aos comunitários o controle sobre as atividades de pesca e extrativismo na região. O projeto recebeu aval do ministério em 2007 e foi encaminhado à Casa Civil, que agora o devolveu para o MMA (mais informações na pág. A30).


"Cessar-pesca"
Em 2006, o peixe ficou tão escasso no Jauaperi que pescadores tradicionais e comerciais fecharam um acordo de "cessar-pesca", válido por três anos, para dar tempo aos peixes de se reproduzirem. Entre abril de 2007 e abril de 2009, só a pesca de subsistência foi permitida. Apesar das invasões de geleiros no primeiro ano, a estratégia parece ter funcionado - pelo menos para os peixes. Mas o conflito sobre quem tem o direito de pescá-los ainda está longe de ser resolvido. Ao fim do período, os moradores tentaram renovar o acordo por mais três anos. Não conseguiram. Então apelaram para a Justiça. Em setembro de 2009, um juiz local concedeu liminar proibindo todo tipo de pesca no Jauaperi (menos a de subsistência) até que um estudo seja feito para determinar quanto de pesca o rio realmente pode suportar. O Ibama teve 90 dias para fazer o estudo. Não fez. Também não apareceu mais na região, segundo os ribeirinhos. "Conseguimos a decisão judicial, mas o principal não aconteceu: a fiscalização", diz Lima, que preside a Associação de Artesãos do Rio Jauaperi.

Percebendo que havia peixe de novo na área, os geleiros voltaram a subir o rio, vindos principalmente dos municípios de Manaus e Novo Airão. A proibição judicial ficou só no papel. E o peixe já começou a ficar escasso de novo. "Quando o geleiro entra, a gente sente a diferença na hora", diz Pedro da Silva Barbosa, de 50 anos, morador da comunidade Samaúma. "Antes, era só entrar no rio que eu pescava alguma coisa rapidinho. Agora, tenho de ficar no mínimo umas três horas na água para trazer o peixe para o jantar."

Lima sente a mesma dificuldade em Itaquera. A sensação, para ele, é que todo o esforço do cessar-pesca foi por água abaixo. Vários geleiros - assim chamados porque ficam vários dias no rio e estocam o peixe em bacias com gelo - trabalham com redes em forma de saco que podem ir de uma margem a outra, fechando completamente o rio. É o chamado "capa-saco". Tudo o que estiver passando pelo rio é capturado - peixe, tartaruga, boto, peixe-boi, jacaré, arraia. O que tiver valor comercial, vai para o gelo no porão. O que não tiver, é jogado de volta no rio para morrer.

Além da proibição judicial, há o período de defeso, de 15 de novembro a 15 de março, em que a pesca é proibida para proteger a reprodução dos peixes. Apesar disso, havia barcos pescando intensamente nos últimos meses. Muitos deles de noite. Todos ilegais.



Ameaças
O período crítico de pesca está terminando. É de outubro a março, durante a "seca" amazônica, quando os rios estão mais baixos e fica mais fácil encurralar os cardumes. Quando o rio sobe e invade a floresta, os peixes se escondem entre os troncos submersos e fica mais difícil pescar - até mesmo para ribeirinhos. "Quando chegar abril, maio, vamos ter de gritar de fome por aqui. Vai ficar muito difícil encontrar o peixe", prevê Lima, que tem seis filhos para alimentar. Ele e outros que defendem a criação da Resex recebem ameaças constantes - até mesmo de vizinhos da própria comunidade.

Todos por ali se lembram da morte do Pimenta, apelido de José Santos Cruz, um voluntário do Ibama que foi morto a tiros no Rio Branco em 2006, quando defendia uma praia de desova de quelônios (tartarugas, tracajás e outros bichos de casco, como se fala na Amazônia). A caça desses bichos é ilegal, mas a carne e os ovos são muito apreciados por moradores da floresta e da cidade.

Tem também a história do seu Chico Caetano, da comunidade Floresta, na esquina do Jauaperi com o Negro, que teve a casa incendiada em 2008. Um senhor bem disposto, de 72 anos, seu Chico recebeu a reportagem do Estado em uma manhã de muito calor, encharcado de suor e com um facão na mão, vestindo botas de borracha e um boné surrado do New York Yankees - time de beisebol do qual nunca ouviu falar. Acabara de voltar da mata, onde abria uma picada para arrastar a madeira que usará para refazer sua casa. Da morada original, só restou uma varanda chamuscada. "Quando a gente fala em reserva, o pessoal que faz tráfico de bicho de casco não gosta, não."

Para ele, a Resex seria uma forma de controlar a pesca na região, "de modo que não chegue todo mundo aqui tirando o que quiser". Muitos moradores, porém, temem possíveis restrições que a reserva traria ao seu modo de vida. "Sou contra, por vários motivos. Primeiro porque priva um pouco nosso ganho com a pescaria. E mais tarde podem trazer o Ibama para impedir também a agricultura. Não vai poder cortar mato, nem queimar, plantar nada mais", diz o agricultor Silvio Moraes, de Itaquera. "Converso com pessoas de outras reservas e eles têm de roubar da própria terra para sobreviver."

Pergunto a ele se não tem medo que o peixe do rio acabe. "Não, porque tudo que Deus faz não se acaba", responde. "Só acaba para quem não acredita na palavra do Senhor."

Outros ribeirinhos expressam a mesma preocupação: de que, se a Resex for criada, não poderão "cortar mais nem um pau", fazer roça, caçar ou até mesmo pescar. "A maioria aqui não gosta de reserva não. Quando ouvem falar em Resex é uma marretada na cabeça deles", diz o caboclo Lígio Cardoso de Freitas, de 61 anos, da comunidade Tanauaú.

A desinformação é agravada pela demora no processo de criação da reserva, que gera descrença entre os ribeirinhos. "Nosso esforço maior agora é o de esclarecimento", diz o biólogo Francisco Oliveira Filho, coordenador do Programa de Áreas Protegidas do WWF-Brasil, uma das organizações que apoiam a criação da Resex. "Há um trabalho de contrainformação muito forte." O modelo de reserva extrativista permite todas essas atividades, desde que feitas dentro de um plano de manejo. "No início eu era contra porque diziam que o Ibama ia meter uma corrente no rio e tirar todo mundo na porrada", conta a ribeirinha Amélia Ferreira Peres. Agora, garante que lutará pela Resex "até o último dia".

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