Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)

Retrocesso na agenda socioambiental: O ‘Brasil Grande’ que pensa pequeno

Retrocesso na agenda socioambiental: O ‘Brasil Grande’ que pensa pequeno

Publicado em abril 25, 2012 por
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A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das “Notícias do Dia’ publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, com sede em Curitiba-PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia.
Sumário:
Brasil Grande?
Retrocessos na agenda social
Agenda nova. Velhas visões
Triunfalismo esvazia agenda social
(Des)razões do retrocesso
Eis a análise.
Desde os dois governos Lula, particularmente a partir do segundo mandato [2006], o Brasil vive certo clima de ufanismo. O país voltou a crescer, distribuir renda, tornou-se a 6ª maior economia do mundo e de nação subdesenvolvida passou a nação emergente e potência no cenário internacional em suas expressões política e de mercado.
Economia estabilizada, distribuição de renda via programas sociais, aumento real do salário mínimo, sociedade do quase pleno emprego e faxina na política compõe o quadro que dá a Dilma Rousseff, assim como foi com Lula, altos índices de popularidade e em todas as classes sociais. Renovou-se o sentimento do “Brasil Grande” similar àquele da época dos militares em que se dizia que ‘ninguém segura esse país’.
Esse sentimento de pujança, vigor e ufanismo contrasta, entretanto, com retrocessos na agenda social, na agenda de reformas estruturais e, pior ainda, no recuo de conquistas efetivadas no que se denominou de Constituição Cidadã [1988], resultante das lutas sociais do final dos anos 70 e anos 80. A regulamentação de muitos dessas conquistas caminham para trás e a elas se somam outros ataques aos direitos sociais.
Um paradoxo surge, estamos diante de uma agenda conservadora num governo de esquerda.
Retrocessos na agenda socioambiental, agrária e do trabalho
Os casos de retrocesso na agenda social, ambiental e do mundo do trabalho não são poucos e, entre tantos, podemos citar:
- PEC 215: Projeto de emenda constitucional que propõe transferir do Poder Executivo para o Congresso Nacional a demarcação e homologação de terras indígenas e quilombolas, além de rever os territórios com processo fundiário e antropológico encerrado e publicado. Caso aprovado significa o fim da demarcação das terras indígenas e quilombolas que se arrastam há mais de uma década. Segundo a Constituição de 1988, o processo de demarcação das terras indígenas no país deveria ter sido terminado em 1993. Nas últimas semanas travou-se intensa batalha no Congresso contra a medida.
- ADI 3239: Somado a PEC 215 Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 3239, foi proposta pelo Partido dos Democratas (DEM) contra o Decreto Federal 4887/2003 que regulamentou o processo de titulação das terras dos remanescentes das comunidades de quilombos criando mecanismos que facilitam o processo de identificação e posterior titulação de comunidades. Caso aprovada a representação do DEM, os direitos de populações que historicamente foram discriminadas e jogadas à margem da sociedade ficariam nulos. Mais de 120 anos após o fim da escravidão, a regularização das áreas remanescentes de quilombos ainda enfrenta resistências. Para a CNBB, “a garantia da propriedade das terras secularmente ocupadas pelos quilombolas é dever constitucional e compromisso ético-moral”.
- PEC 483: Segundo a proposta da PEC 483, as propriedades rurais e urbanas de qualquer região do país onde forem localizadas produção de drogas ou a exploração de trabalho escravo serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário. A proposta tramita há dez anos na Câmara dos Deputados e nunca foi votada. A bancada ruralista impede a votação e o governo nunca se empenhou decisivamente por sua aprovação. Há promessas de que a PEC irá à votação nesse ano.
- Mineração em terras indígenas: O governo está propondo um novo código de mineração que permitirá a exploração de terras indígenas por empresas mineradoras. O argumento do governo é que a regulamentação é necessária para que se estabeleçam regras e controle sobre a exploração das terras indígenas, que hoje ocorre de forma desordenada por garimpeiros, causando grande impacto ambiental e social – e, muitas vezes, provocando conflitos. Além disso, o Estado deixa de arrecadar tributos sobre a exploração dos recursos nacionais. Especialistas, entretanto, alertam que empreendimentos para exploração mineral instalados em terras indígenas podem causar impactos tão grandes nos povos que podem mesmo levá-los à extinção.
- Código Florestal: De todos os temas em pauta, o Código Florestal é visto como o dos mais graves exatamente por simbolizar retrocessos sem precedentes na agenda socioambiental. Segundo organizações ambientalistas a iminente votação de uma proposta de novo Código Florestal é o ponto paradigmático do processo de degradação da agenda socioambiental que flexibiliza a legislação de proteção às florestas, concede anistia ampla para desmatamentos, institui a impunidade e estimulará o aumento do desmatamento, além de reduzir as reservas legais e Áreas de Proteção Permanente – APPs – em todo o País. As organizações alertam ainda que “a versão em fase final de votação afronta estudos técnicos de muitos dos melhores cientistas brasileiros, que se manifestam chocados com o desprezo pelos alertas feitos sobre os erros grosseiros e desmandos evidentes das propostas de lei oriundas da Câmara Federal e do Senado”.
- Matriz energética: Faz poucos dias, a presidente Dilma Rousseff afirmou que não se pode discutir “fantasias” na área energética. O recado da presidenta foi dado aos movimentos sociais que criticam a proliferação de hidrelétricas, principalmente as grandes, em construção ou projetadas para os rios Madeira, Xingu, Tapajós, Teles Pires e Araguaia na região da grande Amazônia. A presidente desqualificou as energias alternativas no exato momento em que pesquisas e estudos apontam para o seu crescimento no mundo todo, particularmente no Brasil, e na sua viabilidade.
- Reforma Agrária: O acesso e a democratização da terra pouco avançou no primeiro ano do governo de Dilma Rousseff. Dados oficiais do Incra revelam que a presidenta conquistou em 2011 a pior marca dos últimos dezessete anos, contrariando a expectativa dos movimentos sociais do campo. Em 2011 foram assentadas apenas 22.021 famílias. Para o MST, os números de 2011 são vergonhosos. João Pedro Stédile, cita entre as razões da paralisia da Reforma Agrária, o descaso do governo que “não compreendeu ainda a importância e a necessidade da reforma agrária como um programa social, de produção de alimentos sadios, para resolver o problema da pobreza no meio rural”.
- Terceirização e precarização do trabalho: Tramita no Congresso o projeto de Lei 4.330 que pretende regularizar o mecanismo da terceirização. Na opinião dos sindicatos, particularmente da CUT, a terceirização precariza as condições de trabalho, aumenta número de acidentes e adoecimentos, reduz salários, amplia a jornada de trabalho, aumenta a rotatividade e desrespeita direitos trabalhistas. Destacam ainda que os trabalhadores terceirizados sofrem com os empecilhos à criação de identidades coletivas nos locais de trabalho. Movimento contra a regulamentação da terceirização lançou um Manifesto em defesa dos direitos dos trabalhadores ameaçados pela Terceirização e um abaixo-assinado.
Agenda nova. Velhas visões
Paralelamente a esse processo de retrocesso em legislações já em vigor ou derrogação de direitos em regulamentações a serem efetivadas, assiste-se a outras iniciativas que fazem coro ao discurso do “Brasil Grande” e sobre as quais há desconhecimento, pouco debate ou até mesmo a tentativa de desqualificação das forças sociais que procuram contestá-las. Destacam-se aqui o debate da Rio+20 e as obras da Copa do Mundo, entre outras.
Rio+20. O debate da superexploração dos recursos naturais planetário e os seus limites se dá no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento, a Rio+20 e não há muito otimismo com o que vem pela frente. A contribuição brasileira à Conferência tem sido tímida. Pergunta o economista Ricardo Abramovay: “se o país que vai abrigar a conferência não ousa apontar horizontes inovadores em suas posições, como esperar que a própria reunião desperte entusiasmo proporcional ao que deveria ser a sua importância?” A sensação que se tem é que o Brasil dá mais atenção a forma do que ao conteúdo na preparação da Rio+20 e estaria preocupado em passar boa imagem – daí todos os cuidados com a votação do Código Florestal e até seu possível adiamento para após o evento. O país, apesar de todas as condições de assumir a vanguarda nesse debate, estaria declinando dessa postura. Até já se fala em fiasco do evento. O diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner, pede que “o Brasil, como país anfitrião, não deixe que a cúpula apenas reafirme os compromissos de 1992. Isso será um fracasso”.
Copa do Mundo. Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa tem denunciado reiteradamente casos de impactos e violações de direitos humanos nas obras e transformações urbanas empreendidas para a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil. Os problemas acontecem nas áreas da moradia, trabalho, meio-ambiente, mobilidade, segurança pública, entre outros. Para além desses problemas, outros se somam, como os excessivos gastos brasileiros em estádios que sequer se pagarão num futuro próximo, a subserviência do Estado brasileiro diante da Fifa como na aprovação do texto básico da Lei da Copa e o autoritarismo com que o governo toca o projeto sem espaço para a participação da sociedade civil organizada.
Triunfalismo esvazia agenda social
O que se vê, portanto, é que o clima do “Brasil Grande” eclipsa retrocessos na agenda social, ambiental, agrária e do trabalho. A ascensão social via mercado de consumo esconde problemas estruturais não resolvidos como nas áreas da saúde, educação, moradia, saneamento, sistema prisional entre outros. O inegável crescimento econômico brasileiro, a melhoria de renda do conjunto da população e os programas sociais têm servido de forte argumento de esvaziamento do debate sobre os problemas que persistem na sociedade brasileira e até mesmo dos recuos na agenda socioambiental, agrária e do trabalho.
O triunfalismo com o “Brasil Grande” negligencia a dívida social para os indígenas, negros e os pobres do campo. Os grandes projetos elevados a totens do Brasil potência e a transformação do país em exportador de commodities passaram a justificar retrocessos sociais. Sem terras, indígenas, populações ribeirinhas e quilombolas tornaram-se em muitos casos estorvos. Acrescente-se a isso tudo e decorrente dessa lógica o aumento da violência no mundo rural.
A agenda no Congresso que procura retardar e impedir a demarcação das terras indígenas, a interrupção de legalização dos territórios quilombolas, a tolerância para com o trabalho escravo, a flexibilização do Código Florestal, associados ao projeto do governo de retomada do projeto de mineração, da inoperância na reforma agrária,da insistência de uma matriz energética centrada em megaobras com impactos devastadores revelam que o “Brasil Grande” não permite espaço à contestação e desqualifica as vozes dissonantes.
Sobre essa retomada do espírito do “Brasil Grande”, comenta a jornalista Eliane Brum: “Entre os desafios que um futuro biógrafo enfrentará ao contar a vida e a obra de Dilma Rousseff está o seguinte paradoxo: como uma mulher que entrou na clandestinidade, pegou em armas para lutar contra o autoritarismo e pagou pela sua coerência o preço altíssimo de ter sido torturada vira uma ministra, primeiro, uma presidente depois, que, em se tratando de políticas para a Amazônia e o meio ambiente, incorpora – e o pior, implanta – a mesma visão da ditadura militar que combateu”.
“De novo, – continua a jornalista – estamos de volta ao Brasil Grande que pensa pequeno – mas em plena democracia e numa imprensa sem censura oficial. Acho o paradoxo fascinante do ponto de vista humano, mas um desastre para o país”. Mais: “Talvez, hoje, a presidente Dilma Rousseff passasse um pito na guerrilheira Dilma Rousseff: ‘Não há espaço para a fantasia’”.
(Des)razões do retrocesso
Quais seriam as razões do retrocesso na agenda social mesmo num governo de esquerda? O porquê das enormes dificuldades em se pautar os temas citados anteriormente na sociedade? Quais as razões do isolamento da agenda social? Como explicar a debilidade do movimento social e o descenso das lutas sociais mesmo quando direitos conquistados são atacados?
As respostas não são simples. O próprio enunciado das questões pode ser questionado. Não deixa, entretanto, de ser um paradoxo o fato de que num governo de esquerda a agenda se apresente tão conservadora.
Na opinião de João Pedro Stédile, “estamos num período histórico de descenso do movimento de massas e da falta de mudanças estruturais. E é isso que afeta as mobilizações no campo, e também na cidade” e, segundo ele, agravando essa situação tem-se um governo tecnocrata e um partido de esquerda, o maior deles, sem entusiasmo com reformas estruturais. Na opinião da liderança do MST, “o governo da presidente Dilma Rousseff foi tomado por uma burocracia de segundo escalão que não entende nada de povo” (…) e “o PT virou um partido chapa-branca, que se preocupa mais com cargos e em puxar o saco do governo, deixando de cumprir seu papel de partido político”.
Outra razão para o freio de mão com que o governo lida com a agenda social seria a sua condição de refém das forças conservadoras que lhe dão sustentação. Essa hipótese dá conta de que o pretenso Brasil moderno necessita do Brasil atrasado para continuar em frente. A denominada tese da realpolitik que defende que é preciso muitas vezes recuar para paradoxalmente avançar. As concessões à bancada ruralista, evangélica, ao lobby empresarial, entre outros, explicar-se-iam por essa lógica.
Os problemas enfrentados por sem terras, indígenas, quilombolas, povos ribeirinhos, populações da periferia que devem ser removidas em função de megaprojetos deve-se também a opções políticas. No caso do governo brasileiro ao que se tem denominado de modelo (neo)desenvolvimentista, um modelo que prioriza o crescimento econômico como varinha de condão de resolução de todos os demais problemas. É a partir desse modelo que se justificam e se legitimam as grandes obras: hidrelétricas, estádios, transposição de S. Francisco… Na equação do desenvolvimentismo o meio ambiente se torna secundário, daí a dificuldade do governo lidar com a agenda ambiental (Código Florestal, Rio+20).
Há ainda outras possíveis razões do enfraquecimento da agenda social e mesmo do seu recuo. Vozes fortes que estiveram do lado do movimento social, encontram-se agora do lado oposto, no governo. Essas mesmas vozes e articulações que auxiliaram na construção do movimento social, agora, muitas vezes, o desqualificam. Entre os casos, recentes, têm-se a postura autoritária da ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário que na polêmica do relatório que envolve a hidrelétrica de Belo Monte tentou censurar e desqualificar as posições do movimento social. Outro caso recente envolve o ministro da Casa Civil Gilberto Carvalho que procurou desqualificar o movimento grevista dos canteiros da hidrelétrica de Jirau e Belo Monte utilizando-se dos mesmos argumentos que o patronato costuma utilizar.
Somam-se aos ministros de Estado, parlamentares, milhares de assessores em cargos de confiança que precisam defender as posições do governo e que já não depositam suas energias na agenda do movimento social, muitas vezes, aliás, estão na trincheira oposta.
O recuo da agenda social por outro lado, relaciona-se ao crescente conservadorismo da sociedade que mobiliza-se fortemente em torno de temais morais, mas não necessariamente sociais.
(Ecodebate, 25/04/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Acompanhar a Rio+20 é um dever de todo cidadão

[EcoDebate] O mundo voltará sua atenção para o Brasil nos dias 20 a 22 de junho de 2012. Não por causa de algum evento de cunho esportivo ou religioso, mas pela reunião dos 193 países que compõem as Nações Unidas para a discussão de temas como o desenvolvimento sustentável e o combate a pobreza. A cada 10 ou 20 anos realiza-se essas conferências, que já ocorreram em Estocolmo (Suécia) em 1972, no Rio de Janeiro – ECO-92 em1992, em Joanesburgo (África do Sul) em 2002 e agora presenciaremos a RIO+20, que pretende lançar base para o mundo que queremos para o futuro e as próximas gerações.

A Rio+20 é um impulso, um ânimo novo na sustentabilidade da ação humana no mundo, que está tão predatória e inconsequente. É preciso que se crie consciência e solidariedade para que os desafios como poluição, extinção, aquecimento global, desigualdade, fome, desrespeito à vida, educação básica de qualidade, mortalidade infantil sejam debatidos e enfrentados com seriedade e boa vontade política.

De certo é que nesta conferência dois temas dominem a discussão. Um deles, é a economia verde, tendo em perspectiva a busca de um desenvolvimento econômico sustentável, não se esquecendo da preservação ambiental. Tudo isso, passando, necessariamente, pela erradicação da pobreza. Outro tema que surgirá nas discussões é a governança global, já que é impossível pensar uma ação em favor do ambiente e da vida se não for abraçada de modo global.

A importância deste temário se dá quando nos damos conta de que estamos no esgotamento dos recursos naturais do planeta Terra. Já se consumiu 1/3 de toda biodiversidade; 25% das terras estão se desertificando; hoje 1 bilhão de pessoas passam fome; 40% da humanidade está abaixo da linha de pobreza; somente 30% do esgoto gerado é tratado; por falta de comida milhares de pessoas morrem por dia…

É preciso que a Rio+20 surta efeitos concretos. É necessário que se mude a mentalidade e os padrões de consumo, que se deixe de priorizar o lucro imediato, a acumulação de bens. “A terra possui o suficiente para garantir a necessidade de todos os homens, mas não a ganância de todos os homens.” (Mahtama Gandhi) O mundo está se tornando frágil e doente. Caso continuemos nesse ritmo desenfreado de consumo de reservas naturais, de consumo exacerbado, de desrespeito, o futuro nos reservará grandes perigos. É preciso que se forje uma mentalidade de que somos uma única família humana e moradores do mesmo planeta. Devemo-nos unir para gerar uma sociedade embasada no respeito pela natureza, pelos direitos humanos, na justiça econômico-comercial e em uma cultura de paz. É preciso aprender a respeitar e conviver com a natureza!

As palavras de Lester Brow, presidente do Instituto para políticas da terra, ressoa como uma profecia, que compete a esta geração transformar. “O tempo para se mudar de estilo de vida passou. O futuro da humanidade depende, agora, em nos tornarmos politicamente envolvidos e sermos os atores ativos a mover a economia mundial em um caminho de progresso sustentável. A mobilização política e a contribuição diária – em relação e tempo, como nos locomovemos e consumimos – será feito por nossa geração, mas afetará a vida de todas as gerações futuras.”

Podemos nos perguntar, o que tudo isso interfere em minha vida, em meu cotidiano, em minha cidade… Simples, pensar globalmente e agir localmente. É preciso despertarmos para as questões que afligem a humanidade tendo como paradigma de solução as ações dos governos, dos grande conglomerados industriais; mas também a ação de grupos menores, chegando até à ação individual. O que está em jogo são as respostas às perguntas provocadoras e inquietantes: “Que futuro queremos? O que estamos sonhando para as gerações futuras?” Por isso, acompanhar este evento da RIO+20 é um dever de cada cidadão e cidadã.
Geraldo Trindade – bacharel em filosofia, mantém o blog: http://pensarparalelo.blogspot.com

Cronobiologia: conheça as horas mais propícias pra cada atividade no seu dia-a-dia, artigo de Frederico Lobo

Publicado em abril 17, 2012 por

  1. Acordar cedo para correr.
  2. Em seguida, ir ao dentista.
  3. Às 14h, participar de uma reunião de trabalho.
  4. À noite, aula na faculdade.
  5. E uma consulta ao relógio à espera do último compromisso do dia.
  6. Um encontro com os amigos para tomar uma cervejinha.
Agora imagine outro relógio, destinado a marcar outro ritmo: o do seu corpo. Nessa agenda interna, as coisas mudam.
  1. Quer correr? Então calce os tênis no início da noite, quando a força física aumenta e a suscetibilidade à exaustão é menor.
  2. Dentista de manhã? Só por masoquismo: à tarde, a sensibilidade à dor será menor e, caso seja necessário usar anestesia, ela terá efeito três vezes mais duradouro.
  3. Talvez seja bom rever o horário da reunião: por volta das 14h, o corpo pede sono, e ficamos mais letárgicos.
  4. Quanto ao curso, uma dica: de manhã a capacidade cognitiva aumenta e facilita a aprendizagem.
  5. Nem a tal cerveja escapa: o fígado metaboliza melhor o álcool entre as 17h e as 18h.
Nenhuma dessas recomendações são fruto de algum livro de auto-ajuda ou de gurus. São baseadas nas descobertas da Cronobiologia, um ramo da ciência que estuda os ritmos biológicos, sua interação com o ambiente e como o ser humano – ao conhecê-los e respeitá-los – pode aproveitá-los para melhorar o desempenho na vida pessoal, social e profissional.
Será então que somos programados e temos um relógico biológico?
Sim, temos um relógio biológico e ele se localiza no hipotálamo. Consiste numa estrutura denominada Núcleo supraquiasmático. Esta pequena estrutura cerebral dita o ritmo dos processos fisiológicos e comportamentais. A duração de cada ciclo é circa-diana (ou seja, cerca de um dia).
O núcleo supraquiasmático precisa de receber informação das células ganglionares da retina para “acertar o relógio” às 24 horas. Sendo assim, o sincronizador mais potente do nosso “relógio biológico” é, sem dúvida, a luz solar. Pode parecer incrível, mas só a partir dos anos 90 é que os cientistas – na verdade, os pioneiros da cronobiologia – obtiveram mais detalhes sobre o relógio biológico, ativação do núcleo supra-quiasmático e coordenação de vários eventos orgânicos.
Ao longo dos milênios, a evolução deste mecanismo foi fundamental para a adaptação do organismo ao movimento de rotação da Terra, permitindo organizar temporalmente as tarefas biológicas em função das necessidades. O núcleo supraquiasmático integra a informação ambiente e comunica, por via neuronal ou hormonal, com os tecidos periféricos ritmando e sincronizando a sua função.
Os achados sobre ele, nos mostram o tão complexo é o nosso corpo, uma série de engrenagens que se comunicam. Como já citado acima, a luz solar é o principal ativador de todo o mecanismo, ou seja, os ponteiros do corpo são acionados pela luz. A luz incide sobre a retina aí o núcleo supra-quiasmático desencadeia uma série de respostas que vão coordenar uma cascata de reações bioquímicas que pautarão todas as funções de órgãos e sistemas.
É esse relógio, por exemplo, que determina quando um hormônio deve subir em concentração no sangue ou quando deve diminuí-lo a níveis muito baixos. E faz isso regido por uma lógica própria e bastante inteligente, voltada para a adequação da função a ser desempenhada de acordo com a parte do dia ou da noite.
Um exemplo claro dessa perfeição é o que ocorre logo após o almoço. Guiado pelo relógio biológico, o corpo diminui a produção de hormônios responsáveis pelo estado de alerta para centrar esforços na fabricação de hormônios importantes para o processo da digestão. “Essa é uma das razões da sonolência típica do período”, explica o neurocientista John Fontenele Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e um dos principais estudiosos brasileiros de cronobiologia. Ao mesmo tempo, também sob a batuta do tal relógio, o corpo baixa sua temperatura e envia mais sangue para o sistema digestivo, fechando um pacote que aumenta o sono, mas em compensação mobiliza o organismo para o que, naquele momento, é o mais importante.
Até pouco tempo atrás, o estudo da Cronobiologia era restrito aos laboratórios das instituições de pesquisa. Essa nova ciência começa agora a ganhar espaço entre a população com a publicação de livros a respeito do assunto. O mais recente é o Sex sleep eat drink dream, a day in the life of your body (Sexo dormir comer beber sonhar, um dia na vida do seu corpo), de Jennifer Ackerman. Nele, a escritora científica faz uma compilação de vários estudos da área. Lançado no ano passado nos Estados Unidos, o livro está entre os mais vendidos
O grande segredo do sucesso que o assunto faz entre os leigos é justamente o fato de a cronobiologia estar decifrando para o homem um mecanismo que lhe é inato, importantíssimo para o bom funcionamento do corpo e da mente, mas que até então era pouco conhecido.
A cronobiologia tem contribuído para o estudo do desenvolvimento psicomotor, na relação entre a ritmicidade circadiana e a função cognitiva, nas desordens do humor, nas alterações do ciclo sono-vigilia, sendo um dos motivos da insônia, e estudos comportamentais em trabalhadores noturnos ou em turnos alternantes.
A cronobiologia em sido vista em várias linhas de estudo:
  1. Área molecular – identificação dos mecanismos moleculares e dos vários genes que contribuem para o controle da expressão da ritmicidade circadiana.
  2. Área da fisiologia – identificação dos principais mecanismos biológicos influenciados pela luz.
  3. Área da psicologia – identificação da importância da ritmicidade biológica nas funções cognitivas (aprendizagem e memória).
  4. Área da medicina – na caracterização, tanto no diagnóstico quanto no tratamento de distúrbios da ritmicidade e as doenças relacionadas.
  5. Área da saúde pública – identificação da influência e conseqüências do trabalho noturno ou em turnos alternantes.
As duas principais frentes de aplicação clínica da Cronobiologia são:
  1. Cronopatologia: Estuda o efeito do ciclo circadiano na saúde e sua relação com as doenças. Exemplos: Têm-se os menores níveis tensionais às 3:00 hs da madrugada e máxima divisão celular das células da epiderme à meia-noite; a asma é pior às 4:00 h da madrugada, enquanto as doenças cerebrais e cardiovasculares têm predomínio pela manhã.
  2. Cronofarmacologia: Estuda a variabilidade circadiana da eficácia e toxicidade dos diversos tratamentos farmacológicos. Exemplo: A melhor eficácia de um fármaco (diltiazem) se dá quando administrado a noite, e o máximo efeito anticoagulante entre 4:00 e 8:00 hs da manhã. Ou o Acido acetilsalicílico (AAS) sendo tomado a noite pra fazer efeito de manhã, quando a ocorrência de infartos é maior.
Devido essas várias constatações e aplicações na prática clínica, os conceitos da cronobiologia têm despertado muito interesse nos pesquisadores. Afinal, são informações úteis para definir ações nas mais variadas áreas da vida humana. Desde recomendar a melhor parte do dia para fazer um exercício de alta performance até qual o horário ideal para tomar um medicamento.
Na Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos, por exemplo, funciona um grupo coordenado pelo Dr. Jim Waterhouse, um dos grandes pesquisadores da área. Neste centro, os cientistas já chegaram a conclusões interessantes, algumas relacionadas ao tempo do corpo e o exercício físico. “O melhor horário para ganhar condicionamento e aumentar a resistência é no fim da tarde e início da noite. Neste período, o alerta e a motivação estão em alta”, segundo o Dr.Waterhouse.
A pesquisadora Leana Araújo, do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício Físico da Unifesp, com quem o Dr.Waterhouse desenvolve um trabalho em comum, adiciona outra explicação para a escolha do momento para os exercícios pesados. “No final da tarde, a percepção corporal está mais aguçada, o que eleva a rapidez nas reações de proteção para não sofrer lesões”, diz Leana.
Outra área que vem se valendo dos dados da nova ciência é a produção e administração de medicamentos (Cronofarmacologia, como já citado acima). ”Muitas bulas, lidas com atenção, já preconizam horários adequados para o consumo de remédios”, afirma o cientista Luiz Menna-Barreto, um dos primeiros do Brasil a estudar os ritmos do corpo.
Existe uma droga contra hipertensão, por exemplo, que deve ser ingerida à noite, antes de dormir. Ela foi desenvolvida para apresentar seu pico de ação no começo da manhã, horário em que ocorre boa parte dos infartos. Na França, esse tipo de informação está sendo levado tão a sério que alguns hospitais começam a aplicar remédios em horários específicos para que tenham melhor efeito. Por lá, as pesquisas básicas também estão bastante avançadas. Um dos cientistas mais destacados é Francis Levi, da Unidade de Cronoterapia do Serviço de Cancerologia do Hospital Paul Brousse, da Universidade de Paris. Ele estuda meios de usar a cronobiologia para a criação de novos medicamentos e a melhor utilização dos já existentes. Ele e sua equipe têm comprovado que os diferentes ritmos do organismo ao longo do dia podem influir na eficácia, toxicidade e tolerabilidade das drogas.

Estudos em ratos mencionados por Levi num dos artigos científicos, mostraram que a mesma dose de um fármaco pode ser letal se administrada em certos momentos do dia ou da noite, mas tem pouco efeito adverso quando dada em outro horário. No ser humano, segundo Levi, a conciliação entre o momento da administração e os tempos dos ritmos gerais e relógios moleculares de cada órgão – estes regidos por genes chamados de clock genes – pode se traduzir em resultados clinicamente relevantes.
No Brasil, também existem estudos sobre o tema em andamento. O fisiologista Mário Miguel, do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento de Ritmos Biológicos da Universidade de São Paulo, estudou a variação ao longo do dia do efeito da ciclofosfamida – droga que reduz a atividade do sistema de defesa para não haver rejeições de órgãos. “Perto do meio-dia seu efeito é maior e mais positivo”, conta o pesquisador.

Porém, como qualquer coisa que diz respeito ao ser humano, é claro que há variações individuais nos horários de cada relógio biológico. Embora cerca de 80% da população siga praticamente em um mesmo ritmo, há aqueles que têm seu potencial concentrado na manhã, na tarde ou na noite. São os chamados Cronotipos: matutinos ou vespertinos. Para esses indivíduos, ser obrigado a trabalhar ou realizar alguma atividade importante no período em que seu corpo está com o desempenho baixo representa um sacrifício.

Um teste simplificado para saber qual o seu cronotipo consiste em responder a um questionário que tenho aplicado nos meus pacientes e que quase sempre é compatível. O questionário foi elaborado pelos doutores Horne e Osterberg e publicado no Jornal internacional de Cronobiologia em 1976. A pontuação está descrita ao final de cada pergunta, portando anote a sua pontuação e ao final some.

1 – Até que ponto vc depende do despertador para acordar de manhã:
1 – muito dependente ( )1
2 – razoavelmente dependente ( )2
3 – um pouco dependente ( )3
4 – nada dependente ( )4

2 – Você acha fácil acordar pela manhã?
1 – Nada ( )1
2 – Não muito ( )2
3 – Razoavelmente ( )3
4 – Muito ( )4

3 – Você se sente alerta durante a primeira meia hora depois de acordar?
1 – Nada ( )1
2 – Não muito ( )2
3 – Razoavelmente ( )3
4 – Muito ( )4

4 – Como é o seu apetite durante a primeira hora depois de acordar?
1 – Péssimo ( )1
2 – Ruim ( )2
3 – Razoável ( )3
4 – Muito bom ( )4

5 – Durante a primeira meia hora depois de acordar você se sente cansado?
1 – Muito ( )1
2 – Não muito ( )2
3 – Razoavelmente em forma ( )3
4 – Em plena forma, bem enérgica ( )4

6 – A que horas você gostaria de ir se deitar, caso NÃO tivesse compromisso na manhã seguinte?
1 – Mais de duas horas mais tarde que o normal ( )1
2 – Entre uma e duas horas mais tarde do que o habitual ( )2
3 – Menos que uma hora mais tarde que o habitual ( )3
4 – Nunca mais tarde do que o horário que costumo dormir ( )4

7 – O que você acha de fazer exercícios físicos das 07:00 às 08:00 2 vezes por semana?
1 – Acharia muito difícil ( )1
2 – Acharia isso difícil ( )2
3 – Estaria razoavelmente disposto pra fazer( )3
4 – Estaria bem disposto pra fazer ( )4

8 – Você foi dormir várias horas mais tarde do que o costume. Se no dia seguinte você não tivesse hora certa pra acordar, o que que aconteceria?
1 – Acordaria mais tarde que o habitual ( )1
2 – Acordaria na hora normal e dormiria novamente ( )2
3 – Acordaria na hora normal, com sono ( )3
4 – Acordaria na hora normal, sem sono ( )4

9 – Se você tivesse de ficar acordado nas 04:00 às 06:00 pra fazer uma tarefa e não tivesse compromisso durante o resto do dia, o que você faria?
1 – Só dormiria depois de fazer a tarefa ( )1
2 – Tiraria uma soneca antes da tarefa e dormiria depois ( )2
3 – Dormiria bastante antes e tiraria uma soneca depois ( )3
4 – Só dormiria antes de fazer a tarefa ( )4

10 – Se você tivesse de fazer 2 horas de exercício pesado, qual destes horário você escolheria?
1 – 19 às 21h ( )1
2 – 15 às 17 ( )2
3 – 11 às 13 ( )3
4 – 8 às 10 ( )4

11 – O que você acha de fazer exercícios físicos das 22:00 às 23:00 2 vezes por semana ?
1 – Estaria bem disposto pra fazer ( )1
2 – Estaria razoavelmente disposto pra fazer( )2
3 – Acharia isso difícil ( )3
4 – Acharia isso muito difícil ( )4

12 – Entre 20h e 03h, a que horas
da noite você se sente cansado e com vontade de dormir?
1 – 20 às 21 ( )5
2 – 21 às 22 ( )4
3 – 22 às 00:45 ( )3
4 – 00:45 às 02 ( )2
5 – 02 às 03 ( )1

13 – Se você fosse se deitar às 23h, com que nível de cansaço você se sentiria?
1 – Nada cansado ( )0
2 – Um pouco cansado ( )2
3 – Razoavelmente cansado ( )3
4 – Muito cansado ( )5

14 – Se você tivesse total liberdade pra planejar seu dia, que horas que você levantaria?
1 – 5:00 às 6:30 ( )5
2 – 6:30 às 07:45 ( )4
3 – 07:45 às 09:45 ( )3
4 – 09:45 às 11:00 ( )2
5 – 13:00 às 14:00 ( )1

15 – Se você tivesse total liberdade pra planejar seu dia, que horas que você deitaria?
1 – 20:00 às 21:00 ( )5
2 – 21:00 às 22:15 ( )4
3 – 22:15 às 00:30 ( )3
4 – 00:30 às 01:45 ( )2
5 – 01:45 às 03:00 ( )1

16 – Se você trabalhasse por 5 horas seguidas e pudesse escolher qualquer horário do dia, por qual você optaria?
1 – Matutino ( )5
2 – Verspertino ( )3
3 – Noturno ( )1

17 – Em que hora do dia você atinge o seu melhor momento de bem-estar?
1 – 5 às 7 ( )5
2 – 8 às 9 ( )4
3 – 10 às 16 ( )3
4 – 17 às 21 ( )2
5 – 22 às 04 ( )1

18 – Qual o horário você escolheria para ter o máximo de sua forma em um teste de esforço mental?
1 – 8 às 10 ( )6
2 – 11 às 13 ( )4
3 – 15 às 17 ( )2
4 – 19 às 21 ( )0]

19 – Com qual cronotipo você se considera mais parecido?
1 – Tipo matutino ( )6
2 – Mais matutino que vespertino ( )4
3 – Mais vespertino que matutino ( )2
4 – Tipo vespertino ( )0

Some as pontuações:
  • 16-30 pontos: Vespertino típico
  • 31-41 pontos: Moderadamente vespertino
  • 42-58 pontos: Misto
  • 56-69 pontos: Moderadamente matutino
  • 70-86 pontos: Matutino típico
Segundo o Dr. Delattre, de 10% a 12% da população são matutinos; 8% a 10% são vespertinos. A maioria, 80%, está numa situação intermediária. Mas esse perfil muda ao longo da vida. Crianças e idosos tendem a ser mais matutinos. Na adolescência, porém, há um ‘atraso’: os jovens sentem necessidade de ir para a cama mais tarde. Mas esse aspecto nem sempre é levado em consideração: os adolescentes têm de acordar cedo para ir à escola.

Em Natal, pesquisadores do Laboratório de Cronobiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte buscam alternativas para esse problema. Segundo a professora Carolina Azevedo, especialista em neurociência do comportamento, uma das pesquisas feitas na instituição atualmente avalia a reação de estudantes a três tipos de intervenção.

No primeiro grupo, eles receberam informações sobre hábitos saudáveis de sono e aprenderam que a exposição à luz artificial, como a do computador, atrasam o ciclo de sono e vigília. No segundo grupo, os jovens passaram a ter a primeira aula ao ar livre. No terceiro, as primeiras aulas foram de educação física. ‘Os ritmos circadianos tendem a se adiantar com a exposição à luz solar de manhã. Além disso, a atividade física interfere nos ritmos’, explica Azevedo. Segundo ela, esse tipo de conhecimento é importante para a saúde. ‘Vários ciclos acompanham o de sono e vigília. Quando mexemos nos horários de dormir e de acordar, isso afeta tudo no corpo.’

A verdade é que viver na contramão do próprio relógio biológico pode ter conseqüências sérias do ponto de vista social, profissional e também sobre a saúde. Estudos sugerem que uma rotina irregular que exija esforços de adaptação intensos e por tempo prolongado influencia no desenvolvimento de diversas doenças, como o câncer.

“O desajuste do relógio biológico altera o ciclo de vida das células, predispondo a enfermidades”, explica o neurocientista Araújo, da UFRN. No último número da revista Chronobiology International, pesquisadores israelenses publicaram um trabalho cujos resultados vão ao encontro do que diz o cientista brasileiro. Um grupo de estudiosos da Universidade de Haifa constatou que mulheres que vivem em áreas bem iluminadas – portanto, que têm o ritmo biológico alterado pelo excesso de luz – apresentam maior risco de desenvolver câncer de mama.

De acordo com os cientistas, tudo indica que a luz interfere na produção de um hormônio importante, a melatonina. Agora, os pesquisadores querem investigar a fundo a associação desta substância com o risco elevado para o tumor. Todas essas revelações começam a desenhar novos caminhos para a organização da vida. A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, já se baseia em dados da cronobiologia para sugerir novas diretrizes no campo da saúde do trabalhador. Afinal, como se vê, ignorar o relógio biológico pode gerar problemas. Se for respeitado, é um grande aliado
Jennifer Ackerman, escritora científica, avaliou pesquisas divulgadas nos últimos anos para simular uma viagem de 24 horas pelo corpo humano. Sem tom acadêmico, ela descreve os ciclos que regem nossa variação de força, de memória e de saúde em função do tempo.

Há dados curiosos, como as constatações de que o nariz escorre mais de manhã (às 8h). “Muitos de nós nos vemos como criaturas cerebrais, movidas principalmente pelo que vai em nossas mentes. Mas, freqüentemente, nós somos movidos pelo que vai na parte inferior de nossos cérebros -pelos escondidos e intrigantes altos e baixos, crises e triunfos do nosso corpo. Nós apenas não sabemos disso. Nós temos pouca consciência dos ritmos sutis que nosso corpo experimenta na pressão arterial, no nível hormonal, no apetite. Graças a esses ritmos, há horas boas e ruins para atividades como revisar um manuscrito ou tomar decisões” segundo Ackerman. O contato com essas informações enquanto escrevia o livro fez com que ela mudasse alguns hábitos. “Estou mais atenta à importância do horário nas minhas atividades quando agendo reuniões, por exemplo, e passei a respeitar mais as necessidades do meu corpo, da prática de exercícios até a soneca à tarde”

A cronobiologia “ocupa-se da organização temporal dos seres vivos”, segundo o Dr.Luiz Menna-Barreto, professor do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos da USP (Universidade de São Paulo). A área contempla os ciclos curtos, como os dos batimentos cardíacos, e os longos, como a influência das estações do ano nas alterações de humor (a depressão é mais comum no inverno, por exemplo). Mas os ciclos mais estudados são os circadianos, referentes às mudanças que ocorrem ao longo de um dia. Esses ciclos fazem parte da herança genética e estão escritos nos chamados ‘clock genes’ (genes-relógio).

Mas os aspectos ambientais são igualmente relevantes, especialmente a alternância entre luz e escuridão, diz Edson Delattre, professor do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). É a diminuição da luminosidade no ambiente, por exemplo, que estimula a secreção da melatonina, hormônio que induz o sono. O outro principal ‘sincronizador’ do funcionamento do corpo, diz Delattre, é o convívio social, que estabelece horários para trabalho, alimentação e exercícios.
Pesquisas mostraram que, sem a variação de luminosidade e a influência social, o corpo passa por um processo curioso: ao depender só da carga genética, o ciclo de sono e de fome aumenta para 25 horas. ‘O que faz nossos ritmos se comprimirem em um período de 24 horas são as influências geofísicas e sociais’, diz Delattre.

O estresse crônico também pode alterar esse ritmo segundo o endocrinologista Dr. Claudio Kater. O mesmo, cita como exemplo o cortisol: produzido durante o sono, esse hormônio atinge seu valor máximo por volta das 6h. É uma das substâncias envolvidas no processo do despertar. Ao longo do dia, sua concentração vai caindo. O estresse crônico, porém, libera jatos de cortisol fora do horário padrão. O resultado? Obesidade, ansiedade, depressão (já que o cortisol antagoniza a serotonina) aumento da pressão, hiperglicemia, alteração do ritmo do sono, doenças cardíacas e até osteoporose.
A cronopatologia estudo as doenças e sua correlação com os ciclos. Os quadros abaixos sintetizam um pouco da cronopatologia.


Os ataques cardíacos são mais comuns de manhã, quando há uma elevação súbita da pressão arterial.
Por isso, já foram desenvolvidos remédios para hipertensão que devem ser tomados após acordar -orientação presente na bula.

As crises de asma são mais freqüentes de madrugada, quando as passagens bronquiais têm seus diâmetros reduzidos em 8% -para asmáticos, isso pode significar uma redução do fluxo de ar de 25% a 60%, o que agrava os sintomas da doença.

A oncologia é uma das áreas que mais estudam a relação entre o horário de administração de um medicamento e seus efeitos no organismo. Uma das características dos tumores é que, ao contrário das outras células do corpo, eles não seguem o ciclo circadiano.

“Nosso corpo depende de uma orquestração maravilhosa. O tumor é uma aberração desses controles, incluindo o do tempo. Normalmente, a replicação da célula é mais intensa em um horário do que em outro. Mas as tumorais crescem aleatoriamente”. O problema está em como utilizar essa informação de forma prática. Segundo Andrade, uma pesquisa divulgada em 2006 avaliou as diferenças entre a quimioterapia tradicional e a cronomodulada em pacientes com câncer de intestino. “Não houve diferença na sobrevida dos pacientes como um todo. Entretanto, quando se avaliou os subgrupos, viu-se que, nas mulheres, o efeito foi deletério. Mas, para os homens, a cronobiologia foi benéfica. A pesquisa mostrou que ainda não conseguimos verificar como a cronobiologia pode ser usada, mas temos de averiguar.Talvez o futuro seja avaliar perfis de comportamento cronobiológico para ver quem pode se beneficiar da cronoterapia”.

Privação de sono
Ackerman traz, em seu livro, exemplos dos efeitos de alterações no sono. Ela cita pesquisas da Universidade de Chicago que mostram que a privação de sono leva a falhas no processamento da glicose, altera os níveis do hormônio da fome e afeta o sistema imunológico. Em um desses estudos, foi avaliada a resposta à vacina da gripe em 25 voluntários sujeitos à restrição de sono. Dez dias após a vacinação, a resposta do sistema imune dos voluntários era muito inferior à observada em pessoas com sono normal.

Além das vantagens do sono noturno, a autora também elogia a sesta. E escreve: “Se nós morássemos na Esanha, poderíamos ir para casa para uma sesta. Mas nós não temos essa tradição civilizada, então lutamos contra o estupor”.

Algumas dicas

Coagulação: Para evitar sangramentos, é melhor se barbear às 8h, quando as plaquetas, que levam à coagulação sangüínea, são mais abundantes do que nas outras horas do dia -o que também ajuda a entender por que ataques cardíacos têm seu pico nesse horário

Fertilização: Nos homens, os níveis de testosterona atingem seu ápice às 8h, horário em que eles estão mais estimulados para a atividade sexual. Já o sêmen tem maior qualidade à tarde, com 35 milhões de vezes mais espermatozóides do que de manhã

Dor:Vá ao dentista à tarde, quando a sensibilidade à dor nos dentes é menor. Além disso, a anestesia aplicada em procedimentos odontológicos dura mais à tarde do que de manhã: o efeito da lidocaína é três vezes maior quando ela é aplicada entre as 13h e as 15h

Sonolência: Ondas de sono nos atingem a cada 1h30 ou 2h, algo ainda mais forte em pessoas vespertinas, segundo Mary Carskadon, da Brown University. Uma delas ocorre à tarde -estudos mostram que acidentes de trânsito causados por fadiga são mais comuns entre a 1h e as 4h e entre as 13h e as 16h. Um motorista tem três vezes mais chance de cair no sono às 16h do que às 7h

Álcool: Beba aquela cerveja ou vinho entre as 17h e as 18h, quando o fígado é mais eficiente na desintoxicação do organismo. Em um estudo feito com 20 homens, aqueles que beberam vodca às 9h tiveram um desempenho pior em testes de velocidade de reação e funcionamento psicológico do que os que receberam a mesma dose às 18h

Calor: A temperatura do corpo atinge seu ápice no fim da tarde. Pesquisadores de Harvard e da Universidade de Pittsburgh relacionaram a elevação da temperatura a uma maior capacidade de memória, atenção visual, destreza e velocidade de reação

Exercícios: Exercite-se no fim da tarde, quando a percepção da exaustão é menor, as juntas estão mais flexíveis e as vias aéreas, mais abertas. O corpo esquenta e, a cada 1oC de elevação, há uma aumento de dez batidas cardíacas por minuto. Além disso, é possível ter um ganho de massa muscular 20% maior do que de manhã. A manhã é mais propícia a exercícios que exijam equilíbrio e acuidade

Concentração: Pesquisas de Lynn Hasher, da Universidade de Toronto, e Cynthia May, do College of Charleston, sugerem que jovens adultos se distraem mais facilmente de manhã -quando são mais propensos a soluções criativas. À tarde, ficam mais concentrados e ignoram dados irrelevantes. Já adultos mais velhos são concentrados de manhã e vulneráveis à distração à tarde
Alergias: Segundo Michael Smolensky, cronobiologista da Universidade do Texas, a resposta da pele a alérgenos como poeira e pólen é mais acentuada à noite

Memória: Ainda segundo Hasher, a memória dos idosos diminui ao longo do dia. De manhã, eles esquecem, em média, cinco fatos. À tarde, cerca de 14. Jovens adultos tendem a ser mais esquecidos de manhã

Câncer: A oncologia é uma das áreas com mais estudos em busca da relação entre o horário e a aplicação de medicamentos. Enquanto as células normais seguem um ciclo previsível de divisão celular, as dos tumores se multiplicam aleatoriamente

Horário de verão e cronologia
O horário de verão começou domingo (16/10) e os relógios foram adiantados em uma hora. Se para algumas pessoas isso significa apenas mais uma hora de dia claro, para outras é sinônimo de sonolência e mau humor. De acordo com Lúcia Rotenberg, pesquisadora do Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), isso acontece porque a mudança não afeta somente os relógios que temos à nossa volta, mas altera também nosso relógio biológico.
Com base na cronobiologia, a pesquisadora explica como o corpo humano se ajusta ao horário de verão e altera nosso relógio biológico – e por que algumas pessoas têm mais dificuldade para a adaptação.

O que é o relógio biológico e qual a sua função?
Nosso corpo apresenta diversos ritmos biológicos, ou seja, fenômenos que se expressam de maneira periódica, indo desde a secreção de um hormônio até um comportamento, como o sono e a vigília. Estes ritmos são controlados por uma estrutura do sistema nervoso, chamado núcleo supraquiasmático, localizada no hipotálamo anterior, uma região do cérebro que atua como principal centro integrador das atividades dos órgãos viscerais. Esta estrutura é denominada “relógio biológico”, uma vez que é responsável pela temporização das funções biológicas.

Como a mudança para o horário de verão pode interferir em nosso relógio biológico?
Características herdadas geneticamente e informações cíclicas do ambiente interferem no nosso relógio biológico que, em condições normais, está adaptado ao ambiente externo. No entanto, quando o ambiente se modifica – como no horário de verão –, o organismo também precisa se ajustar. Desta forma, os horários que regulam nossas vidas, como parte do ambiente social onde estamos inseridos, podem interferir em nosso relógio biológico. Este fenômeno é o mesmo que ocorre quando cruzamos fusos horários em uma viagem, por exemplo.

Por que a mudança para o horário de verão afeta algumas pessoas e outras não?
A Cronobiologia, ciência que estuda os ritmos e os fenômenos físicos e bioquímicos periódicos que ocorrem nos seres vivos, dá a resposta. A forma como cada indivíduo vivencia as alterações de horário depende da característica genética de cada um, pois as pessoas apresentam cronotipos diferentes. Algumas pessoas são do tipo matutino, com maior predisposição genética para realizar suas tarefas bem cedo. Essas pessoas possuem o relógio biológico adiantado e, por isso, tendem a dormir cedo e levantar cedo. Outras são vespertinas, ou seja, tendem a dormir tarde e acordam mais tarde. A tendência matutina ou vespertina também se expressa em outros ritmos biológicos, como o ciclo de temperatura corporal. O pico de temperatura do corpo, por exemplo, é atingido mais cedo pelos matutinos do que nos vespertinos.

Quem tende a sofrer mais com a mudança de horário, os matutinos ou os vespertino?
As pessoas matutinas costumam sofrer mais com a alteração do horário. Há indícios de que pessoas que tendem a dormir pouco (chamadas de pequenos dormidores) também apresentariam maior dificuldade em relação à implantação do horário de verão.

Quais são as principais mudanças comportamentais que essas pessoas sofrem e quanto tempo em média os desconfortos podem ser sentidos?
Enquanto o organismo não se ajusta completamente ao novo horário, as pessoas se sentem mais irritadas e mal humoradas, com sensação de cansaço e sono durante o dia. No entanto, esse desconforto fica restrito aos primeiros dias e a queixa costuma ir embora em até uma semana depois da implantação do novo horário, tempo costuma ser o suficiente para a adaptação entre a maioria das pessoas.

Horário de verão e infarto
Segundo o estudo, publicado no New England Journal of Medicine, os casos de infarto do miocárdio aumentam cerca de 5% na semana seguinte ao ajuste dos relógios – principalmente nos três primeiros dias. “A hora de sono perdida e os conseqüentes distúrbios de sono que isto provoca são as explicações mais prováveis”, disse Imre Janszky, um dos pesquisadores envolvidos no estudo.
“Talvez seja melhor adotar o horário de verão durante todo o ano, em vez de ajustar os relógios duas vezes por ano. Este é um debate que está ocorrendo atualmente”, disse o Dr. Rickard Ljung.
Os cientistas também observaram que o reajuste dos relógios no fim do horário de verão (que na Suécia ocorre sempre no último domingo do mês de outubro), que é sempre seguido por um dia de uma hora extra de sono, representa uma leve redução do risco de infartos na segunda-feira seguinte. A redução no índice de ataques cardíacos durante toda a semana que se inicia, no entanto, é significativamente menor do que o aumento registrado no início do horário de verão. Estudos anteriores demonstram que a ocorrência de infartos é mais comum às segundas-feiras. Segundo os cientistas do Instituto Karolinska, o ajuste dos relógios no horário de verão oferece outra explicação para este fato.

“Sempre se pensou que a causa da maior incidência de infartos às segundas-feiras fosse principalmente o estresse relacionado ao início de uma nova semana de trabalho. Mas, talvez outro fator seja a alteração dos padrões de sono ocorrida durante o fim de semana”, observou o Dr. Janszky.
Os cientistas explicam que os distúrbios do sono produzem efeitos negativos no organismo humano e alertam que níveis elevados de estresse podem desencadear um ataque cardíaco nas pessoas que se situam em grupos de risco. “Pessoas mais propensas a sofrer um infarto devem viver de maneira saudável, e isto inclui ciclos regulares de sono durante toda a semana”, diz Rickard Ljung. “Como um cuidado extra, podem talvez também relaxar mais nas manhãs de segunda-feira”, acrescentou ele.
Os cientistas suecos esperam que o estudo possa aumentar a compreensão sobre os impactos que as alterações dos ritmos diários do organismo podem ter sobre a saúde humana.
“Cerca de 1,5 bilhão de pessoas em todo o mundo são expostas todos os anos aos ajustes dos relógios, mas é difícil generalizar a ocorrência de infartos do miocárdio que isto pode provocar”, observou Ljung.

Bibliografia:
http://2.bp.blogspot.com/-aWnJctgmgpI/TkGQG7VK5CI/AAAAAAAAArY/dxMocS_G26Y/s1600/assinaturafred.jpg
Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado no blogue Ecologia Médica
EcoDebate, 17/04/2012

Fatos e Números sobre Transporte e Desenvolvimento Sustentável

Sustentabilidade Social do setor de transportes

 Mais de um bilhão de cidadãos urbanos do mundo em desenvolvimento não tem acesso a calçadas segurar ou ciclovias, embora estes modos de transporte sejam usados na maioria dos deslocamentos. Por exemplo, em Delhi, Índia, 95% dos deslocamentos dos pobres urbanos são feitos a pé, de bicicleta ou por diferentes formas de transporte público.

 As mortes no trânsito são hoje a nona principal causa de morte no mundo e espera-se que aumentem em 80% até 2020 e que sejam a quinta causa de morte – mais do que mortes por AIDS, câncer de pulmão, diabete ou guerras em 2030.

 A cada ano, 1,2 milhão de pessoas são mortas e 50 milhões feridas nas estradas do mundo – mais de 90% ocorrem nos países em desenvolvimento, embora estes tenham menos da metade das estradas do mundo. Metade dos mortos são pedestres, ciclistas e outros “usuários vulneráveis das vias”.

 Acidentes de trânsito são a principal causa de morte de pessoas entre 15-29 anos, afetando os membros economicamente mais produtivos das nossas comunidades.

 Apenas 8% dos US$409 bilhões gastos no mundo em 2010 para subsidiar o consumo de combustíveis fósseis foram dedicados para os 20% mais pobres.

Sustentabilidade Ambiental do setor de transportes

 A poluição do ar urbano causa 1,3 milhão de mortes em todo o mundo atualmente, segundo a OMS. Globalmente, 1.100 cidades têm concentrações médias de partículas acima das recomendadas pelas Diretrizes de Qualidade do Ar da OMS. A contribuição do transporte para a poluição urbana pode chegar a 80%.

 O transporte é responsável por um m quarto de todas as emissões de gases de efeito estufa relacionadas à energia, que hoje são a fonte destes gases que mais cresce no mundo.

 O transporte é crítico para a mudança climática: segundo o IPCC, os gases do efeito estufa devem ser reduzidos em 50-85% até 2050 (em relação ao ano 2000) como paetê do cenário de 2º C, mas as tendências atuais mostram que os gases derivados do transporte vão aumentar em 80-150% até 2050, sendo os carros particulares nos países em desenvolvimento responsáveis pela maior parte deste aumento nas emiss~eos.

 Sustentabilidade Econômica do setor de transportes

 Globalmente, os congestionamentos causam bilhões de dólares de prejuízo por falta de produtividade e gasto de combustível. Por exemplo, o congestionamento nas cidades dos EUA foi responsável, em 2010, por prejuízos estimados em US$101 bilhões.

 Metade dos caminhões de carga pesada na China trafega vazios, desperdiçando dinheiro e combustível por deficiências em logística e gestão.

 O tempo médio de transporte de ida e volta ao trabalho em Lima, Peru, é de 4 horas, o que leva a uma perda de produtividade de aproximadamente US$6,2 bilhões ou ao redor de 10% do PIB, anualmente.

 São perdidos 2-3% do PIB nos países mais ricos e até 5% do PIB nos países mais pobres em acidentes de veículos.

 Os subsídios aos combustíveis fósseis, que chegam a US$ 400 bilhões por ano, aumentam a exposição das economias nacionais à volatilidade dos preços do petróleo e reduzem a segurança energética nacional.

 O custo econômico combinado da poluição do ar, acidentes viários e congestionamento em muitas cidades dos países em desenvolvimento varia entre 5-10% do PIB, segundo um relatório recente da PNUMA.

Leilão de Créditos de Carbono

Comunicado

1. A Prefeitura do Município de São Paulo vem comunicar a todos os interessados que realizará no dia 12/06/2012, às 10h30 no horário de Brasília (13h30 no Horário Coordenado Universal - UCT), por intermédio da BM&F BOVESPA S.A. - Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros, leilão para alienação, no mercado à vista, de 530.000 toneladas de Reduções Certificadas de Emissão - RCE (Créditos de Carbono), de propriedade da Prefeitura Municipal de São Paulo, provenientes do Projeto Bandeirantes de Gás de Aterro e Geração de Energia, registrado perante o Conselho Executivo do MDL sob o nº 0164.

2. O procedimento será regido pelo Edital de Leilão para alienação das Reduções Certificadas de Emissão - RCE nº 01/2012, disponibilizado nos links abaixo e no site www.bmf.com.br/leilaocarbono.

Cacique troca compromisso de venda de crédito de carbono por caminhonetes

Fotografia divulgada no endereço eletrônico da multinacional de comércio de carbono comprova a negociação; veículos foram uma espécie de 'adiantamento'
09 de abril de 2012 | 23h 00
Marta Salomon, BRASÍLIA
O cacique cinta-larga Marcelo posa com o rosto pintado ao receber as chaves de duas caminhonetes -como seus antepassados recebiam miçangas e espelhinhos - em troca da assinatura de um termo de compromisso com a Viridor Carbon Services para um projeto de desmatamento evitado.
Marcelo Cinta Larga recebe do representante da empresa Viridor as chaves de uma das caminhonetes - Viridor/Divulgação
Viridor/Divulgação
Marcelo Cinta Larga recebe do representante da empresa Viridor as chaves de uma das caminhonetes


A moeda de troca está registrada em fotografia divulgada no endereço eletrônico da multinacional de comércio de carbono, movido pelo combate ao aquecimento global. As caminhonetes foram uma espécie de “adiantamento” pelo negócio, cujo valor ainda não foi definido.

A etnia cinta-larga ocupa quatro terras indígenas em Rondônia e Mato Grosso. Uma delas, a reserva Roosevelt, é conhecida como uma das maiores minas de diamante do mundo. Os territórios somam 27 mil quilômetros quadrados, ou 18 vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Para a Viridor, trata-se do “maior” projeto de desenvolvimento evitado - Redd, no jargão nos debates das Nações Unidas sobre combate às emissões de carbono - em comunidades indígenas.

Remuneração. No mês passado, a Viridor Carbon Services lançou a busca de parceiros para financiar o projeto com os cintas-largas, no qual estabeleceu uma “comissão” de 19,5% da remuneração total dos créditos de carbono em qualquer tipo de negociação futura.

Para a Fundação Nacional do Índio (Funai) trata-se de mais um projeto que impede indígenas de desenvolver suas atividades tradicionais, como a plantação de roças e corte de árvores sem prévia autorização da empresa, como o contrato revelado pelo Estado em março entre a empresa Celestial Green e os índios mundurucus, do Pará.

Por US$ 120, os mundurucus venderam direitos de acesso ao território indígena e sobre benefícios da biodiversidade. A Funai questiona a legalidade do contrato e resiste a endossar o negócio entre os cintas-largas e a Viridor.

“Desde que a Funai soube do contrato, várias providências foram tomadas, dentre elas a notificação à empresa responsável e um comunicado oficial à Associação Cinta Larga esclarecendo a ilegalidade do contrato”, informou a fundação por meio de uma nota oficial.

“Eles (a Viridor) investiram as caminhonetes para a gente fazer a consulta (aos índios) e o diagnóstico. É um investimento de risco para eles”, disse Marcelo Cinta Larga por telefone.

O cacique diz que assinou apenas um primeiro contrato, em 2010, e a empresa espera o diagnóstico da área sobre uma parcela do território indígena, de 10 mil quilômetros quadrados, para levar adiante o negócio de crédito de carbono, contra o qual pesam também algumas questões “burocráticas”.
O cacique disse que a vigência do contrato, outro ponto polêmico da negociação, teria sido reduzida pela metade, a 25 anos.

“Eles não chegaram a pressionar, nosso território é polêmico por causa do garimpo de diamante”, contou. “A gente sabe que é uma questão nova, então resolvemos não fazer o projeto nos 100% do território cinta-larga”, completou, divergindo de informação lançada no endereço eletrônico da Viridor sobre a abrangência espacial do contrato. Questionada, a empresa não respondeu ao Estado.

Diamantes. O diagnóstico a que se refere o cacique cinta-larga prevê o levantamento da madeira disponível para manejo florestal no território indígena, assim como a presença de plantas medicinais no território.

A partir disso, será estabelecido o valor a ser pago à etnia pela comercialização dos créditos de carbono. “O potencial mineral não entra no levantamento”, insistiu o engenheiro florestal Tiago Lovo, contratado para a tarefa, esquivando-se de tratar da polêmica extração de diamantes na região.

De mais de 30 etnias que negociam a venda de créditos de carbono por desmatamento evitado, a Funai só chancela, por ora, a negociação dos índios suruí, da terra indígena Sete de Setembro, na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, conforme o Estado informou no mês passado.

Propriedade. Pela lei, os índios não são donos das terras, cuja propriedade cabe à União, mas têm amplos direitos sobre a posse e o usufruto de suas riquezas.

Quatro estados brasileiros concentram 82% da produção de biodiesel no país

Em 10 de abril de 2012 as 02h25
Os estados do Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Sul e São Paulo produzem juntos 82% do biocombustível do país, somando 5,86 bilhões de litros entre 2008 e 2011, de acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo).
Fonte: Noticias Agricolas

Crédito: Divulgação

Entre as principais fontes do biodiesel, a soja, supera 40 milhões de toneladas. O problema, porém, tem sido os custos na hora de transformar a oleaginosa em biodiesel.

O governo, por sua vez, diz que reduz as alíquotas de tributos (Cide, IPI, Pis/Pasep, Cofins), além de disponibilizar crédito com menor custo financeiro aos produtores.

Mesmo assim, o cenário não tem estimulado o produtor a investir nesta nova vertente econômica. Tanto a agricultura empresarial, quanto a agricultura familiar, enfrentam grandes desafios. Prova disso é que apenas 1% de toda matéria-prima usada para a fabricação provem da produção familiar.

Dilma Rousseff's visit to America

Our friends in the South 
Apr 7th 2012, 14:52 by H.J. | SAO PAULO 


BRAZIL has probably never mattered more to America than it does now. America has probably never mattered less to Brazil. Not that relations are bad between the two countries—far from it; they are increasingly cordial and productive. But America has finally, belatedly, woken up to the fact there is a vast, stable country to its south as well as its north; a country, moreover, with a fast-growing and voraciously consuming middle class that seems to offer salvation to American businesses struggling in a moribund domestic market. Brazil, meanwhile, neither needs loans from American-dominated global financial institutions, nor is it otherwise beholden to the country. The United States is no longer even its biggest trading partner. China took that spot in 2009.

A more balanced relationship may be a more fruitful one too. Since Barack Obama’s visit to Rio de Janeiro and Brasília last year, America has delighted Brazil by removing import tariffs on its ethanol and piloting a scheme to make it easier for Brazilians to get visas—two long-standing bugbears. Brazil’s president, Dilma Rousseff, makes a return visit to Washington in the coming week, and there is much to talk about still. What Brazil wants from America above all is endorsement for a seat on the UN Security Council. Britain has already backed its bid, and during his visit to Brazil Mr Obama made baby steps in the same direction, acknowledging Brazil’s “aspiration”, though stopping short of full support.

That support is unlikely to be forthcoming, at least in the near future. Though Brazil is hardly geopolitically troublesome, its worldview—a hard-to-pin-down blend of pragmatism, relativism and a seemingly indiscriminate willingness to be friends with everyone—is unappealing to the United States. The previous president, Luiz Inácio Lula da Silva, was flexible enough to be “my man” to Barack Obama and “our brother” to Fidel Castro. In 2010 Lula stuck his neck out trying to co-broker, with Turkey, an anti-proliferation agreement with Iran’s president, Mahmoud Ahmadinejad. That infuriated countries far more important to Brazil’s strategic interests, and left Lula looking silly when Mr Ahmedinejad made no concessions in return. Ms Rousseff has rowed back from that friendship, but it reinforced an impression that Brazil is unpredictable and naive.

Mr Obama will surely want to know, too, what exactly Brazil means by its big new foreign-policy idea. That is to complement the UN’s justification for intervention in another country’s affairs under the rubric “Responsibility to Protect” with “Responsibility while Protecting” after it has gone in. Since Brazil tends not to support going in in the first place, when would it want to see this new responsibility kick in? Even some experienced and sympathetic diplomatic observers in Brasília say they have no idea what concrete difference this would make on the ground.

For America, trade, not diplomacy, will surely be top of the agenda. Judging from the number of American investors turning up in São Paulo every week, Mr Obama must hear about the glowing opportunities Brazil presents in just about every time he meets businessfolk. But with the most overvalued currency of any big economy, Brazil’s own industrialists are prodding the government to keep imports out. It has hiked already-high tariffs on many imports even further, and is taxing foreign-currency inflows increasingly heavily to keep out speculative inflows. Brazil has made it clear it only wants long-term investment, and is only interested in foreign businesses that are willing to make whatever it is they want to sell in Brazil.

If Mr Obama tries to argue for freer trade, he will get short shrift. Both Ms Rousseff and her finance minister, Guido Mantega, regard the floods of cheap money being pumped out by the Fed and the European Central Bank as a far worse trade distortion than Brazilian barriers, which they term “safeguards” rather than “protectionism”. Brazil’s drift towards protectionism is in fact becoming a problem for its own economy. But that is an argument for another day. Mr Obama will surely be aware there is still a lot of mileage to be got out of helping American companies to set up shop in Brazil.

Carvão Vegetal Sustentavel

Estudo aponta que acesso a financiamentos para práticas sustentáveis no campo é irrisório

Publicado em abril 6, 2012 por
 
Apesar do volume de empréstimos desembolsados para práticas sustentáveis no campo ter dobrado na safra agrícola 2011/2012, os níveis de acesso às chamadas linhas verdes ainda são irrisórios. A conclusão é do estudo Financiamento Agroambiental, lançado pelo Instituto Socioambiental (ISA), que aponta gargalos na operacionalização desse incentivo econômico, a partir de entrevistas com 87 produtores e três agentes financeiros, desde 2010.

De acordo com a engenheira agrônoma Léa Vaz Cardoso, assessora do ISA, o financiamento impõe desafios tecnológicos ao produtor brasileiro. O carro-chefe dessas linhas de crédito é o Programa para a Redução de Emissão de Gases de Efeito Estufa na Agricultura (ABC), lançado em 2010, que propõe modelos mistos de produção.
“As linhas financiam tecnologias um pouco mais complexas que as tradicionais, são sistemas diversificados. Quando você compara uma lavoura de soja em monocultivo, o pacote tecnológico é completamente conhecido. Quando coloca um sistema integrado como lavoura-pecuária-floresta, você passa a ter três produtos numa mesma área, com diferentes prazos e ciclos”, disse.

Um outro ponto, segundo a agrônoma, é que os agricultores não conhecem essas linhas diferenciadas. “O produtor até pode ter intenção de, por exemplo, recuperar Áreas de Proteção Permanente (APP), mas ainda não faz por questões financeiras. E ainda tem a indefinição de decisões sobre o novo Código Florestal e a burocracia ambiental, que assustam esse produtor”, disse a assessora.
A solução, na opinião de Léa Vaz Cardoso, está em investimentos em capacitação e na divulgação e promoção de tecnologias. A agrônoma ainda defende que os benefícios “verdes” sejam ampliados dentro de linhas de crédito tradicionais, incluindo uma espécie de “reconhecimento e premiação” aos agricultores que conservam ou recuperam APPs, por exemplo.“O agricultor incorre em um custo ao preservar essas áreas.

A gente está com uma legislação que está preste a mudar, mas o comando-controle sozinho não é suficiente. O instrumento econômico é complementar à legislação. E não há mal algum, na nossa visão, ajudar o agente econômico a cumprir a lei”, disse Léa Cardoso.
Ainda faltam três meses para o fim do ano agrícola (2011/2012), mas o Banco do Brasil já contabiliza R$ 430 milhões desembolsados. Em toda a safra anterior, o banco desembolsou pouco mais de R$ 230 milhões. A agrônoma do ISA considera que o incremento é resultado de uma ação maior do agente financeiro e do governo, mas alerta que o valor “ainda é marginal em relação aos outros créditos. Estamos falando em quase R$ 500 milhões para linhas sustentáveis, sendo que já foram emprestados mais de R$ 70 bilhões para outras práticas, ou seja, menos de 1% na conta”.

O diretor de Agronegócios do Banco do Brasil, Clênio Severio Teribele, não acredita na insegurança dos produtores brasileiros. “Basta verificar o crescimento da produtividade no Brasil, que a gente atribui a competência dos nossos agropecuaristas”, disse. Mas o executivo do banco admite o desconhecimento do crédito e a falta de capacitação para a tomada do financiamento.
“O que a gente percebe é que o mercado ainda não conhece essas linhas. Temos dificuldade na obtenção de bons projetos. A assistência técnica não chega a todos os locais e precisamos que chegue”, disse Teribele, acresentando que o banco está investindo em uma rede de parcerias com cooperativas, agrônomos e técnicos, para o treinamento para elaboração de projetos. “Temos todos os motivos para acreditar no bom desempenho dessas linhas”, disse.

Reportagem de Carolina Gonçalves, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 09/04/2012

Os números do desmatamento apresentados pelo MMA

Publicado em abril 6, 2012 por
Situação atípica no Mato Grosso está sendo investigada. Ibama e outros órgãos federais estão em campo desde o início do ano. Em três meses, foram embargados 7 mil hectares e aplicados R$ 49,5 milhões em multas.
Mariana Branco

O desmatamento na Amazônia Legal, identificado pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), caiu 48,2% em março deste ano frente ao mesmo mês de 2011, de 116 para 60 quilômetros quadrados. Na comparação do período de agosto a março 2010/2011 com agosto a março de 2011/2012, o total da área desmatada ficou estável. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (05/04), em Brasília, pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

Os números apontaram um pico de desmatamento no estado de Mato Grosso em fevereiro. De acordo com Izabella Teixeira, isso aconteceu porque a região ficou encoberta por nuvens de outubro de 2011 a janeiro de 2012. Com a redução da cobertura de nuvens em fevereiro, foi possível detectar os desmatamentos acumulados no período, que somaram 307 quilômetros quadrados. “Estamos pedindo à Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso para verificar legalidade desses desmatamentos”, afirmou a ministra.

MIGRAÇÃO
O Ministério do Meio Ambiente (MMA) também verificará os motivos da elevação do desmatamento em Roraima. Segundo Izabella Teixeira, o aumento do desmatamento de 12 para 56 quilômetros quadrados no período de agosto/2011 a março de 2012 frente a igual intervalo em 2010/2011 pode estar relacionado à migração de atividade madeireira ou outras atividades econômicas para o Sul do Estado. Nos demais estados da Amazônia Legal, ainda não é possível avaliar o desmatamento em virtude da grande cobertura de nuvens.

Os dados do Deter são fornecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para fins de fiscalização. Esses dados são disponibilizados mensalmente no site do INPE. A ministra destacou que agentes do Ibama em conjunto com Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Instituto Chico Mendes, estão em campo desde 1º de janeiro intensificando a fiscalização. “Estamos mudando a estratégia, sem esperar virem dados do Deter para agir”, disse. Do início de 2012 até 16 de março, o Ibama embargou 7 mil hectares e aplicou R$ 49,5 milhões em multas por desmatamento ilegal.
Confira os dados apresentados durante a coletiva.
EcoDebate, 06/04/2012

Aumenta a temperatura, e não só nos termômetros, artigo de Washington Novaes

Publicado em abril 9, 2012 por

[O Estado de S.Paulo] Há meia dúzia de anos, quando o autor destas linhas preparava para a TV Cultura documentário sobre a biodiversidade no Município de São Paulo, especialistas em clima na Universidade de São Paulo (USP) e na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente chamaram a atenção para a diferença de temperatura observável simultaneamente entre as regiões mais altas (Serra do Mar, Cantareira) e as áreas mais industrializadas e com trânsito mais intenso (Mooca, Brás), que podia chegar a 6 graus Celsius. Isso levava a que se formassem ilhas de calor nas áreas mais quentes e para ali fossem atraídas as chuvas mais fortes (que seriam mais benéficas nas regiões de nascentes); também ocorria uma concentração das chuvas nos dias de mais movimento, durante a semana (quando eram mais problemáticas), e menos intensas nos fins de semana.
Passados seis anos, este jornal publicou (26/3) pesquisa da Unesp, do Laboratório Goddard (Nasa) e outras instituições mostrando que hoje essa diferença de temperatura entre áreas como Itaim Paulista e Penha, por exemplo, comparadas com áreas mais arborizadas, já pode chegar a 14 graus Celsius – por causa da escassez de árvores (que influem na temperatura e na umidade) e excesso de área construída (aumentando as ilhas de calor).
Não é problema só nosso. Cientistas reunidos em Londres mostraram (Reuters, 28/3) que, em 20 anos, a expansão urbana que vai ocorrer no mundo ocupará uma área equivalente à da França, Alemanha e Espanha juntas. Será 1,5 milhão de quilômetros quadrados (mil municípios como São Paulo). Para essa expansão contribui decisivamente o acelerado processo de expansão urbana no mundo, que a cada semana absorve a maior parte das pessoas que nascem e das que emigram. Por isso a população urbana de hoje (3,5 bilhões) atingirá 6,3 bilhões em 2050. E as cidades emitirão mais do que os atuais 70% do carbono lançado na atmosfera. Não surpreende, assim, que o ex-secretário-geral da Convenção do Clima Yvo de Boer diga que conter o aumento da temperatura em 2 graus Celsius até 2050 já não é possível – ainda mais que os países industrializados postergaram para 2015 um acordo sobre emissões que só entrará em vigor em 2020.
Esse panorama leva a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a alertar sobre a possibilidade de um “colapso ambiental”, já que em quatro décadas virão de combustíveis fósseis 85% do aumento no consumo de energia (que será de 80%), transformando a poluição do ar no maior problema mundial de saúde pública. E outras instituições a advertir (O Globo, 23/3) que os impactos do clima nos oceanos atingirão US$ 2 trilhões até o fim do século. O consumo de recursos extraídos da superfície terrestre, que já se multiplicou por oito durante o século 20 e chega a 60 bilhões de toneladas anuais (Ricardo Abramovay em Eco 21, fevereiro), é insustentável. Como é insustentável o uso anual de 9 trilhões de metros cúbicos de água, segundo a Universidade de Twente, na Holanda (Estado, 16/3).
Os dados sobre a expansão urbana e o aumento da temperatura na capital paulista, mencionados no início deste texto, evidenciam, mais uma vez, a urgência de macropolíticas para as metrópoles brasileiras, que se enganam a si mesmas anunciando ações pontuais que não alteram o cerne dos problema; não enfrentam decididamente a questão apontada pelo professor Vinicius M. Netto, da Universidade Federal Fluminense, em entrevista ao caderno Aliás (5/12/2011) deste jornal, já comentada neste espaço: a exaustão das estruturas e infraestruturas urbanas, com todos os riscos que implica.
É penoso insistir e insistir nessa temática ao longo dos 15 anos que este escriba ocupa espaço neste jornal – e já desde o início da década de 1980 em outros espaços. Mas que se vai fazer diante do agravamento do quadro, ao ouvir dos respeitados cientistas ganhadores do Prêmio Nobel Alternativo de Meio Ambiente que “o atual sistema está falido”? Ouvir da OCDE que os atuais formatos são insustentáveis? E, apesar disso, testemunhar as administrações públicas anunciarem, em termos de triunfo, de conquista, que a frota de 37 milhões de veículos que se amontoam nas ruas das nossas cidades chegará a 70 milhões em 2020. Não basta o estudo da Escola Politécnica da USP advertindo que 25% da área construída na cidade de São Paulo já se destina a garagens? É preciso relembrar a análise da Associação Nacional de Transportes Públicos segundo a qual essas garagens, somadas ao espaço de ruas, praças, etc., chegam a mais de 50% do espaço urbano? Para equipamentos que, em média, permanecem ociosos mais de 80% do tempo? Ou recordar outro estudo, mencionado aqui, segundo o qual as duas horas médias perdidas a cada dia nos deslocamentos por 5 milhões de pessoas na cidade de São Paulo, multiplicadas pelo valor médio da hora de trabalho, gerariam – se fosse possível a conversão – uma soma superior a R$ 30 bilhões anuais? Suficiente para, em uma década, dotar toda a cidade de linhas de metrô?
Muitas vezes foram mencionadas aqui soluções adotadas em outras partes do mundo, sem necessidade de radicalismos – criação de pedágios urbanos em áreas de maior trânsito e de espaços exclusivos para o transporte coletivo motorizado (dobrando sua velocidade, como em Londres), necessidade de tirar de circulação um veículo antigo para licenciar um novo. Muitos caminhos já presentes em cidades europeias e asiáticas, de dimensões e com problemas menores que os paulistanos.
Aproxima-se a hora das eleições municipais. O tema central para elas não pode ser outro senão os megaproblemas municipais e da região metropolitana. Não se pode continua no ramerrão que a nada conduz fora do atendimento da pauta imposta por executores de grandes obras, financiadores de campanhas eleitorais. Não são eles que enfrentarão os diagnósticos assustadores que vêm de toda parte.
Washington Novaes, jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
EcoDebate, 09/04/2012

CO2 pôs fim à Era do Gelo, dizem cientistas em resposta aos céticos do clima

Publicado em abril 5, 2012 por
O dióxido de carbono (CO2), gás de efeito estufa apontado como o maior responsável pelo aquecimento global, foi o principal fator que pôs fim à última Era do Gelo, afirmam cientistas nesta quarta-feira em um estudo [Global warming preceded by increasing carbon dioxide concentrations during the last deglaciation] que acaba com um argumento lapidar usado pelos céticos do clima. Matéria da AFP.
 
Entre 10.000 e 20.000 anos atrás, a Terra começou a emergir de 250 mil anos de uma profunda glaciação, quando a cobertura de gelo terrestre começou a recuar e temperaturas mais quentes ajudaram o Homem a se espalhar e conquistar a Terra.
O que provocou o fim desta era, conhecida como Pleistosceno, sempre foi discutido.
Até agora, as principais evidências eram testemunhos de gelo coletados na Antártica, cujas bolhas de ar são como uma pequena cápsula do tempo do nosso passado climático.

Vestígios de CO2 – o principal gás causador de efeito estufa, que mantém o calor do sol preso próximo à superfície terrestre – indicam que as concentrações de carbono na atmosfera subiram depois que as temperaturas se elevaram e não antes disto.
O período de tempo em que isto ocorreu tem sido usado pelos céticos do clima como uma prova de que as emissões de carbono produzidas pelo homem ou não são responsáveis pelo aquecimento global ou pelo menos não fazem tão mal quanto defende a principal corrente da comunidade científica.
Segundo estes dissidentes, mudanças naturais na órbita da Terra, que aproximaram o nosso planeta do Sol, seriam a causa do aquecimento global.

Mas segundo um novo estudo, uma imagem muito mais precisa do fenômeno demonstra que a mudança orbital apenas deu início às coisas. Segundo a pesquisa, o responsável pelo aquecimento climático de fato é o CO2.
“As mudanças orbitais foram o gatilho, mas elas não vão muito longe”, explicou o cientista Jeremy Shakun, da Universidade de Harvard.
“Nosso estudo demonstra que o CO2 foi um fator muito mais decisivo e realmente impeliu o aquecimento global na última deglaciação”, acrescentou.

O estudo, publicado na revista científica britânica Nature, foi feito com base em 80 testemunhos de gelo e amostras sedimentares coletadas na Groenlândia, em fundos de lagos e leitos marinhos em cada continente.
“Reunir todos estes registros em uma reconstrução das temperaturas globais mostra uma bela correlação com o aumento da concentração de CO2 e o final da Era Glacial”, afirmou Shakun.
O aumento das concentrações de dióxido de carbono “atualmente precede a variação da temperatura global, o que seria de se esperar se o CO2 está causando o aquecimento”.

Os cientistas teorizam que a variação orbital intensificou a incidência da luz solar que aqueceu o hemisfério norte, fazendo com que parte de sua cobertura de gelo derretesse, liberando gigatoneladas de água doce gelada no Oceano Atlântico.
A torrente teve um efeito retardatário sobre a chamada “esteira transportadora” de correntes, na qual a água quente viaja para o norte na superfície do Atlântico antes de se resfriar, descer às profundezas, e voltar ao sul.

Quando esta esteira reduziu sua velocidade, a água quente começou a subir no Atlântico sul, onde rapidamente começou a aquecer a Antártica e o Oceano Austral.
Segundo a hipótese destes cientistas, esquentar o sul, por sua vez, alterou o vento e derreteu o gelo marinho, liberando parte da grande quantidade de CO2 que tinha sido absorvida pelo oceano e armazenado em suas profundezas.
Hoje, o dióxido de carbono – emitido pela queima de carvão, petróleo e gás – está novamente na berlinda.

Durante encontro celebrado na semana passada em Londres, 20 ganhadores do prestigioso Blue Planet Prize, um dos mais respeitados prêmios concedidos por iniciativas sustentáveis, afirmaram que as emissões atuais de gases causadores de efeito estufa, como o CO2, são tão elevadas que há apenas uma chance “50 a 50″ de limitarmos a elevação da temperatura no planeta a 2ºC, meta estabelecida pela ONU.
Haveria “riscos sérios” de uma elevação de 5ºC, temperatura vista pela última vez no planeta 30 milhões de anos atrás, afirmaram.

“O CO2 teve grande responsabilidade em tirar o mundo da última Era do Gelo e levou cerca de 10.000 anos para fazê-lo”, afirmou Shakun.
“Agora, os níveis de CO2 estão aumentando de novo (…) e há sinais claros de que o planeta está começando a responder”, acrescentou.
Global warming preceded by increasing carbon dioxide concentrations during the last deglaciation
Nature 484, 49–54 (05 April 2012) doi:10.1038/nature10915

Matéria da AFP, no Yahoo Notícias.
EcoDebate, 05/04/2012

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