Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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'É preciso manter otimismo', diz criador do conceito de biodiversidade /// Estadão.com.br

Em palestra em São Paulo, Thomas Lovejoy apresentou estudos sobre declínio da biodiversidade do mundo
22 de maio de 2010
16h 16

 Fernanda Fava - Especial para o Planeta

No Dia Internacional da Biodiversidade, em palestra no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo, a mensagem que o ambientalista americano Thomas Lovejoy, diretor do Instituto John Henz e consultor do Banco Mundial para sustentabilidade, tinha para passar à plateia não era muito animadora: os recentes estudos mostram um declínio da biodiversidade do mundo, com mais espécies ameaçadas e mais possíveis pontos críticos. Mas Lovejoy acredita que é preciso manter o otimismo. "Precisamos encarar esses resultados não com pessimismo, mas como oportunidades ótimas para melhorar, estudar ainda mais a biodiversidade, criar soluções para a saúde e para a economia, e encontrar uma forma de explorar a biodiversidade de forma sustentável", afirma. O pesquisador é grande entusiasta dos sistemas de pagamentos por serviços ambientais e mecanismos de compensação de carbono, como as Reduções de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redds).

Lovejoy foi o chefe responsável pela revisão da terceira edição do estudo Global Biodiversity Outlook (GBO) e aproveitou a passagem pelo Brasil, para as comemorações do Dia da Biodiversidade planejadas pelo programa Biota da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), para apresentar os resultados do documento, que está sendo lançado em português pelo Ministério do Meio Ambiente na tarde deste sábado, durante as atividades especiais do Viva a Mata no Parque do Ibirapuera. O estudo cruza dados de relatórios como o Living Planet Index e o Red List Index, ambos sobre a diversidade de espécies biológicas no mundo, e apresenta a situação presente, os possíveis cenários do futuro e algumas estratégias para reduzir a perda de biodiversidade.

"A primeira constatação é que o alvo da Convenção da Biodiversidade para 2010, de alcançar uma redução significativa da taxa de perda de biodiversidade no mundo, não foi cumprido pelos países", afirma Lovejoy. A maior parte dos indicadores utilizados no cruzamento de dados mostra quadros negativos. O Living Planet Index aponta para 30% de perda de biodiversidade entre 1970 e 2008, especialmente em áreas tropicais, onde essa redução pode chegar a 60%. A análise do Red List Index, feita pela União Internacional de Conservação da Natureza, entidade responsável por divulgar a lista das espécies ameaçadas de extinção, fala que todos os grupos de espécies, nesse espaço de tempo, caminharam para mais próximo da extinção, com especial atenção para os anfíbios, como grupo mais ameaçado, e para as barreiras de corais, o grupo que apresentou uma taxa mais rápida de aumento da ameaça.

"O cenário, então, mostra a maior parte dos quadros negativos. Mas existem dados otimistas: as áreas protegidas aumentaram", diz Lovejoy. De 1970 a 2008, as áreas de proteção terrestres no mundo saltaram de 4 milhões de quilômetros quadrados para 14 milhões de quilômetros quadrados. As áreas marinhas protegidas também aumentaram.

Mas isso ainda não é um número representativo, pois, de acordo com o alvo de biodiversidade a ser atingido em 2010, pelo menos 10% de cada região biologicamente relevante no mundo deveria estar dentro de uma área protegida. Porém apenas 56% das chamadas 'eco regiões' terrestres e 18% das marinhas alcançaram esta meta.

"E a Amazônia foi um dos locais que aumentou o número de áreas de reserva." A floresta amazônica também mostrou queda de 74% na taxa de desmatamento de 2003 para 2009. Porém a região ainda é considerada no relatório como um dos 'tipping points', locais em que, desrespeitadas as condições de aumento de temperatura e acúmulo de gases-estufa na atmosfera, o limite de recuperação pode ser atingido e não seja possível voltar atrás para restaurar a biodiversidade local. A perda cumulativa de floresta ainda é preocupante, pois a projeção futura indica que o desmatamento chegue a mais de 20% da área da floresta original, o que poderia alterar o ciclo de chuvas na América do Sul e acelerar a savanização da Amazônia. "Para impedir isso, três passos serão necessários: manter o desmatamento em menos de 20% da área original, minimizar o uso de incêndios para abrir a mata e manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2 graus Celsius."


Este último ponto também é crucial para as barreiras de corais. O aumento da temperatura do mar influenciará na relação entre os corais e as algas marinhas. O aumento da acidificação oceânica também contribui para isso, pois prejudica a calcificação dos corais. "Os indicadores mostram que, se nada mudar, no futuro mais de metade dos hábitats marinhos não serão propícios para a formação dos corais", informa Lovejoy. Ele defende que se a temperatura média global passar os 2 graus Celsius e as concentrações de CO2 na atmosfera alcançarem as 450 partes por milhão (ppm), o limite estabelecido pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), esses ecossistemas não sobreviverão. Por isso, é preciso manter a concentração de CO2 em 350 ppm, ainda menor do que a taxa atual, de 390.


Otimismo
De acordo com Lovejoy, esses não são motivos para parar de estudar a biodiversidade e encontrar maneiras de proteger a representatividade dos ecossistemas. Segundo o pesquisador, em outros momentos da vida na Terra, a concentração de CO2 na atmosfera também chegou a níveis altíssimos e foi justamente a biodiversidade que ajudou a reverter a situação, principalmente quando passaram a existir as espécies de fauna e de flora terrestre. "A biodiversidade é a chave para reverter a concentração de CO2 na atmosfera hoje também", indica.

Isso seria possível aprendendo a usar a biodiversidade de forma sustentável, seja para fins científicos, seja para gerar renda para comunidades que habitam em reservas ambientais. A ideia de um mecanismo de Redd também é importante. "Francamente não enxergo uma solução para esta questão sem mecanismos de compensação envolvidos hoje." Para Lovejoy, o Brasil vai despontar como liderança desse processo e também apresentará diversas oportunidades interessantes para a conservação biológica, principalmente com os pagamentos por serviços ambientais em reservas extrativistas amazônicas. "Não significa privatizar a natureza, mas fazer o melhor que pudermos", diz. "Isso vai permitir restaurar os ecossistemas e, com o aumento da biodiversidade, voltar aos limites seguros de concentração de gases na atmosfera."

Comitê fará revisão do IPCC /// Agencia Fapesp

4/5/2010
Agência FAPESP – O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas terá seus procedimentos e processos revisados por um comitê independente de especialistas. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (3/5), na Holanda, pelo InterAcademy Council (IAC), organização que reúne academias de ciências de diversos países, entre os quais o Brasil.

O economista Harold T. Shapiro, ex-reitor das universidades Princeton e de Michigan, nos Estados Unidos, conduzirá o comitê de 12 especialistas. O Brasil estará representado por Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

A revisão do IPCC foi solicitada pela Organização das Nações Unidas (ONU) no mês passado a partir de erros identificados em relatórios do painel divulgados em 2007. O comitê revisará os procedimentos empregados pelo IPCC na preparação de seus relatórios. Entre os assuntos que serão analisados estão o controle e a qualidade dos dados utilizados, a forma como os relatórios lidaram com diferentes pontos de vista científicos e a correção de erros identificados após a divulgação dos documentos.

O comitê também revisará os processos gerais do IPCC, entre os quais as funções gerenciais e estratégias de comunicação. O objetivo do IAC é que o comitê tenha um relatório pronto, com observações e recomendações, até 30 de agosto.

“Vamos abordar esse processo de revisão com a mente aberta. Estamos confiantes de que temos os especialistas necessários, nesse comitê, para entregar à ONU um processo sólido que ofereça aos tomadores de decisão a melhor avaliação possível sobre as mudanças climáticas”, disse Shapiro.

“O que o IAC espera do comitê é uma contribuição especial para que os trabalhos do IPCC tenham a base científica mais sólida possível, o que é fundamental para que as conclusões e projeções tenham cada vez maior legitimidade junto a governos e ao público em geral", disse Brito Cruz.

Entre os integrantes do comitê de revisão estão Maureen Cropper, ex-economista chefe do Banco Mundial, Mario Molina, ganhador do Nobel de Química em 1995, e Peter Williams, vice-presidente da Royal Society.

Roseanne Diab, diretora da Academia de Ciências da África do Sul, será a vice-presidente do comitê, que teve seus integrantes indicados pelas academias de ciência que fazem parte da IAC.

Mais informações: www.interacademycouncil.net/ipccreview

Exemplo latino-americano /// Agencia Fapesp

26/3/2010 Por Fábio de Castro e Fábio Reynol

Agência FAPESP – Encerrada nesta quinta-feira (25/3), a Convenção Latino-Americana do projeto Global Sustainable Bioenergy (GSB) destacou, entre outras conclusões, que a produção de bioenergia na América Latina é especialmente eficaz em termos de sustentabilidade e tem grande potencial de expansão sem implicar no comprometimento da segurança alimentar, do meio ambiente ou da biodiversidade.

O evento, realizado na sede da FAPESP, em São Paulo, foi a terceira convenção realizada pelo Projeto GSB, depois de reuniões ocorridas na Holanda e na África do Sul. Mais duas convenções estão marcadas, para junho, na Malásia, e julho, nos Estados Unidos. O objetivo principal é fornecer uma plataforma para oportunidades, desafios e preocupações regionais e transnacionais relacionados à bioenergia.

Na sessão de encerramento, os organizadores manifestaram que o continente latino-americano provou ter potencial para assumir um importante papel no fornecimento de biocombustíveis para a crescente demanda local e global. A produção de etanol no Brasil e de biodiesel na Argentina foram apontadas como experiências bem-sucedidas de uso da bioenergia para um desenvolvimento sustentável.

De acordo com o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, a convenção realizada no Brasil obteve sucesso ao levar à comunidade científica internacional envolvida com o Projeto GSB a visão dos brasileiros e latino-americanos sobre as grandes oportunidades que os biocombustíveis podem representar.

“O Brasil tem uma posição muito especial – tanto no grupo envolvido com o Projeto GSB como no mundo – no debate internacional sobre biocombustíveis, já que é o único país que realizou a substituição em larga escala da gasolina por biocombustíveis. Por outro lado, o GSB cria uma caixa de ressonância para as ideias brasileiras nessa área”, disse à Agência FAPESP.

O presidente do comitê diretor do projeto GSB, Lee Lynd, professor de biologia do Dartmouth College (Estados Unidos), lembrou que o Brasil representa metade da bioenergia produzida na América Latina.

“E o mais impressionante é que o país ainda tem muito a crescer nesse setor. Mas talvez fosse melhor que alguns de seus vizinhos também mantivessem a produção de biocombustíveis para trocar produtos e tecnologias”, afirmou.

Segundo ele, o país tem um papel de liderança na pesquisa, na produção e na implementação de sistemas de bioenergia. “O uso de bioenergia no Brasil e nos Estados Unidos não têm paralelo no mundo. Mas os Estados Unidos são mais defensivos ao analisar mecanismos de sustentabilidade”, disse Lynd.

O comitê responsável pela organização da convenção latino-americana do GSB prepara uma resolução a respeito da importância, do papel e do desenvolvimento da bioenergia sustentável no continente, que será divulgada na próxima semana.

Sustentabilidade estratégica
Segundo os organizadores, o evento em São Paulo foi particularmente enriquecedor para os participantes de outros continentes. Por meio das apresentações, feitas por cientistas respeitados na área, o público presente teve a oportunidade de obter um “raio X do estado da ciência sobre os biocombustíveis no Brasil”, apontou Brito Cruz.

“Membros do comitê organizador do GSB, que são cientistas muito importantes no contexto dos biocombustíveis, manifestaram que aprenderam muito sobre a maneira como o Brasil tem lidado com a questão da bioenergia. Em especial, destacaram a importância e a positividade da sustentabilidade como elemento realmente estratégico do desenvolvimento dos biocombustíveis. Fato que não é comum no mundo dos biocombustíveis, por exemplo, nos Estados Unidos”, disse.

Lynd ressaltou que as reuniões do Projeto GSB estão formando rapidamente uma integração entre os cientistas envolvidos no esforço internacional pela produção de bioenergia em larga escala.

“Há pouco tempo, todo esse projeto era apenas a menina dos olhos de algumas pessoas. Esse círculo crescente de pessoas vai sendo expandido a cada encontro e isso é extremamente gratificante. Não somos uma maioria, em nenhum aspecto, mas as principais mudanças no mundo surgem de um pequeno grupo de pessoas”, disse.

Para Brito Cruz, a reunião contribuiu para responder ao principal desafio proposto pelo GSB: confirmar a hipótese de que é possível substituir 25% do petróleo utilizado no setor de transportes por biocombustíveis, sem comprometer a produção de alimentos e os habitats naturais.

“Isso continuará sendo trabalhado nas próximas reuniões. Em seguida, na segunda fase, vamos organizar o projeto de pesquisa propriamente dito, que fundamentará o oferecimento de respostas para o desafio inicial levantado pelo projeto GSB, a respeito da possibilidade de substituição de 25% da energia que move o transporte no mundo por biocombustíveis sem prejudicar o meio ambiente, a sociedade e a produção de alimentos”, afirmou.

Nas três reuniões já realizadas, a resposta preliminar é positiva, segundo Brito Cruz. “Ao mesmo tempo, as discussões determinaram que essa resposta só será um ‘sim’ definitivo se estudarmos adequadamente a questão da sustentabilidade e criarmos as soluções positivas para isso”, disse.

Dados e análises
De acordo com Marcos Buckeridge, professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências (IB) da USP e um dos coordenadores do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), uma das conclusões da convenção latino-americana do GSB é que será preciso executar uma meta-análise para fazer o levantamento de quanta bioenergia a América Latina consegue produzir.

Buckeridge, que também é diretor científico do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), explicou que a meta-análise é uma ferramenta estatística muito utilizada na medicina e trata-se de uma grande reunião de dados levantados por pesquisas diferentes.

“Podemos, por exemplo, reunir 10 mil artigos sobre a soja e ter uma perspectiva muito boa sobre seu potencial energético,” comentou o professor. Segundo ele a meta-análise é capaz de economizar um tempo precioso de levantamento de dados necessários para o encaminhamento das pesquisas em biocombustíveis.

Os participantes da convenção latino-americana do GSB também enfatizaram a importância da coleta de dados sobre a produção de bioenergia na América Latina.

“Há muito mais dados sobre o hemisfério Norte do que sobre o hemisfério Sul. O Brasil produz cerca de 50% do etanol mundial e não tem dados precisos sobre quanto dióxido de carbono essa cadeia produtiva produz. Nós temos apenas estimativas”, afirmou Buckeridge.

A convenção destacou também a agricultura de precisão, que pode ter um papel importante na redução da área plantada por meio da melhoria na fisiologia das plantas, por exemplo.

Outro item enfatizado foram as melhorias nas práticas de informação e de educação a fim de evitar mal-entendidos. “A agricultura brasileira sofreu alguns questionamentos internacionais a respeito do uso da terra, isso ocorreu por falta de informações no exterior sobre as características locais”, disse Buckeridge.

A convenção do GSB também concluiu que é necessário investir na transferência de tecnologia e patentes de países ricos aos demais, de modo a auxiliar na mitigação do aquecimento global. Procurar novas fontes de bioenergia foi outro tópico recomendado.

“Se utilizarmos plantas da Amazônia para produzir biocombustível, não precisaremos levar a cana-de-açúcar até lá e ainda vamos ajudar no desenvolvimento econômico e social local”, disse Buckeridge.

As apresentações realizadas na convenção do GSB e mais informações sobre o projeto estão em: www.fapesp.br/gsbt

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