Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Ações para compatibilizar desenvolvimento econômico com sustentabilidade ambiental

29/02/2012Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Um grupo de especialistas mundiais em meio ambiente publicou um documento reunindo um conjunto de recomendações para os líderes governamentais sobre ações necessárias e urgentes para compatibilizar desenvolvimento econômico com a sustentabilidade ambiental e social do planeta.

Intitulado Desafios ambientais e desenvolvimento: o imperativo para agir, o documento foi elaborado por 20 cientistas laureados com o Blue Planet Prize.

Concedido pela fundação japonesa Asahi Glass Foundation desde 1992 – por ocasião da realização no Rio de Janeiro da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, mais conhecida como ECO-92 –, o prêmio é considerado o “Nobel do Meio Ambiente”, dado que a máxima distinção científica concedida pela Fundação Nobel não premia essa área de pesquisa.
Entre as personalidades laureadas com o prêmio, cujo nome é inspirado na máxima “a Terra é azul”, cunhada pelo cosmonauta russo Yuri Gagarin (1934-1968) após viajar pelo espaço, em 1961, está Gro Harlem Brundtland.

A diplomata presidiu no início da década de 1980, quando era primeira-ministra da Noruega, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento criada pela Organizaç]ao das Nações Unidas (ONU) e coordenou a realização do documento nomeado Nosso futuro comum, publicado em 1987 e mais conhecido como Relatório Brundtland, que popularizou a expressão “desenvolvimento sustentável”.

O prêmio também foi concedido em 2008 a José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), que era secretário do Meio Ambiente do Brasil durante a ECO-92.

Algumas das recomendações dos cientistas no documento são eliminar os subsídios em setores como os de energia, transporte e agricultura, que, na opinião dos autores, criam custos ambientais e sociais, e substituir o Produto Interno Bruto (PIB) como medida de riqueza dos países.
Na avaliação dos autores do artigo, o índice é incapaz de mensurar outros indicadores importantes do desenvolvimento econômico e social de um país, como seu capital social, humano e natural e como esses dados se cruzam. Por isso, poderia ser substituído por outras métricas, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

“O PIB só mede transações econômicas, que não é a única medida para se avaliar o progresso de um país. Há países como Cuba, que tem um desempenho econômico muito ruim e PIB e renda per capita baixos, mas cujo sistema educacional e de saúde são excelentes”, disse Goldemberg à Agência FAPESP.

Outras recomendações dos cientistas são conservar e valorizar a biodiversidade e os serviços do ecossistema e criar mercados que possam formar as bases de economias “verdes” e investir na criação e compartilhamento do conhecimento, por meio da pesquisa e desenvolvimento, que, na opinião dos autores, permitirão que os governos e a sociedade, em geral, “possam compreender e caminhar em direção a um futuro sustentável”.

“Em síntese, a mensagem do documento é que não se pode seguir uma trajetória de desenvolvimento cujo único parâmetro seja o crescimento econômico”, avaliou Goldemberg.
“Isso é muito comum no Brasil, por exemplo, onde os economistas dizem que a economia do país deve crescer 5% ao ano, mas se nesse processo a floresta amazônica for destruída, para muitos deles está tudo bem, porque o PIB está aumentando e gerando atividade econômica. Porém, se por um lado é gerado valor econômico, o país perde sua biodiversidade e futuro”, ponderou.

O documento foi apresentado em 20 de fevereiro aos ministros de mais de 80 países que participaram da 12ª Reunião Especial do Conselho de Administração do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e do Fórum Global de Ministros do Meio Ambiente em Nairóbi, no Quênia.
O cientista inglês Bob Watson, que coordenou a redação do documento e o apresentou em Nairóbi, presidiu o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e atualmente é o principal conselheiro científico do Reino Unido para questões ambientais.

Alerta para a RIO+20
De acordo com Goldemberg, um dos objetivos do documento é que a RIO+20, que será realizada no Rio de Janeiro de 20 a 22 de junho, resulte em resoluções concretas como as que emergiram na ECO-92, em que foi aprovada a Convenção do Clima.

“Os preparativos da conferência estão dando a impressão de que ela será mais um evento de natureza retórica, o que será muito ruim. Ainda não há nenhuma proposta de assinatura de uma nova convenção ou de protocolos”, afirmou.
Goldemberg participará em 6 de março da abertura do evento preparativo para a RIO+20 “BIOTA-BIOEN-Climate Change Joint Workshop: Science and Policy for a Greener Economy in the context of RIO+20”, que a FAPESP realizará nos dias 6 e 7 de março no Espaço Apas, em São Paulo.

Em sua palestra, na abertura do evento, Goldemberg abordará o papel da biomassa no contexto do desenvolvimento tecnológico e apresentará alguns pontos do documento.
O artigo Environment and development challenges: the imperative to act, de Golbemberg e outros, pode ser lido em qualenergia.it/sites/default/files/articolo-doc/Blue-Planet-Synthesis-Paper-for-UNEP.pdf.

Mais educação em biodiversidade

11/4/2011

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Ao longo de seus 12 anos de existência, o programa BIOTA-FAPESP possibilitou a descoberta de mais de 500 espécies de plantas e animais e contribuiu para o aprimoramento de políticas públicas de conservação, restauração e uso sustentável da biodiversidade do Estado de São Paulo.

Traduzir e publicar esse conhecimento sobre os biomas paulistas em materiais didáticos, que possam ser utilizados em espaços de educação formal – como as escolas – e não formais – como os museus de ciências –, é um dos desafios que o programa pretende atingir nos próximos anos.

Para avaliar as ações educativas realizadas no âmbito do programa e fomentar novas atividades foi realizado, nos dias 7 e 8 de abril, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Workshop BIOTA-FAPESP sobre Biodiversidade, Educação e Divulgação.

O evento reuniu especialistas em educação e biologia para discutir possibilidades de relacionar conhecimentos sobre biodiversidade gerados pelo programa com práticas de educação e de divulgação científica.

Em avaliação realizada em 2009, intitulada BIOTA+10: Definindo Metas para 2020, a extensão do conhecimento científico gerado sobre biodiversidade para as escolas de ensino fundamental e médio e em espaços de educação não formal foi apontada como um dos maiores desafios a ser atingido pelo programa.

“Identificamos essa área como uma das lacunas que o programa não conseguiu preencher e estabelecemos como meta no plano de atividades do BIOTA-FAPESP traçado até 2020 conseguir promover, de fato, a interlocução do programa com a área da educação”, disse o coordenador do programa, Carlos Alfredo Joly.

O programa já originou materiais educativos, como exposições, projetos de educação ambiental e uma série de vídeos exibidos pela TV Cultura. Mas, na avaliação de Joly, as atividades educacionais precisam atingir um número muito maior de estudantes dos ensinos fundamental e médio.

Para estimular a realização de mais atividades do gênero, será lançada em breve, pela FAPESP, uma chamada de pesquisas sobre educação e biodiversidade. “Pretendemos utilizar ideias e sugestões lançadas no workshop para auxiliar na formatação da chamada”, disse.

Conceitos de biodiversidade

De acordo com a professora da Faculdade de Educação da Unicamp, Martha Marandino, um dos desafios para se promover a articulação entre as ações de educação e biodiversidade no âmbito do BIOTA-FAPESP será o de trabalhar o conceito de biodiversidade de acordo com as diretrizes do programa.

“O programa se baseia em uma diretriz de biodiversidade que, obviamente, não abrange todas as questões possíveis sobre o conceito, mas levanta temáticas muito importantes, que vale a pena serem pensadas e desenvolvidas tanto no âmbito da educação formal como da não formal”, analisou.

Na escola, segundo Marandino, a educação em biodiversidade atualmente está muito baseada no ensino do conceito a partir da ecologia sistêmica, com ênfase em cadeias ambientais, e se dá pouca atenção à ecologia humana.

Nesse sentido, de acordo com uma pesquisa realizada com professores de ciências do ensino básico pelo professor da Faculdade de Educação da Unicamp, Antonio Carlos Rodrigues Amorim, os sentidos, significados e conceitos sobre biodiversidade apresentados pelo BIOTA-FAPESP devem se confrontar com o conceito de biodiversidade consolidado e estabelecido pela biologia que é ensinada na escola.

“Para os professores, a incorporação no currículo de biologia do conceito de biodiversidade do BIOTA-FAPESP poderia causar uma desestruturação no modo de pensar a biologia que é próprio da escola”, disse Amorim.

Segundo ele, alguns dos temas que poderiam ser trabalhados em sala de aula a partir do programa, apontados pelos professores que participaram do levantamento, foram sustentabilidade e ecossistemas que utilizassem exemplos de organismos que compõem a biodiversidade do Estado de São Paulo.

“Essas foram indicações de temas que elas fizeram naturalmente porque são questões que, se incluídas no planejamento escolar, não romperiam com a tradição do ensino da biologia na escola”, disse Amorim.

BIOTA-FAPESP: www.biota.org.br

Depois de Nagoya

14/12/2010
Por Fábio de Castro, de Bragança Paulista (SP)
Agência FAPESP – A 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP10), realizada em Nagoya (Japão), terminou no dia 29 de outubro com um acordo inédito para a proteção da diversidade das espécies e dos recursos genéticos do planeta. Depois de comemorar a conquista, que surpreendeu até os mais otimistas, a comunidade científica começa agora a avaliar quais serão os próximos passos para alcançar as metas estabelecidas na conferência.

As primeiras avaliações começaram a ser feitas com a presença de alguns dos principais responsáveis pelo Protocolo de Nagoya na conferência internacional Getting Post 2010 – Biodiversity Targets Right, realizada pelo Programa Biota-FAPESP, pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Bragança Paulista (SP). A reunião, que termina no dia 15 de dezembro, marca o encerramento do Ano Internacional da Biodiversidade.

O discurso inaugural do evento foi feito por Ahmed Djoghlaf, secretário executivo da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CBD, na sigla em inglês). Os trabalhos foram abertos por Maximiliano da Cunha Henriques Arienzo – subchefe da Divisão de Meio Ambiente do Itamaraty, chefe da delegação e principal negociador brasileiro em Nagoya – com a apresentação de um relatório sobre a COP10.

Além de Djoghlaf e Arienzo, participaram da reunião negociadores brasileiros que também tiveram papel central nas negociações na conferência no Japão, como Braulio de Souza Dias, secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), e David Oren, coordenador de Gestão de Ecossistemas e Biodiversidade do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). A mesa de abertura teve ainda a presença de Celso Lafer, presidente da FAPESP, e de Carlos Alfredo Joly, coordenador do Programa Biota-FAPESP.

Lafer destacou a importância da reunião em Bragança Paulista ao comentar o papel fundamental da pesquisa científica para o estabelecimento de políticas internacionais de biodiversidade, como as que foram discutidas na COP10 e no âmbito da CBD.

“Os processos de negociação voltados para o tema do meio ambiente e da sustentabilidade são discussões nas quais o conhecimento aprofundado dos assuntos é absolutamente indispensável. Sem essa base de conhecimento e sem uma contínua interação entre os que negociam e os que geram o conhecimento, não é possível avançar nessa área”, disse Lafer, que participou da Rio-92 e da Rio+10 em seus dois mandatos como ministro das Relações Exteriores.

De acordo com Joly, coordenador da reunião em Bragança Paulista, o evento representa a primeira oportunidade para reunir novamente os principais negociadores da COP10. Segundo ele, Djoghlaf, Arienzo, Oren e Dias foram responsáveis por viabilizar a base para o acordo conseguido em Nagoya.

“A partir de agora, entramos em uma nova fase, que consistirá em interpretar corretamente aquilo que foi decidido na COP10. A agenda está completamente voltada para 2012, quando teremos a Rio+20. O objetivo é que, até lá, pelo menos 50 países tenham assinado o Protocolo de Nagoya para que ele entre efetivamente em vigor”, disse Joly à Agência FAPESP.

A preocupação da comunidade científica, segundo Joly, é que não se repita o que ocorreu com o Protocolo de Kyoto, que foi assinado em 1998, mas só entrou em vigor depois da ratificação da Rússia, em 2005.

No caso de Kyoto, o acordo previa a entrada em vigor quando se tivesse a adesão de um número de países que reunisse 50% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. O Protocolo de Nagoya estabelece que o acordo entre em vigor quando 50 países o ratificarem.

“É possível fazer com que 50 países ratifiquem o tratado até 2012. Nessas discussões para a implementação do protocolo, novamente o Brasil terá um papel central”, disse Joly.

Outro ponto importante do processo é que os países terão que traçar planos nacionais muito bem definidos para atingir as metas de conservação. “O Protocolo de Nagoya é claro quanto à repartição justa e equitativa de lucros obtidos com o uso sustentável da biodiversidade. Mas é preciso discutir os detalhes sobre o cumprimento de metas. Os planos nacionais terão que dizer como chegaremos a 17% de área protegida e a 10% de área marinha protegida”, afirmou.

No primeiro dia da reunião de Bragança Paulista, os participantes reforçaram que, para fazer o planejamento, os países precisarão estabelecer o custo do cumprimento de metas.

“Suponhamos que se tenha hoje 3% da área marinha protegida. Para subir essa fração a 10%, precisamos saber quais são os mecanismos e recursos específicos para isso. Caso não possamos cumprir no fim do prazo, poderemos avaliar se a meta ficou inviável por falta de esforços ou porque não tivemos os recursos. Isso será definido e é por isso que esta reunião vem em um momento muito importante”, explicou.

Mais do que nunca, será necessária a participação ativa da comunidade científica, segundo Joly. Tanto na definição das estratégias para implementar e monitorar o que será executado, como para fazer as avaliações de custo dessas atividades.

“É preciso abrir um canal de negociação com a comunidade científica. Ficou muito claro para os representantes do MMA que isso é muito importante e que certamente teremos muito com o que contribuir”, disse.

“IPCC” da biodiversidade
A reunião de Nagoya também representou avanços em relação a outra iniciativa importante, da qual o Brasil também participou como protagonista: o Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES).

O Programa Biota-FAPESP está envolvido desde o início com o longo processo de criação do IPBES, um painel intergovernamental que procura fazer com que o conhecimento científico acumulado sobre biodiversidade seja sistematizado para dar subsídios a decisões políticas em nível internacional.

”Um pouco antes da COP10, em junho, houve uma reunião na Coreia do Sul onde foi finalmente definida a implantação do IPBES. O órgão de fato será implementado. Sua criação foi ratificada em Nagoya e agora o processo depende de uma aprovação na Assembleia Geral das Nações Unidas. Mas uma vez que todos os países já concordaram, ele de fato será criado”, disse Joly.

O órgão terá com a CBD a mesma relação que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) tem com a Convenção do Clima. “Não é um órgão da Convenção da Diversidade Biológica, mas fornecerá a base técnica e científica para que a comissão tome as suas decisões. Vai facilitar a transferência do conhecimento científico para as políticas públicas”, indicou.

O Brasil tem grande possibilidade de sediar o secretariado IPBES. “Mas, muito mais importante que o secretariado, será o braço do IPBES dedicado a aumentar a capacitação técnico-científica voltada para aumentar a capacidade de conhecimento de biodiversidade. Acho que o Brasil tem todas as condições de sediar esse departamento, ou essa sessão do IPBES”, disse Joly.

Segundo ele, a alta qualidade da ciência feita no Brasil na área de biodiversidade é o fator que aumenta a chance de o país sediar o secretariado do IPBES.

“Temos uma comunidade científica extremamente ativa. A questão central consiste em viabilizar tanto a parte técnico-científica como a financeira. Esse é um compromisso que o país terá que assumir: dar a infraestrutura necessária para esse órgão funcionar”, afirmou.

Mais informações: http://www.biota2010-targets.com.br/

Terceiro alerta /// Agencia Fapesps

24/5/2010
Por Alex Sander Alcântara

Agência Fapesp – “O cientista deveria ser um grande contador de histórias, para levar informação científica à sociedade de modo que todos, mas especialmente os jovens, descubram o mundo da natureza”, disse o ambientalista americano Thomas Lovejoy, presidente do Heinz Center for Science, Economics and Environment e consultor do Banco Mundial para sustentabilidade, no sábado (22/5), durante palestra em comemoração ao dia Internacional da Biodiversidade.

A afirmação de Lovejoy – que criou o termo "diversidade biológica" – referia-se ao papel do cientista na tarefa de construção de uma “consciência pública” para reverter o processo de perda de biodiversidade. “Precisamos reverter esse processo. Para isso, a decisão passa por todas as instâncias do poder, mas passa também pelo envolvimento de toda a sociedade”, disse à Agência FAPESP.

O evento, realizado no Palácio dos Bandeirantes, teve a presença do presidente da FAPESP, Celso Lafer, representando o governador Alberto Goldman, e foi organizado pelo Programa Biota-FAPESP como parte das atividades do Ano Internacional da Biodiversidade, declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Lovejoy destacou pontos importantes do Terceiro Panorama da Biodiversidade Global (Global Biodiversity Outlook - GB3), recém-lançada publicação da Convenção sobre a Biodiversidade Biológica (CBD) da ONU.

O documento é baseado em cerca de 500 trabalhos científicos e em relatórios nacionais e cruza dados de outros relatórios, como o Living Planet Index e o Red List Index.

A conclusão mais categórica do panorama ressalta que a meta de redução da perda da biodiversidade para 2010 não foi alcançada em nível mundial. As populações de espécies de vertebrados reduziram-se em quase um terço, em média, entre 1970 e 2006, e continuam caindo globalmente, de forma mais severa nos trópicos e entre espécies de água doce.

Lovejoy, que foi chefe responsável pela revisão do documento, apresentou o quadro atual da biodiversidade e focou em alguns pontos específicos do panorama, em especial no caso da Amazônia, que ele pesquisa há mais de quatro décadas.

"Os cenários apresentados não são animadores, mas, apesar de as metas não terem sido cumpridas, é preciso manter o otimismo. Os resultados são uma oportunidade para melhorar e criar soluções e buscar novas formas de explorar a biodiversidade de forma sustentável”, disse.

O relatório aponta que das 11 metas acordadas por governos de todo mundo em 2002 nenhuma foi alcançada globalmente, apesar de em algumas ter havido pequenos avanços, como a situação das espécies ameaçadas, classificada como “algum progresso”, e a redução da poluição e de seus impactos sobre biodiversidade, que figura no texto como “progresso significativo”.

No entanto, o consumo não sustentável aumentou e continua a ser uma grande causa da perda da biodiversidade. Além disso, muitos recursos biológicos que sustentam meios de subsistência, como peixes, mamíferos, aves, anfíbios e plantas medicinais, estão em declínio, afetando as populações mais pobres.

De outro lado, existem dados um pouco mais animadores. Segundo o panorama, de 1970 a 2006 as áreas de proteção terrestres no mundo aumentaram de 4 milhões para 14 milhões de quilômetros quadrados. Houve também um aumento nas áreas marinhas protegidas.

“Contudo, a meta a ser atingida em 2010 era que pelo menos 10% de cada região biologicamente relevante no mundo deveria estar dentro de uma área protegida”, disse Lovejoy. Segundo o relatório, 44% das ecorregiões terrestres (zonas com uma grande proporção de espécies e tipos de habitats partilhados) e 82% das ecorregiões marinhas se encontram abaixo do objetivo de 10%.

Savazinação da Amazônia
O Terceiro Panorama da Biodiversidade Global considera que as cinco principais pressões que estão causando diretamente a perda da biodiversidade são alterações nos habitats, sobreexploração, poluição, espécies exóticas invasivas e alterações climáticas.

As previsões climáticas há cerca de seis anos mostravam uma projeção de aumento de cerca 1,5º C da temperatura na atmosfera. Ao indicar o movimento da massa de umidade no planeta mostrando a Amazônia, Lovejoy disse que se o aumento da temperatura global não ficar abaixo dos 2º C haverá um "deslocamento de umidade", que alteraria o ciclo da chuvas na América do Sul e aceleraria o processo de “savanização da Amazônia”.

“A soja na região pantaneira é beneficiada pelas chuvas que são geradas na região Amazônica. Mudar esse ciclo seria um desastre porque mexeria com a estabilidade climática desses ecossistemas na grande maioria dos ambientes sul-americanos”, destacou.

Apesar de ainda ser considerada uma área crítica – se no futuro forem mantidas as condições atuais de aumento de temperatura e acúmulo de gases estufa na atmosfera – o relatório indica que o número de áreas de reserva na Amazônia cresceu. Mas outro dado contrastante é que, apesar da taxa de desmatamento da floresta ser positiva – caiu 74% de 2003 a 2009 – a projeção futura aponta que o desmatamento chegará a mais de 20% da área da floresta original

A maioria dos ecossistemas terrestres e aquáticos também está se tornando cada vez mais fragmentada. De acordo com o panorama, se a situação atual não mudar, no futuro mais de metade dos habitats marinhos não serão propícios para a formação dos corais.

“Os sistemas de corais são hipersensíveis. O aumento na temperatura do mar influenciará na relação entre os corais e as algas marinhas. Além disso, o aumento da acidez nos oceanos, que parece imperceptível para as pessoas, está longe de ser imperceptível para os organismos marinhos”, disse Lovejoy.

O ambientalista afirma ainda que se a temperatura média global ultrapassar os 2º C e as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera alcançarem as 450 partes por milhão (ppm), os ecossistemas marinhos não sobreviverão. “Precisamos reverter essa situação e manter a concentração de dióxido de carbono em 350 ppm, ainda menor do que a taxa atual, que beira os 390 ppm", disse.

O Terceiro Panorama da Biodiversidade Global será apresentado na Conferência das Partes na Convenção, que será realizada em outubro de 2010, em Nagoya (Japão). O objetivo é que o documento se torna a base da análise do plano estratégico para a próxima década da Convenção sobre Diversidade Biológica.

Modelo exemplar
Lovejoy destacou ainda a imporância do prorama Biota-FAPESP como um exemplo a ser seguido. “O Biota merece ser replicado e espalhado por todo o mundo. É um modelo notável para gerir programas de recursos biológicos”, disse.

Para Celso Lafer, presidente da Fundação, o Biota é um programa que orgulha qualquer dirigente de uma instituição de pesquisa como a FAPESP. “O programa é moderno do ponto de vista do trabalho de pesquisa. Ele constrói redes, une pesquisadores e permite que as sinergias das nossas universidades possam estar em marcha para o avanço do conhecimento”, destacou.

De acordo com Carlos Alfredo Joly, coordenador geral do Biota-FAPESP e professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em dez anos o programa já catalogou cerca de 2 mil novas espécies no Estado de São Paulo.

“Mas, na segunda fase do programa, no plano estratégico para os próximos dez anos, nosso desafio é conseguir também uma inserção internacional mais forte. Temos participado de diversos fóruns no exterior e feito parcerias com esse objetivo”, disse.

Outro desafio, aponta, é tornar o conhecimento científico produzido pelos integrantes do Biota-FAPESP mais próximo da população, em particular de jovens do ensino fundamental e médio. “Por isso, nessa segunda fase do Biora, vamos levar o conhecimento do programa a esses alunos”, afirmou.

Mais informação sobre o relatório: http://gbo3.cbd.int
Biota-FAPESP: www.biota.org

'É preciso manter otimismo', diz criador do conceito de biodiversidade /// Estadão.com.br

Em palestra em São Paulo, Thomas Lovejoy apresentou estudos sobre declínio da biodiversidade do mundo
22 de maio de 2010
16h 16

 Fernanda Fava - Especial para o Planeta

No Dia Internacional da Biodiversidade, em palestra no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo, a mensagem que o ambientalista americano Thomas Lovejoy, diretor do Instituto John Henz e consultor do Banco Mundial para sustentabilidade, tinha para passar à plateia não era muito animadora: os recentes estudos mostram um declínio da biodiversidade do mundo, com mais espécies ameaçadas e mais possíveis pontos críticos. Mas Lovejoy acredita que é preciso manter o otimismo. "Precisamos encarar esses resultados não com pessimismo, mas como oportunidades ótimas para melhorar, estudar ainda mais a biodiversidade, criar soluções para a saúde e para a economia, e encontrar uma forma de explorar a biodiversidade de forma sustentável", afirma. O pesquisador é grande entusiasta dos sistemas de pagamentos por serviços ambientais e mecanismos de compensação de carbono, como as Reduções de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redds).

Lovejoy foi o chefe responsável pela revisão da terceira edição do estudo Global Biodiversity Outlook (GBO) e aproveitou a passagem pelo Brasil, para as comemorações do Dia da Biodiversidade planejadas pelo programa Biota da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), para apresentar os resultados do documento, que está sendo lançado em português pelo Ministério do Meio Ambiente na tarde deste sábado, durante as atividades especiais do Viva a Mata no Parque do Ibirapuera. O estudo cruza dados de relatórios como o Living Planet Index e o Red List Index, ambos sobre a diversidade de espécies biológicas no mundo, e apresenta a situação presente, os possíveis cenários do futuro e algumas estratégias para reduzir a perda de biodiversidade.

"A primeira constatação é que o alvo da Convenção da Biodiversidade para 2010, de alcançar uma redução significativa da taxa de perda de biodiversidade no mundo, não foi cumprido pelos países", afirma Lovejoy. A maior parte dos indicadores utilizados no cruzamento de dados mostra quadros negativos. O Living Planet Index aponta para 30% de perda de biodiversidade entre 1970 e 2008, especialmente em áreas tropicais, onde essa redução pode chegar a 60%. A análise do Red List Index, feita pela União Internacional de Conservação da Natureza, entidade responsável por divulgar a lista das espécies ameaçadas de extinção, fala que todos os grupos de espécies, nesse espaço de tempo, caminharam para mais próximo da extinção, com especial atenção para os anfíbios, como grupo mais ameaçado, e para as barreiras de corais, o grupo que apresentou uma taxa mais rápida de aumento da ameaça.

"O cenário, então, mostra a maior parte dos quadros negativos. Mas existem dados otimistas: as áreas protegidas aumentaram", diz Lovejoy. De 1970 a 2008, as áreas de proteção terrestres no mundo saltaram de 4 milhões de quilômetros quadrados para 14 milhões de quilômetros quadrados. As áreas marinhas protegidas também aumentaram.

Mas isso ainda não é um número representativo, pois, de acordo com o alvo de biodiversidade a ser atingido em 2010, pelo menos 10% de cada região biologicamente relevante no mundo deveria estar dentro de uma área protegida. Porém apenas 56% das chamadas 'eco regiões' terrestres e 18% das marinhas alcançaram esta meta.

"E a Amazônia foi um dos locais que aumentou o número de áreas de reserva." A floresta amazônica também mostrou queda de 74% na taxa de desmatamento de 2003 para 2009. Porém a região ainda é considerada no relatório como um dos 'tipping points', locais em que, desrespeitadas as condições de aumento de temperatura e acúmulo de gases-estufa na atmosfera, o limite de recuperação pode ser atingido e não seja possível voltar atrás para restaurar a biodiversidade local. A perda cumulativa de floresta ainda é preocupante, pois a projeção futura indica que o desmatamento chegue a mais de 20% da área da floresta original, o que poderia alterar o ciclo de chuvas na América do Sul e acelerar a savanização da Amazônia. "Para impedir isso, três passos serão necessários: manter o desmatamento em menos de 20% da área original, minimizar o uso de incêndios para abrir a mata e manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2 graus Celsius."


Este último ponto também é crucial para as barreiras de corais. O aumento da temperatura do mar influenciará na relação entre os corais e as algas marinhas. O aumento da acidificação oceânica também contribui para isso, pois prejudica a calcificação dos corais. "Os indicadores mostram que, se nada mudar, no futuro mais de metade dos hábitats marinhos não serão propícios para a formação dos corais", informa Lovejoy. Ele defende que se a temperatura média global passar os 2 graus Celsius e as concentrações de CO2 na atmosfera alcançarem as 450 partes por milhão (ppm), o limite estabelecido pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), esses ecossistemas não sobreviverão. Por isso, é preciso manter a concentração de CO2 em 350 ppm, ainda menor do que a taxa atual, de 390.


Otimismo
De acordo com Lovejoy, esses não são motivos para parar de estudar a biodiversidade e encontrar maneiras de proteger a representatividade dos ecossistemas. Segundo o pesquisador, em outros momentos da vida na Terra, a concentração de CO2 na atmosfera também chegou a níveis altíssimos e foi justamente a biodiversidade que ajudou a reverter a situação, principalmente quando passaram a existir as espécies de fauna e de flora terrestre. "A biodiversidade é a chave para reverter a concentração de CO2 na atmosfera hoje também", indica.

Isso seria possível aprendendo a usar a biodiversidade de forma sustentável, seja para fins científicos, seja para gerar renda para comunidades que habitam em reservas ambientais. A ideia de um mecanismo de Redd também é importante. "Francamente não enxergo uma solução para esta questão sem mecanismos de compensação envolvidos hoje." Para Lovejoy, o Brasil vai despontar como liderança desse processo e também apresentará diversas oportunidades interessantes para a conservação biológica, principalmente com os pagamentos por serviços ambientais em reservas extrativistas amazônicas. "Não significa privatizar a natureza, mas fazer o melhor que pudermos", diz. "Isso vai permitir restaurar os ecossistemas e, com o aumento da biodiversidade, voltar aos limites seguros de concentração de gases na atmosfera."

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