Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
Mostrando postagens com marcador PNUMA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PNUMA. Mostrar todas as postagens

Relatório da ONU destaca práticas sustentáveis na indústria e comércio do Brasil

 

11 de maio de 2013 · Notícias

Share
Floresta Nacional dos Tapajós, no Brasil. Foto: ONU/Eskinder Debebe
Floresta Nacional dos Tapajós, no Brasil. Foto: ONU/Eskinder Debebe

O relatório Economia Verde e Comércio — Tendências, Desafios e Oportunidades, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ressaltou iniciativas sustentáveis na indústria e comércio brasileiros. O documento, publicado esta semana, aborda as oportunidades que as políticas de economia verde geram para o comércio sustentável e os incentivos que o comércio internacional podem criar para promover uma economia mais verde.

Foram analisados seis setores econômicos — agricultura, pesca, florestas, indústria, energia renovável e turismo.
O estudou destacou a empresa brasileira de cosméticos Natura, que adotou o uso sustentável da biodiversidade como referência para inovação. O relatório lembrou que a companhia desenvolveu alternativas vegetais para as matérias-primas petroquímicas, que permitiram reduzir o uso de carbono e criar uma nova linha de produtos baseados no uso sustentável da biodiversidade.
Em 2010, lembrou o estudo, a empresa madeireira Rondobel, que atua no estado do Pará, se tornou a primeira companhia da América Latina a atender os princípios da organização não governamental (ONG) Rainforest Alliance, em prol da Verificação da Origem Legal (VLO, na sigla em inglês), que examina se a fonte da madeira é legal.

Em dezembro de 2011 a empresa foi auditada pela ONG Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) com base nos princípios da ONG Conselho de Manejo Florestal (FSC, na sigla em inglês). Em junho de 2012, a companhia recebeu um certificado da FSC por suas atividades na floresta e na serraria.
Segundo o relatório, o certificado e o comprometimento da Rondobel com a sustentabilidade e a excelência ambiental abriram novos mercados para a companhia, pois, além das vendas domésticas, a empresa agora comercializa produtos para os Estados Unidos, Europa e Panamá.

Comercialização sustentável na Amazônia

O documento também destacou a Bolsa Amazônia, atualmente em operação na Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Venezuela. A iniciativa busca a comercialização sustentável de produtos amazônicos, envolvendo comunidades rurais e as capacitando com informação.
De acordo com o estudo, os países em desenvolvimento com abundantes recursos renováveis estão em boa posição para capitalizar as oportunidades oferecidas por produtos “verdes” e podem assim aumentar sua participação no mercado internacional de bens e serviços sustentáveis.
Em 2011, as economias em desenvolvimento representaram 35% do investimento mundial em energia limpa, sendo que os investimentos no Brasil, China e Índia, responderam por quase 60 bilhões de dólares, ou 90% dos investimentos dos países em desenvolvimento.
O Brasil investiu uma soma considerável de 70 milhões de dólares em tecnologia de hidrogênio entre 2001 e 2007, e no futuro próximo objetiva aumentar esses investimentos nacionais e exportar ônibus de combustível de hidrogênio.

Certificação em alta

Enquanto ainda representa apenas uma pequena percentagem do mercado global, o comércio de produtos certificados e de bens e serviços ambientais está em crescimento em termos absolutos, diz o relatório. O mercado global de tecnologias eficientes de baixo carbono e energia, que incluem produtos de fornecimento de energia renováveis, deverá quase triplicar para 2,2 trilhões de dólares em 2020.
Segundo o relatório, como a demanda por créditos de carbono florestal nos mercados de regulamentação ainda é baixa, o investimento por empresas privadas e instituições financeiras no setor ainda está em um estágio inicial.
O documento aponta que em 2010 mais da metade do volume de comércio de créditos de carbono florestal foi fornecido pela América Latina, a maioria dos quais vieram de 28 projetos florestais no Peru e Brasil.
Para ler o relatório em inglês, clique aqui.

A perplexidade pode explicar a modéstia

Por Washington Novaes em 26/06/2012 na edição 700
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 22/6/2012

 
  

À medida que se aproxima de seu fim, esta Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), promovida pela ONU – e de onde estas linhas são escritas –, parece confirmar a previsão feita neste espaço, há algumas semanas, de que dificilmente escaparia de uma declaração final apenas genérica, sem compromissos obrigatórios, com prazos certos e cobráveis.

A crise econômico-financeira-social dificulta, por um lado, objetivos que exijam desembolsos dos países mais ricos e que permitam aos países mais carentes combater a pobreza, mudar matrizes energéticas e promover a conservação de recursos naturais. Por outro lado, embaraça políticas que levem a padrões de produção e consumo que poupem recursos e permitam enfrentar o drama da finitude de recursos planetários, que tem sido diagnosticada por economistas. Ainda por outro lado, dificulta o objetivo de valorar recursos naturais e seus serviços, impor ônus a quem os desperdiça e contribui para o seu esgotamento. Para completar, em convenções da ONU, é preciso que haja consenso para aprovar qualquer medida – consenso extremamente difícil, em razão da diversidade de interesses.

Não é de estranhar, assim, que não se tenha conseguido dar ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) o status de agência da ONU, com poderes para formular regras e exigir seu cumprimento – como ocorre com a Organização Mundial do Comércio (OMC), com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) ou a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Aprovou-se apenas “maior apoio”. Nem é de estranhar que tenha ficado no ar o apoio financeiro aos países mais pobres, para os quais se projetara um fundo de US$ 30 bilhões. Ou que se tenham postergado novos objetivos do milênio e muitas outras questões.

Avaliar a evolução
A diplomacia brasileira considerou normal que se eliminassem do documento final objetivos polêmicos para poder chegar ao consenso. As grandes ONGs, decepcionadas, espinafraram o texto. E o grande avanço acabou sendo da sociedade, com centenas de eventos e reivindicações conclamando-a a se organizar e pressionar por muito mais. Terá consequências importantes, externas e internas.
Um exemplo pode ajudar a esclarecer as dificuldades. Como praticamente não houve avanço nas Convenções do Clima e da Biodiversidade, aprovadas em 1992, nem na Agenda 21 global, decidiu-se que não seriam esses os objetivos da Rio+20 – e, sim, a “economia verde” e a governança sustentável. Mas com ressalvas. Em relação à primeira, por exemplo, para deixar claro que não poderá ser ameaça aos países não industrializados, abrir caminho para o confisco de seus recursos naturais ou entender que é este o caminho único do desenvolvimento sustentável, e não um dos caminhos.

Um documento divulgado durante a conferência pela Universidade das Nações Unidas e alguns parceiros anunciou a criação do Índice de Riqueza Inclusiva (Inclusive Wealth Report – IWR), que adiciona mais um caminho para avaliar a evolução de um país – juntando-se ao cálculo do produto interno bruto (PIB) e ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) criado pela própria ONU. Por esse novo caminho, será possível avaliar a situação dos recursos naturais, sua perdas e ganhos e o quanto tudo isso pode influir na avaliação de um país.

Coleta e tratamento de esgotos
No primeiro estudo feito, que incluiu 20 países, a China, que no período de 1990 a 2008 teve um crescimento econômico de 422%, descontadas as perdas de recursos naturais, caiu para 37%. O Brasil, que teve crescimento econômico próximo de 40%, baixou para 13%, se avaliadas as perdas de recursos naturais ao lado do capital manufaturado e do capital humano. E as avaliações podem incluir, ainda, além de índices de saúde e de relações sociais, até aspirações espirituais, a segurança ambiental, os ecossistemas e o valor de seus serviços (como fertilidade do solo, regime hídrico, equilíbrio do clima, estoques pesqueiros, potencial de recursos minerais e muitos outros) – bem como suas perdas.

Só em relação a terras agrícolas, a perda anual no mundo está em 12 milhões de hectares por ano de áreas que caminham para a desertificação (uma área equivalente à metade do estado de São Paulo). Mais de 2 bilhões de pessoas já vivem em áreas áridas.
Tudo isso pode ser decisivo também na área de florestas, em que ainda se perdem 130 mil quilômetros quadrados por ano e que precisa de investimentos (em conservação ou plantio) de US$ 40 bilhões anuais até 2050 – inclusive para ajudar a reduzir emissões prejudiciais na área do clima. Ou na área dos recursos hídricos, sobre a qual o relatório divulgado nesta semana pela Agência Nacional de Águas (ANA) mostrou que 47% dos 135 pontos monitorados nas regiões de São Paulo, Campinas, Curitiba e Goiânia apresentaram situação “péssima” ou “ruim”, principalmente por causa da deficiência na coleta e no tratamento de esgotos. Serão necessários R$ 47,8 bilhões para ampliar as redes coletoras e as estações de tratamento.

Para a próxima convenção
Quando se extrapola a questão para o âmbito global, tem-se que 2,6 bilhões de pessoas não dispõem de redes de coleta de esgotos em suas casas, segundo o Pnuma (Towards a Green Economy, 2011); 1,6 bilhão não conta com água de boa qualidade; e 1,4 milhão de crianças com menos de cinco anos morrem a cada ano por deficiências na área da água e do saneamento. E a demanda por água vai aumentar 40% em 20 anos.

São todas informações que mostram a complexidade da situação planetária. E ajudam a entender a quase perplexidade que talvez explique a modéstia da declaração aprovada na fase preliminar da Rio+20 e levada à discussão entre chefes de Estado e de governo, bem como seus representantes. Ou, ainda, a ausência de algumas das figuras mais importantes da governança mundial. Fica tudo para a próxima convenção.
***
[Washington Novaes é jornalista]

Líderes empresariais reconhecem que é preciso mudar modelo de negócios

Data: 18/04/2011 12:17
Por: Redaçao TN / Fabiano Ávila, Instituto CarbonoBrasil / PNUMA
Mais de 200 representantes de indústrias e empresas participaram da “Business and Industry Global Dialogue”, reunião patrocinada pelas Nações Unidas que chegou ao fim na última quinta-feira (15/4) em Paris. Voltado para debater o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono, o encontro discutiu a necessidade de alterar a forma de produção e comercialização de mercadorias e serviços, acabando com o modelo de “business as usual”. Apesar de reconhecer a necessidade de mudança no modelo, os empresários cobraram mais investimentos públicos para encorajar práticas sustentáveis e formas alternativas de produção.

Segundo Sylvie Lemmet, diretor da Divisão de Tecnologia, Indústria e Economia do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o engajamento do setor privado é essencial para evitar as piores consequências das mudanças climáticas e para fazer a sociedade rumar na direção de um desenvolvimento sustentável.

Os participantes do encontro puderam ainda dar suas contribuições para os temas a serem abordados na próxima Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável da ONU, que será no Rio de Janeiro em 2012.

Em fevereiro, o PNUMA publicou o “Green Economy Report” garantindo que investir cerca de US$1,3 trilhão – cerca de 2% do PIB mundial – em dez setores-chave ajudaria a estimular o desenvolvimento de um modelo econômico sustentável. Nesse documento, o programa apresenta estatísticas de estudos de caso do mundo todo, nos quais políticas governamentais já estão estimulando a transição para uma economia verde.

acesse o sumario do Estudo

As contas para mudar o mundo - WASHINGTON NOVAES

Que consequências práticas terão os acordos considerados "históricos" pelos 193 países que os firmaram na Convenção da Diversidade Biológica em Nagoya, no Japão, e relatados neste jornal (29 e 30/10) por Herton Escobar? O fato é que se conseguiu chegar a algumas regras consideradas fundamentais para a sobrevivência humana no planeta - ainda que para isso tenha sido preciso "colocar um valor monetário na vida" (31/10). Os acordos incluem: 1) Um plano estratégico com metas globais para a conservação no período 2011-2020; 2) um protocolo que define regras para o uso de recursos genéticos derivados de plantas, animais e microrganismos, bem como formatos que respeitem a soberania dos países detentores sobre esses recursos e levem à partilha de benefícios entre o detentor e outros países e suas empresas que venham a explorá-los; e 3) a intenção de firmar em 2011, em reunião na Índia, um acordo sobre mecanismos financeiros que tornem viável atingir as metas acordadas.
O ponto de partida é difícil: nenhuma das metas para a conservação previstas para o período 2000-2010 foi atingida. A questão financeira, complicada: em Nagoya os países em desenvolvimento calcularam em US$ 300 bilhões anuais (cem vezes mais que os atuais recursos) os financiamentos necessários para que façam sua parte - e até aqui apenas o Japão se disse disposto a entrar com US$ 2 bilhões. Os países mais pobres reivindicaram também a eliminação de subsídios anuais de US$ 500 bilhões que países desenvolvidos concedem a atividades com impacto negativo na biodiversidade.

Empresas buscam formas de medir danos ambientais

CIRCE BONATELLI - Agência Estado
Estadão.com
27 de agosto de 2010 17h 10

O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) vai buscar instrumentos para medir o impacto das atividades econômicas sobre a fauna e a flora na próxima Conferência das Partes sobre Biodiversidade (COP-10), que será realizada em outubro, em Nagoya (Japão). Segundo a presidente executiva do grupo, Marina Grossi, que engloba 52 empresas cujo faturamento corresponde a 40% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o objetivo não é apenas apoiar o lançamento de metas para a preservação ambiental, mas também as maneiras de atingi-las. "A mensuração dos impactos vai nos dizer quais são os principais problemas ambientais que devem ser trabalhados. É importante sistematizar as informações para que as empresas possam assumir compromissos", explicou, no intervalo do Fórum Biodiversidade e Economia, realizado na quinta-feira em São Paulo.


De acordo com o último relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), divulgado em maio, os desmatamentos e a degradação florestal geram um custo anual entre US$ 2 trilhões e US$ 4,5 trilhões. Segundo Marina, esses prejuízos afetam tanto as empresas quanto os governos, e a sua mensuração é essencial para entender as tendências da "economia verde", baseada em produtos e serviço sustentáveis. "Em 2050, as empresas não vão continuar trabalhando do mesmo jeito," disse.

Demanda por água na América Latina cresceu 76% em 15 anos >>> Radio ONU

16/07/2010

Relatório do Pnuma destaca desafios ambientais para a região, como o aumento da escassez de água; estudo cita exemplos positivos, como a reciclagem no Brasil, uma indústria nacional que emprega 170 mil pessoas.
Daniela Traldi, da Rádio ONU em Nova York.

O aumento da escassez de água, a rápida urbanização, a degradação de zonas costeiras e a perda de florestas são alguns desafios ambientais destacados em relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, para a América Latina e o Caribe.

O estudo ressalta que só a demanda por água na região subiu 76%, entre 1990 e 2004, como resultado do crescimento demográfico.

Políticas



O Pnuma alerta que governos e sociedade civil precisam trabalhar juntos para criar políticas e instituições para combater a degradação ambiental nesses países.



O relatório cita alguns exemplos, como o estímulo pelo uso de fontes alternativas de combustível no Uruguai, práticas eficientes de energia no setor de turismo no Caribe e a liderança mundial do Brasil em reciclagem, uma indústria nacional que já emprega 170 mil pessoas.



Segundo a agência, as diversas práticas inovadoras implementadas na América Latina, e em outros locais do mundo, mostram que medidas podem ser tomadas para a sustentabilidade ambiental.

Consenso
O Pnuma diz que a região é rica em biodiversidade e já existe um consenso entre vários setores sobre a necessidade de soluções para as ameaças ao meio ambiente.

O estudo afirma, inclusive, que existem políticas que podem ser alcançadas no período preparatório para a reunião Rio + 20, que deve ser realizada no Brasil em 2012.

De acordo com o Programa da ONU, o relatório "América Latina e Caribe: Perspectivas para o Meio Ambiente" será lançado em breve, mas já está disponível na internet

Mudanças Climáticas: diagnósticos graves na rota de Copenhagen

Washington Novaes, Estadão,02/10

Há umas duas semanas, um vendaval arrastou ou fez ruir dez casas na aldeia waurá, no Alto Xingu. Muitas pessoas ficaram feridas, duas mulheres gravemente. Embora surpresos com o ineditismo de um vendaval naquela área, os waurás iniciaram imediatamente a reconstrução das casas, agora preocupados em torná-las mais resistentes. O vendaval é consequência do desmatamento em todo o entorno do Parque do Xingu, pelo plantio da soja e implantação de pastos: o vento forte não encontra mais resistência, atrito, e chega a áreas aonde nunca chegara.

Estranho que pareça, os índios do Xingu mostram-se à frente de quase toda a sociedade brasileira, promovendo o que os cientistas do clima chamam de "adaptação" ao novo quadro climático naquilo que ele tem de irreversível e exige transformações muito rápidas. Construções mais resistentes são um desses caminhos, como tantos eventos no Sudeste no Nordeste do País têm mostrado ser necessário. E quem ler alguns relatórios e estudos recentes com certeza vai se alarmar e concluir que nosso atraso é muito preocupante.

Na semana passada, enquanto o G-20 não conseguia passar do terreno das intenções nessa matéria do clima, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) publicava um relatório (Climate Change Science Compendium) no qual afirma que as mudanças climáticas, no ritmo e na escala de hoje, "podem estar ultrapassando as previsões mais pessimistas feitas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas em 2006". E eventos previstos para o longo prazo podem estar muito mais próximos.

Na Europa, por exemplo, o relatório menciona o derretimento dos gelos nos Alpes e nos Pireneus; a seca extrema em áreas do Mediterrâneo; acidificação dos oceanos, com maior absorção de carbono. Também menciona a forte perda de gelos na Groenlândia e em outras áreas (60% mais que a perda recorde de 1998), que pode levar a uma elevação do nível dos oceanos de até dois metros no fim do século (ou dez vezes mais nos próximos séculos).

Amazônia, Norte da África e Índia podem ser atingidos por eventos muito fortes antes do que se previa. A perda de gelos nas montanhas pode afetar até 25% da população com falta de água para consumo, irrigação e produção de energia. Podem desaparecer alguns climas típicos de certas regiões. O Semiárido nordestino pode perder 10% de seus já escassos recursos.

Tudo isso leva o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a fazer um apelo no relatório (que sintetiza 400 estudos científicos recentes) em favor de ações imediatas. "O tempo para hesitações acabou", diz ele. E como não concordar, se a possibilidade é de aumento de 3 a 4 graus na temperatura da Amazônia em 50 anos? Se já há mudanças "irreversíveis" em toda a América do Sul, até na Patagônia, com a "redução drástica" dos gelos? Se se amiúdam eventos - que o relatório menciona - como os do Sul e do Nordeste brasileiros em 2008-2009? Se Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile enfrentaram a pior seca em 50 anos?

Não faltam, pois, sinais de alerta. As emissões globais de poluentes, que subiram 1,1% ao ano entre 1990 e 1999, aumentaram para 3,5% anuais de 2000 a 2007. E, diz o relatório, são claros e visíveis os efeitos da concentração de poluentes na elevação do nível do mar, na acidificação dos oceanos e nas mudanças de suas correntes. Com a atual tendência, os gelos polares poderão ter desaparecido até 2030.

O documento do Pnuma não foi a única advertência grave na semana passada. Relatório de 29 cientistas na revista Nature - entre eles o renomado James Hansen, da Nasa, e Robert Constanza, que se notabilizou pelos estudos sobre o valor monetário da biodiversidade - alinha nove limites planetários que não deveriam ser ultrapassados, mas já o foram ou estão próximos disso, por causa de ações humanas. Na concentração de poluentes na atmosfera, por exemplo, dizem os cientistas que não deveríamos ultrapassar 350 partes por milhão (ppm), mas já estamos em 387; na perda da biodiversidade, já fomos muito além de qualquer limite prudente; também nos ciclos do nitrogênio e do fósforo, na depleção da camada de ozônio, na acidificação dos oceanos, assim como na poluição química. Estamos próximos de atingir o limite nas mudanças no uso da terra e no uso de água por pessoa.

Enquanto a ciência mostra a gravidade do quadro, por aqui continuamos patinando. O Plano Nacional de Mudanças Climáticas continua perdido no Congresso. O novo inventário das emissões brasileiras, anuncia-se agora, só incluirá até o ano 2000. O zoneamento ecológico/econômico para a expansão do álcool permitirá que ele continue avançando no Cerrado, que está perdendo imensas áreas de vegetação a cada ano e já emite tantos poluentes quanto a Amazônia (350 milhões de toneladas/ano de CO2) . Leilões de energia continuam a prever forte participação de termoelétricas, altamente poluidoras. E por aí afora. Embora o governo continue a manifestar preocupação com o clima, ainda não aceita compromissos de redução das emissões, só metas voluntárias.

A ONG Vitae Civilis, que acompanha as convenções do clima, prevê alguns cenários alternativos para a reunião decisiva em Copenhague, em dezembro (há uma preparatória esta semana, em Bangcoc): 1) Um acordo que fique aquém da necessária redução das emissões em 40% até 2020 e 80% até 2050, para evitar que a temperatura suba além de 2 graus; 2) impasse: ao final, apenas um relatório da convenção, sem efeitos práticos; 3) um acordo apenas dos países industrializados (e de efeitos incertos); e 4) decisões da convenção que não sejam obrigatórias para todos. E seriam indispensáveis problemáticos US$ 300 bilhões anuais dos países industrializados para os demais, de modo a que estes possam fazer a mitigação e a adaptação necessárias.

No momento, diz a ONG, "a situação é muito grave".

Bota "grave" nisso.
Artigo publicado no jornal Estado de São Paulo,2/10/2009

Informação & Conhecimento