Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Fraternidade e Saúde pública: um grande desafio, artigo de Gilvander Moreira

Publicado em fevereiro 27, 2012 por
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Fraternidade e Saúde pública: um grande desafio.
Gilvander Moreira1
“A saúde é direito de todos e dever do Estado.” (Art. 196 da CF/1988)
[EcoDebate] Desde 1963, há 49 anos, a CNBB2, anualmente, durante os 40 dias da quaresma, promove a Campanha da Fraternidade – CF -, que tem colocado para estudo, reflexão e ação assuntos que são grandes desafios – clamores ensurdecedores – no seio da sociedade. O Tema da CF/2012 é “Fraternidade e Saúde pública”; o Lema: “Que a saúde se difunda sobre a terra!” (Eclo 38,8). Somos convidados conhecer as entranhas da realidade do SUS3, visitar pronto-socorros, ouvir as pessoas doentes que esperam muito para fazer exames e conseguir uma vaga para cirurgia no SUS. É hora de ouvirmos o apelo de 150 milhões de brasileiros que só tem como rara possibilidade de acessar saúde pública, via SUS.

A Organização Mundial da Saúde – OMS – definiu a saúde não como “ausência de doenças”, mas como “um estado de completo bem-estar físico, mental, social e espiritual”4. Levada a sério, esta definição coloca em questão a base da medicina moderna. Em nossos hospitais e clínicas, quantos médicos e enfermeiros compreendem a saúde de modo integral? Onde as pessoas são atendidas, visando a saúde não só física, mas também mental, social e espiritual? A medicina de órgãos, por si só, é incapaz de resgatar saúde integral.

A saúde depende também de paz interior, de equilíbrio entre a pessoa e o seu ambiente social e, finalmente, da relação entre o ser humano e o universo. Toda doença tem conexão com aforça vital e espiritual do universo. Os gregos ensinavam que a “simpatia” entre as partes do corpo e os elementos da natureza fará com que se possa encontrar remédio para tudo. Basta colaborar com a natureza.
Povos indígenas, nas mar
gens do lago Titicaca, no altiplano peruano, dizem que todo ser humano tem três almas: a física, a interior e uma que nos liga ao universo. A pessoa fica doente quando “perde” uma destas almas. A cura consiste em recuperar a alma perdida.
Infelizmente, o cristianismo incorporou da cultura ocidental uma visão dualista que fragmenta corpo e alma, matéria e espírito. Privilegia, assim, um racionalismo abstrato que faz da religião mais um sistema de crenças intelectuais do que um caminho de amor e integração. Os evangelhos da Bíblia relatam que Jesus enviou os seus discípulos e discípulas para anunciar o Reino de Deus, curando as doenças e expulsando o mal que tomava conta das pessoas. O galileu de Nazaré, pela ternura e solidariedade, curou paralíticos, perdoou pecados para que as pessoas doentes se sentissem integradas com seu eu mais profundo, com Deus, um mistério de amor que nos envolve, com a comunidade e com toda a biodiversidade. O universo tem a cura para toda doença. A saúde mais profunda está escondida no fundo do coração de todo ser humano. Unindo as cordas do universo e do coração reencontramos saúde e salvação.

A Constituição Federal de 1988 – CF/88 – afirma: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (Art. 196). No caso de crianças e adolescentes, o direito à saúde deve ser assegurado com “absoluta prioridade” (Art. 227).
Temos, no Brasil, dois sistemas de saúde: a) Um público: o SUS, para os pobres; b) Outro privado, o dos planos de saúde, que atende 25% do povo, cerca de 50 milhões de pessoas. Milhares de pessoas pobres se sujeitam a continuar em-pregado em grandes empresas, porque estas oferecem plano privado de saúde. Ou seja, o caos no SUS leva empresas a arrochar salários, pois seguram trabalhadores ao ofertarem planos privado de saúde.
Na luta por saúde pública, tivemos várias conquistas: a) a Criação e organização do SUS, que é um projeto bom, mas sobrevive desde seu nascimento na UTI, pública; b) a criação do PSF – Programa de Saúde da Família, com a ênfase na prevenção, inspiração vinda do sistema de saúde de Cuba; c) o combate contra a AIDS, elogiado pela OMS. Mas a CF/88 está sendo desrespeitada cotidianamente, pois os lindos artigos 196 e 227 estão sendo pisoteados, isso sem contar o princípio do respeito à dignidade humana e tantos outros prescritos na nossa Carta Maior.

Médicos e Aids

17/9/2010
Por Fabio Reynol
Agência FAPESP – Entre os anos de 2009 e 2010, o pesquisador Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), fez um levantamento do perfil de médicos que costumam receitar antirretrovirais (ARVs) para o tratamento da Aids no Estado de São Paulo.

Jornadas extenuantes, capacitação aquém do ideal, alta rotatividade de médicos para um mesmo paciente e má distribuição de profissionais pelo estado foram alguns dos problemas identificados no trabalho de pós-doutorado de Scheffer, que integrou um projeto coordenado por Euclides Ayres de Castilho, professor titular da FMUSP, e apoiado pela FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular.

Resultados do trabalho serão apresentados às 14 horas desta sexta-feira (17/9) no Centro de Referência e Treinamento-DST/Aids-SP, órgão da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo que fica na rua Santa Cruz nº 81, Vila Mariana, na capital paulista.

“Trata-se de um estudo inédito e que fornecerá informações que ajudarão o Programa Nacional de DST/Aids, conduzido pelo Ministério da Saúde, já que São Paulo concentra quase a metade dos médicos prescritores de antirretrovirais do Brasil”, disse Castilho à Agência FAPESP.

A Saúde dos Jovens. "Young people: not as healthy as they seem"//The Lancet/ The Global health Collection

Robert W Blum;The Lancet, Volume 374, Issue 9693, Pages 853 - 854, 12 September 2009

Ao longo dos últimos 25 anos, tem havido grandes mudanças nas causas de mortalidade e morbidade entre os jovens (idade entre 10-24 anos). A AIDS era praticamente desconhecida há 25 anos atrás, e outras doenças infecciosas, tais como infecções pulmonares, eram as principais causas de morte nesta faixa etária. O suicídio era menos comum do que é hoje, e as mortes por acidentes com veículos automotores eram muito menos freqüentes em muitos países do mundo quando comparadas à atualidade. Além disso, em 1985, as mulheres casavam se mais jovens, com menos idade do que fazem hoje,menos jovens iam para a escola, e o número de jovens que habitavam as áreas rurais também era maior, quando comparado aos dias de hoje.

Todas essas tendências têm afetado a mortalidade e morbidade nos jovens.
Outros padrões de mudança, especificamente como as mudanças demográficas, são muito importantes de se considerar quando exploramos a mortalidade de adolescentes. Hoje, quase um terço da população do mundo está com idade 10-24 anos, e em muitos países em desenvolvimento 30% ou mais da população se encaixam nessa faixa etária (em comparação com cerca de 13% na Europa, Japão, EUA e Canadá ).

Praticamente 90% dos jovens do mundo vivem em países em desenvolvimento, e durante os próximos 20 anos, essa proporção vai aumentar. Em 2025, serão 140 milhões de jovens vivendo na Europa, contra os atuais 111 milhões, enquanto que na África, a proporção de jovens aumentará de um valor de 305 milhões em 2006 para 424 milhões em 2025(um aumento maior do que toda a população de jovens na Europa).

Outros padrões globais afetam a saúde dos jovens, como a migração transnacional, a migração rural-urbana, o aumento da migração de mulheres jovens, casamentos mais tardios, e os aumentos nas taxas de educação, especialmente das meninas. Todas essas mudanças afetam os comportamentos (por exemplo, relações sexuais, antes do casamento) que predispõem para outras conseqüências, tais como infecções sexualmente transmissíveis (incluindo o HIV) e fora do casamento, gravidez e aborto, todas as quais se refletem nas estatísticas de mortalidade.

Embora a adolescência seja muitas vezes referida como a fase da vida mais saudável, o relatório de George Patton e seus colaboradores na revista The Lancet de hoje, deixa claro que os jovens correm riscos significativos de mortalidade. O relatório indica que o risco de mortalidade aumenta com a idade, que dois terços das mortes nessa faixa etária ocorrem em duas regiões especificas do mundo, e que as causas da morte do adolescente variam por região geográfica e de acordo com os recursos nacionais e pessoais.

O que distingue as causa-mortis destes jovens é que em sua maioria elas têm causas comportamentais agravadas pela política nacional do país onde vivem e/ou por falhas dos sistemas locais de saúde publica e prestação de serviços.

Nos países industrializados, os homens jovens possuem de duas a quatro vezes mais probabilidade de morrer do que as mulheres jovens, e homicídios, suicídios, e lesões provocadas por acidentes representam entre 50% e 80% da mortalidade de adolescentes. Entretanto, por causa de mortes por AIDS e da mortalidade materna, a disparidade nos padrões de mortalidade de homens jovens não é observada na África, Sul e Sudeste da Ásia, onde a maioria dos jovens do mundo vive e onde a mortalidade juvenil é mais intensa.

A OMS - Organização Mundial da Saúde, estima que mais de 250.000 mortes relacionadas a gravidez deverão acontecer no mundo inteiro. O casamento precoce na infância contribui muito para este número de mortalidade assim como a prática da mutilação genital feminina, que contribui significativamente para a morbidade.

Países onde o aborto é ilegal e clandestino, ele responde por uma mortalidade tão alta quanto 60 por cada 100.000 mulheres, em comparação com 0,6 e 1,0 por cada 100.000 mulheres, respectivamente, para o EUA e Cuba, onde o aborto é legalizado.

Em todo o mundo, mais de um quarto da mortalidade materna resulta de falhas nas políticas nacionais de aborto e, quando essas políticas são revertidas cai a mortalidade materna. Um exemplo concreto disso é a África do Sul que teve uma redução de 90% da mortalidade materna depois que adotou uma política clara tornando legalizado o ato do aborto.

Aponta o relatório que outra diferença em todo o mundo são os padrões de mortalidade atribuídos ao HIV e à sua transmissão. Na Europa e na América do Norte a transmissão ainda é principalmente entre homens que fazem sexo com homens, e dois terços dos infectados são homens. Em grande parte do sudeste da Ásia, o uso de drogas injetáveis é o modo predominante de transmissão da infecção pelo HIV.

Na África, três quartos da população de jovens está infectado pelo HIV. As mulheres jovens são duplamente expostas ao risco de contaminação por jovens do sexo masculino. Fatores que contribuem para este risco incluem a pobreza, o casamento precoce, a desigualdade de comportamento entre os gêneros sexuais, mitos e crenças sobre o HIV e os fatores biológicos (por exemplo, a imaturidade do colo do útero, e uma maior exposição ao risco de mulheres jovens quando comparadas aos rapazes).

O suicídio também conta como uma das principais causas de morte em pessoas jovens. Em todo o mundo, é apontada como a quinta causa em grande parte da Europa e América do Norte. Na China se classifica em segunda ou terceira e na Índia, é a principal causa de morte nesta idade.

Historicamente, as taxas são baixas em países da América Latina, África Subsaariana, o Mediterrâneo, e em nações muçulmanas.

Especificamente, quando Diekstra e Hawton estudaram a tendência secular de suicídio na Europa, durante grande parte do século 20, relataram um conjunto de fatores não muito diferentes de grande parte do mundo em desenvolvimento hoje, como por exemplo, aumento do desemprego, desestruturação familiar, homicídio, uso de álcool, a secularização da sociedade, a superpopulação, estresse urbano e conflitos sociais. 7

O relatório observa ainda que as lesões provocadas por acidentes são as principais causas de morte para homens jovens em todas as regiões do mundo, sendo que a maioria das mortes está associada á veículos automotores. Apesar das mortes por lesão serem apontadas como responsáveis por mais da metade dos óbitos masculinos na segunda década de vida, a mortalidade em muitos países, caiu em 30% ou mais nos últimos 20 anos.

Fatores que têm contribuído para que esta redução: estabelecimento de uma idade mínima para a compra de álcool;maior especificação nos procedimentos para obtenção de licenças de condução de veículos; adequação da segurança rodoviária (por exemplo,novos equipamento de suporte nas rodovias, postes de luz, redesenho das sinalizações); melhoria dos padrões de segurança dos veículos (por exemplo, airbags); as leis de cinto de segurança;exigência do uso de capacetes e endurecimento das leis de transito.

Em vista de nossa compreensão atual sobre mortalidade juvenil, pelo menos 75% de todas as mortes na segunda década de vida poderiam ser evitadas através da implementação de métodos preventivos e estabelecimento de estratégias de intervenção. Sabemos que o acesso a contraceptivos e serviços de planejamento familiar reduzem a gravidez não planejada. Sabemos que o aborto seguro, reduz a mortalidade materna, que a educação e a capacitação melhora os seus aspectos correlatos à saúde feminina em muitas dimensões e ajuda a criar novas alternativas para as mulheres jovens.

Sabemos que as políticas de segurança rodoviária e de condução reduzem a mortalidade nos acidentes nas estradas. Nós sabemos o suficiente sobre intervenções efetivas para poder basear o nosso trabalho em ações que realmente surtam efeito positivo.

Sabemos também que a redução de risco por si só é insuficiente, nós precisamos construir os fatores de defesa que protegerão os jovens da adversidade.

Os desafios são grandes, mas assim também o são as oportunidades.

Acesse o artigo " Young people: not as healthy as they seem" na revista THE LANCET:
http://www.thelancet.com/collections/global-health?collexcode=110






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