Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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A Grécia, o euro e nós /// Estadão.com.br

21 de maio de 2010 0h 00
DIONISIO DIAS CARNEIRO - O Estado de S.Paulo

A naturalidade com que vários analistas têm examinado as possibilidades de fim do euro como moeda supranacional contrasta com a atribulada história que precedeu a sua criação. No momento da entrada em circulação da moeda unificada, recebi, junto com o primeiro troco e a bisnaga da manhã, uma longa explicação de uma atendente de padaria numa pequena cidade dos Alpes franceses. Falou-me do significado, para as famílias europeias, como a dela, que perderam tantas vidas em guerras, do sonho de ver uma Europa forte e unida. Enquanto eu, economista cético, especulava se o seu entusiasmo aguentaria uma recessão forte em que ela visse os empregos franceses serem tomados por vizinhos dispostos a aceitar salários menores, minha interlocutora discorria sobre o valor simbólico da moeda única. Desde então, passei a achar natural que a unificação monetária da Europa fosse vista como um experimento que ultrapassa as fronteiras da viabilidade econômica.

A atual crise grega mostra a precariedade dos arranjos econômicos, diante da capacidade de que os líderes políticos dispõem quando, para tomar ou manter o poder, decidem usar o gasto público para capturar eleitores. Não hesitam em abusar do imaginário da população, desenhando com uma retórica falsa os contornos de um futuro melhor. Na Grécia, os socialistas de Papandreou ignoraram as restrições econômicas intertemporais, valendo-se do sonho da unidade europeia. Reafirmaram o discurso das promessas impossíveis, mesmo depois de soarem todos os sinais de alarme. Hoje, a população nas ruas incendeia bancos, recusa-se a abandonar os símbolos e cobra do governo as promessas, que requerem independência para gastar.

Os eventos das últimas semanas mostram que o futuro do euro não depende apenas dos políticos que abusaram dos benefícios da moeda única. Depende de um acordo entre os contribuintes alemães e os beneficiários dos programas gregos. Diante das dificuldades para intermediar esse acordo, políticos tentam obter a solução via desmoralização do Banco Central Europeu (BCE), em plena crise de confiança.

Uma combinação de moratória ordenada da Grécia com ação coordenadora do FMI para um esforço fiscal conjunto (com ou sem a criação de um fundo europeu), aliada a uma reforma sobre sanções e deveres para os países-membros e um aumento do poder do BCE sobre o sistema bancário dos diferentes países, pode evitar a saída de algum país do sistema. Uma eventual saída é vista por alguns, indevidamente, como o fim da moeda europeia.

Para o Brasil, o esforço de sobrevivência do euro contém lições importantes. A primeira e mais óbvia é que a estabilização e o equilíbrio macroeconômico não são independentes da disciplina fiscal. Outra lição é que nem a responsabilidade fiscal nem a inflação baixa são conquistas garantidas, exceto quando os eleitores estão mobilizados para as causas da instabilidade, como estão os alemães, e não para os benefícios da mesma, como gregos e brasileiros. Em comum com os gregos temos políticos em disputa por votos, que brigam pela paternidade dos benefícios sem custos.

Outra lição é que precisamos lidar com uma nova realidade de enfraquecimento político dos bancos centrais, e isso é indesejável para um país com a tolerância inflacionária do Brasil. Nos EUA, a proposta de uma auditoria para as decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) representa uma mudança radical no papel do Fed. Na eurozona, o anúncio da compra de títulos pelo BCE sem requisitos de avaliação de risco, um dia após a declaração do presidente Jean-Claude Trichet, que reafirmou sua "feroz" independência, foi a solução para impedir outra crise de liquidez interbancária (ver entrevista no Estadão de domingo).

No Brasil, o candidato do PSDB declara-se contra a independência do Banco Central (BC) e a candidata do PT mostra que não sabe o que é restrição fiscal. Para ambos algo a pensar: quem leva a sério a responsabilidade fiscal não precisa tirar a independência do BC. Quem não leva não merece mandar no BC.

ECONOMISTA, É DIRETOR DA GALANTO CONSULTORIA E DO IEPE/CDG

Realismo de pacote de ajuda à Grécia é elogiado por economistas /// Reuters

Plantão Publicada em 02/05/2010 às 11h59m

Reuters/Brasil Online

Comentários..Por Noah Barkin e Lefteris Papadimas

ATENAS (Reuters) - A Grécia prometeu fazer cortes ainda mais profundos em seu orçamento sob um pacote de austeridade anunciado neste domingo, mas ainda levará dois anos para reduzir seu déficit para níveis abaixo dos limites da União Europeia.

O acordo com a UE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi elogiado por economistas por fazer um retrato mais realista da economia grega e da redução do déficit do país do que o governo havia pintado anteriormente.

Sob os novos planos, a Grécia espera que seu Produto Interno Bruto (PIB) se contraia 4 por cento em 2010, contra uma previsão anterior do governo de queda de 2,85 por cento. A economia deve voltar a crescer em 2012, não em 2011 como se afirmava anteriormente.

"As medidas que estão sendo tomadas agora são aquelas que os economistas vinham pedindo há anos", disse Gikas Hardouvelis, professor de economia da Universidade Piraeus. "Minha visão é de que eles são suficientes para tirar a Grécia da crise."

O ministro das Finanças, George Papaconstantinou, disse em entrevista coletiva que a ajuda, que abrirá caminho para um pacote de resgate da UE e do FMI que deve chegar a 120 bilhões de euros, incluirá uma redução no déficit orçamentário de 30 bilhões de euros em três anos, número maior do que muitos esperavam.

Mas o déficit cairá de forma mais lenta, chegando a 8,1 por cento do PIB em 2010, contra 13,6 por cento no ano passado, e depois indo a 7,6 por cento em 2011 e 6,5 por cento em 2012. Ele não cairá para baixo do limite da UE, de 3 por cento do PIB, até 2014.

As previsões para a redução da dívida também se tornaram mais modestas. Estimativas anteriores do governo davam conta que a dívida chegaria a 120,6 por cento do PIB em 2011. Sob os novos planos, a dívida continuará crescendo por quatro anos e atingirá 150 por cento do PIB em 2013.

Papaconstantinou disse que as medidas incluíam uma elevação no imposto sobre valor agregado (IVA) para 23 por cento, contra 21 por cento; um aumento adicional de 10 por cento na taxação sobre combustível, álcool e tabaco e uma redução ainda maior nos salários e aposentadorias do setor público.

(Reportagem adicional de Renee Maltezou, Harry Papachristou e Dina Kyriakidou)

Contágio na Europa /// BBC

Rogério Simões 2010-04-28, 18:15

A palavra do momento aqui na Europa é "contágio". O termo, se utilizado na área da economia, foi nas últimas décadas associado às regiões menos estáveis do mundo, Ásia, África e América Latina. A crise do petróleo contagiou os latino-americanos nos anos 70 e causou a crise da dívida brasileira dos 80. A crise asiática de 1997 contagiou todo o mundo em desenvolvimento. A crise russa do ano seguinte agravou a situação, contagiando os países emergentes, num processo que anos depois acabou praticamente quebrando a Argentina. Era crise que não parava mais, com um contágio atrás do outro. Mas agora temos uma novidade: o contágio europeu.

O estado da economia europeia, que depois da crise financeira de 2008/09 continou na UTI, agravou-se com os crescentes sinais de que os problemas da Grécia eram mais graves do que se pensava. Agora sabe-se que o país precisa de uma ajuda realmente de peso dos seus parceiros da zona do euro (leia-se Alemanha e França). Claro, fazia tempo que a crise na Grécia era séria, mas na terça-feira entrou em campo um dos mais temidos personagens de qualquer crise econômica: a agência de avaliação de risco. A Standard & Poor's, dos Estados Unidos, divulgou que passava a considerar a dívida grega como de alto risco (caiu de BB+ para BBB-). Ou seja, quem é credor dos gregos pode se acostumar, segundo a agência, com a possibilidade de não receber seu dinheiro de volta. Quando isso acontece, é normal que todos comecem a olhar em volta para ver se o problema grego não se espalhou para outros países.

Antes mesmo da especulação sobre outras nações em apuros, a Standard rebaixou a dívida também de Portugal, que está num nível significamente melhor do que a grega, para A-. A mesma agência foi além nesta quarta-feira, reduzindo o status da dívida da Espanha, de AA+ para AA. As bolsas europeias tiveram um dia terrível na terça e voltaram a operar no vermelho nesta quarta. O contágio europeu continua e pode ser maior. O diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, alertou que a crise grega pode se espalhar por toda a Europa.

Aqui na Grã-Bretanha, apesar de a moeda ser diferente, o medo do contágio é real. A libra segue desvalorizada, diante dos problemas econômicos do país, que tem hoje um déficit recorde no período pós-Segunda Guerra. Muitos aqui já se perguntam se os britânicos terão o mesmo destino dos gregos. A resposta poderá vir em breve, já que na próxima quinta o país escolhe um novo governo. Os economistas já avisam: qualquer que seja o vencedor terá de reduzir drasticamente o déficit para fugir desse contágio europeu, o que significa corte de gastos públicos e aumento de impostos. Exatamente o mesmo que manifestantes nas ruas de Atenas vêm, há meses, tentando evitar. Se o remédio amargo tiver de ser dado, protestos semelhantes podem até aparecer nas ruas de Londres. E, mesmo assim, como em toda epidemia, a proteção do contágio não estará garantida.

Informação & Conhecimento