Publicado em fevereiro 8, 2012 por HC
Há interpretações clássicas sobre a formação da nação-Brasil. Mas esta do cientista político Luiz Gonzaga de Souza Lima é seguramente singular e adequada para entender o Brasil no atual processo de globalização: A Refundação do Brasil: rumo a uma sociedade biocentrada (Rima,São Carlos 2011). Seu ponto de partida é o fato brutal da invasão e expropriação das terras brasileiras pelos “colonizadores” à base da escravidão e da superexploração da natureza.
Não vieram para fundar aqui uma sociedade mas para montar uma grande empresa internacional privada, uma verdadeira agro-indústria, destinada a abastecer o mercado mundial. Ela resultou da articulação entre reinos, igrejas e grandes companhias como a das Índias Ocidentais, Orientais, a Holandesa (de Mauricio de Nassau), com navegadores, mercadores, banqueiros, não esquecendo as vanguardas modernas, dotadas de espírito de aventura e de novos sonhos, buscando novos conhecimentos e enriquecimento rápido.
Ocupada a terra, para cá foram trazidas matrizes (cana de açúcar e depois café), tecnologias modernas para a época, capitais e escravos africanos. Todos eram considerados “peças” a serem compradas no mercado e como carvão a ser consumido nos engenhos de açúcar. Com razão afirma Souza Lima: ”o resultado foi o surgimento de uma formação social original e desconhecida pela humanidade até aquele momento, criada unicamente para servir à economia; no Brasil nasceu o que se pode chamar de ‘formação social empresarial”.
A modernidade no sentido da utilização da razão produtivista, da vontade de acumulação ilimitada e da exploração sistemática da natureza, da criação de vastas populações excluídas, nasceu no Brasil e na America Latina. O Brasil, neste sentido, é novo e moderno desde suas origens.
A Europa só pôde fazer a sua revolução, chamada de modernidade, com seu direito e instituições democráticas, porque foi sustentada pela rapinagem brutal feita nas colônias. Com a independência política do Brasil, a formação social empresarial não mudou sua natureza. Todos os impulsos de desenvolvimento ocorridos ao longo de nossa história, não conseguiram diluir o caráter dependente e associado que resulta da natureza empresarial de nossa conformação social. A tendência do capital mundial global ainda hoje é tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado. Ao Brasil cabe ser o grande fornecedor de commodities para o mercado mundial, sem ou com parca tecnologia e valor agregado.
A empresa Brasil é a categoria-chave, segundo Souza Lima, para se entender a formação histórica do Brasil e o lugar que lhe é assinalado no processo atual de globalização desigual.
O desafio consiste em gestar um outro software social que nos seja adequado, que nos desenhe um futuro diferente. A inspiração vem de algo bem nosso: a cultura brasileira. Ela foi elaborada pelos escravos e seus descendentes, pelos indígenas que restaram, pelos mamelucos, pelos filhos e filhas da pobreza e da mestiçagem. Gestaram algo singular, não desejado pelos donos do poder que sempre os desprezaram e nunca os reconheceram como sujeitos e filhos e filhas de Deus.
O que se trata agora é refundar o Brasil, “construir, pela primeira vez, uma sociedade humana neste território imenso e belo; é habitá-lo, pela primeira vez, por uma sociedade humana de verdade, o que nunca ocorreu em toda a era moderna, desde que o Brasil foi fundado como uma empresa; fundar uma sociedade é o único objetivo capaz de salvar nosso povo”.Trata-se de passar do Brasil como Estado economicamente internacionalizado para o Brasil como sociedade biocentrada.
Ao refundar-se como sociedade humana biocentrada, o povo brasileiro deixará para trás a modernidade apodrecida pela injustiça e pela ganância e que está conduzindo a humanidade para um abismo. Não obstante, esta modernidade entre nós, bem ou mal, nos ajudou a forjar uma infra-estrutura material que pode permitir a construção de uma biocivilização que ama a vida em todas as suas formas, que convive pacificamente com as diferenças, dotada de incrível capacidade de integrar e de sintetizar os mais diferentes dados e valores.
É neste contexto que Souza Lima associa a refundação do Brasil às promessas de um mundo novo que deve suceder a este que está agonizando, incapaz de projetar qualquer horizonte de esperança para a humanidade. O Brasil poderá ser um nicho gerador de novos sonhos e da possibilidade real de realizá-los em harmonia com a Mãe Terra e aberto a todos os povos.
Leonardo Boff é autor de “Depois de 500 anos, que Brasil queremos, Vozes, Petropolis 2000.
Análise originalmente publicada no blogue pessoal de Leonardo Boff
EcoDebate, 08/02/2012
Carta da Terra
"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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A retomada do desenvolvimentismo
Com a retomada do desenvolvimentismo, o Brasil aposta na constituição de um mercado de consumo, na redistribuição de renda e no adensamento das classes médias, avalia o economista André Cunha
Por: Patrícia Fachin
“Temos de pensar a cara do mundo nos próximos anos e o papel que o Brasil virá a ter, ou seja, desafios velhos estão repostos hoje e isso tem a ver com a nova rotação do mundo”, constata André Cunha, em entrevista concedida à IHU On-Line, concedida por telefone.
Segundo o economista, a ascensão da China e da Índia representa um mercado em potencial para o Brasil, pois, em função do processo de urbanização desses países, a tendência é de que o valor das commodities se mantenha elevado.
Por outro lado, a nova conjuntura geopolítica coloca o país em um dilema: continuar exportando commodities ou investir na industrialização. De acordo com André Cunha, “seria extremamente perverso, para o processo de desenvolvimento do Brasil, o país abrir mão de ter uma estrutura produtiva diversificada e densa. O desafio é preservarmos a indústria brasileira”. Para isso, menciona, “o país não precisa abrir mão das exportações de commodities”.
André Moreira Cunha possui graduação em Ciência Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestrado e doutorado na mesma área pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Sua dissertação analisou Empresas Transnacionais na Economia Brasileira dos anos 80 e 90. Foi professor visitante na Universidade de Leiden, na Holanda, e docente da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Atualmente leciona na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Pesquisador associado do Centro de Estudios Brasileños del Instituto Universitario de Investigación Ortega y Gasset, na Espanha.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Que modelo de desenvolvimento está em curso no Brasil?
André Moreira Cunha – O Brasil, a partir da crise do modelo nacional-desenvolvimentista dos anos 1980, entrou numa longa trajetória de baixo crescimento, expressa, principalmente, na inflação alta. O que tem marcado o período recente, dos anos 2000, 2004 em diante, é uma retomada do dinamismo, do crescimento econômico acima do que vínhamos crescendo há quase um quarto de século, e uma aceleração deste ritmo de expansão combinada com uma performance em termos de inflação bastante melhor do que a média histórica.
Por: Patrícia Fachin
“Temos de pensar a cara do mundo nos próximos anos e o papel que o Brasil virá a ter, ou seja, desafios velhos estão repostos hoje e isso tem a ver com a nova rotação do mundo”, constata André Cunha, em entrevista concedida à IHU On-Line, concedida por telefone.
Segundo o economista, a ascensão da China e da Índia representa um mercado em potencial para o Brasil, pois, em função do processo de urbanização desses países, a tendência é de que o valor das commodities se mantenha elevado.
Por outro lado, a nova conjuntura geopolítica coloca o país em um dilema: continuar exportando commodities ou investir na industrialização. De acordo com André Cunha, “seria extremamente perverso, para o processo de desenvolvimento do Brasil, o país abrir mão de ter uma estrutura produtiva diversificada e densa. O desafio é preservarmos a indústria brasileira”. Para isso, menciona, “o país não precisa abrir mão das exportações de commodities”.
André Moreira Cunha possui graduação em Ciência Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestrado e doutorado na mesma área pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Sua dissertação analisou Empresas Transnacionais na Economia Brasileira dos anos 80 e 90. Foi professor visitante na Universidade de Leiden, na Holanda, e docente da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Atualmente leciona na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Pesquisador associado do Centro de Estudios Brasileños del Instituto Universitario de Investigación Ortega y Gasset, na Espanha.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Que modelo de desenvolvimento está em curso no Brasil?
André Moreira Cunha – O Brasil, a partir da crise do modelo nacional-desenvolvimentista dos anos 1980, entrou numa longa trajetória de baixo crescimento, expressa, principalmente, na inflação alta. O que tem marcado o período recente, dos anos 2000, 2004 em diante, é uma retomada do dinamismo, do crescimento econômico acima do que vínhamos crescendo há quase um quarto de século, e uma aceleração deste ritmo de expansão combinada com uma performance em termos de inflação bastante melhor do que a média histórica.
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