Publicado em fevereiro 8, 2012 por HC
[EcoDebate] A população mundial passou de 2,5 bilhões de habitantes para 7 billhões entre 1950 e 2011. No mesmo período a população urbana passou de 730 milhões (29%) para 3,6 bilhões de habitantes (51% da população total). Enquanto a população total cresceu 2,8 vezes, a população urbana cresceu 4,9 vezes, em seis décadas, segundo dados da divisão de população da ONU.
As projeções para 2050 indicam uma população mundial de 9,3 bilhões de habitantes, sendo 6,3 bilhões no meio urbano, o que significará cerca de 70% da população mundial vivendo em cidades. Ou seja, nas próximas quatro décadas a população rural do mundo vai diminuir de 3,4 bilhões de habitantes para 2,8 bilhões, enquanto a população urbana vai absorver todo o contingente de pessoas que vão nascer (2,3 bilhões) mais a migração líquida dos 600 bilhões que vão sair do rural para o urbano. Ou seja, a população urbana do mundo vai passar dos atuais 3,6 bilhões para 6,3 bilhões de habitantes em 2050, um acrescimo de 2,7 bilhões de pessoas nas cidades em apenas 40 anos.
Portanto, em termos absolutos, a humanidade vai ter o maior crescimento urbano para um período de quatro décadas, de toda a história. Isto é bom ou ruim?
Evidentemente, um crescimento demográfico de mais de 2 bilhões de habitantes em 40 anos vai ser um grande desafio para o mundo humano e não-humano, pois as atividades antrópicas já ultrapassaram em cerca de 50% a capacidade de regeneração do Planeta. Para pressionar ainda mais os recursos naturais, o crescimento populacional deve vir acompanhado de crescimento econômico. Estima-se que o PIB mundial vai crescer entre 3 e 4 vezes entre 2010 e 2050, com enorme impacto na pegada ecológica. Portanto, os desafios vão ser realmente de enormes proporções.
Mas a questão que se coloca é a seguinte: é melhor enfrentar os desafios do crescimento populacional na cidade ou no campo?
Existem muitas pessoas saudosistas que falam em des-urbanização ou até mesmo “desmigração”. Alguns sonham com uma casa no campo, de preferência de “pau-a-pique e sapê, com carneiros e cabras pastando solenes no jardim”, como na música de Zé Rodrix. Mas o próprio mundo rural atualmente é bastante diferente do que foi no passado e a urbanidade já avançou para além das cercas que dividem o campo da cidade.
Diversos estudos mostram que os indicadores sociais e econômicos melhoram com o aumento da urbanização. Os países mais urbanizados tendem a ter maior renda, maior nível educacional, menor mortalidade infantil, maior esperança de vida, maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), menores níveis de violência, menor proporção de pessoas passando fome, menor mortalidade materna, menor desigualdade de gênero, etc. Em geral, a concentração urbana permite ganhos de escala e ganhos do efeito de aglomeração, ao contrário da dispersão rural ou das pequenas cidades.
David Owen, no livro Green Metropolis, mostra que os impactos ambientais (emissões, resíduos, ou consumo de terra per capita) é menor nas cidades densas do que nas cidades espraiadas ou nos países com população rural dispersa. Ele mostra que Nova Iorque, especialmente Manhattan, é muito mais eficiente no uso da energia e tem menor pegada ecológica per capita do que cidades como Washington ou Los Angeles. Por exemplo, a verticalização das moradias e escritórios torna mais eficiente o transporte coletivo, pois seria impossível manter metrôs e trens de alta velocidade em áreas rurais ou mesmo em áreas suburbanas de baixa densidade populacional.
O fato é que a urbanização é uma tendência que veio para ficar e vai se expandir nas próximas décadas, como bem mostrou o demógrafo George Martine, no relatório do UNFPA de 2007. Portanto, a discussão mais interessante é como tornar as cidades mais sustentáveis e ecologicamente mais amigáveis. A construção de cidades ecológicas pode ser um caminho nesta direção, especialmente para a China que tinha 64 milhões de habitantes (12% do total) vivendo nas cidades em 1950, passou para 635 milhões em 2010 (47%) e deve ultrapassar 1 bilhão de habitantes (73%) em 2050.
A cidade de Tianjin Eco-city, na China, está sendo construída para receber até 350 mil habitantes e pretende inovar em termos de transporte coletivo, utilização da água, reciclagem de resíduos, construções de prédios ecológicos, uso de energias renováveis, baixa emissão de dióxido de carbono, etc. O projeto deve estar pronto por volta de 2020 e pretende ter mais sucesso do que outros projetos de ecópoles como Dongtan (perto de Xangai) e Masdar (perto de Abu Dhabi). A construção de Tianjin Eco-City tem sido feito em parceria com Cingapura, país 100% urbanizado e que tem um inovador sistema de tratamento de lixo e resíduos sólidos (aterro Pulau Semakau).
Como a literatura mostra, voltar com a população mundial para o campo não é viável, nem em termos ecológicos e nem em termos das liberdades individuais, pois as pessoas têm o “Direito à Cidade”. Assim, qualquer solução ecológica envolvendo a população mundial tem que passar pelo meio urbano.
Resta saber se estas cidades ecológicas vão conseguir redirecionar o processo de urbanização, evitando os problemas de poluição atmosférica, sonora, visual, destruição dos córregos, falta de saneamento básico, acúmulo de lixo, favelização, congestionamentos de automóveis, baixa mobilidade, etc. De fato, é cada vez mais urgente se buscar soluções para conciliar as condições ecológicas com a crescente urbanização, pois inchar e amontoar pessoas em cidades não resolve nem os problemas urbanos e nem os ambientais.
Construir algumas cidades ecológicas pode até ser relativamente fácil, dificil vai ser tornar todas as demais cidades sustentáveis, com economia de baixo carbono e com baixo impacto ambiental.
José Eustáquio Diniz Alves, colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
EcoDebate, 08/02/2012
Carta da Terra
"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Nove ações humanas que ameaçam a terra
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Unknown
em
9/01/2011 04:12:00 AM
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crise ambiental
Publicado em setembro 1, 2011 por HC
Falta de oxigênio na água doce, branqueamento de corais nos mares, inclusão de poluentes químicos na cadeia alimentar, esgotamento dos recursos hídricos, diminuição da capacidade dos oceanos de fixar carbono, deslizamentos de terra, queda ou aumento na produtividade de cultivos…
A reportagem é de Karina Ninni e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 31-08-2011.
Boa parte desses fenômenos tem sido atribuída ao ciclo do carbono e ao aquecimento global. Mas, há alguns anos, cientistas vêm defendendo que a estabilidade característica do período Holoceno (os últimos 10 mil anos), que permitiu o desenvolvimento da humanidade, depende de vários sistemas interconectados – além do ciclo do carbono – que o homem também modifica. São as “fronteiras planetárias”, segundo definição de Johan Rockström, do Stockholm Resilience Centre, na Suécia.
Fronteiras
Rockström e colegas de diversas especialidades estabeleceram nove “fronteiras” de atuação humana: perda de biodiversidade, lançamento de aerossol na atmosfera, poluição química, mudança climática, acidificação dos oceanos, redução da camada de ozônio, ciclos do nitrogênio e do fósforo, consumo global de água e mudança no uso do solo. Para seis delas, os cientistas sugerem limites de intervenção e concluem que, em três dessas fronteiras, nós já ultrapassamos os limites: perda de biodiversidade, ciclo do nitrogênio e mudança climática.
“As fronteiras definem os limites seguros para a ação humana e estão associadas aos processos e subsistemas biofísicos do planeta”, afirma o cientista. Seu artigo A safe operating space for humanity (“Um espaço operacional seguro para a humanidade”, em tradução livre), foi tema de um evento no mês passado na University College London, na Grã-Bretanha, às vésperas da 17.ª COP, em Durban, África do Sul.
“Estamos em um momento importante para o mapeamento das vulnerabilidades do planeta. Mas, em alguns casos, não sabemos nem mesmo quais são elas”, afirma o pesquisador Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
“Por mais que tentemos encarar esses limites de forma única, eles estão entrelaçados. Se aumenta a quantidade de carbono na atmosfera, provocando aquecimento, interfere-se na permanência das florestas e na manutenção dos recursos hídricos”, exemplifica Lúcio Bede, biólogo e membro da Conservação Internacional (CI).
Uma outra fronteira problemática é a do ciclo do nitrogênio, muito utilizado na formulação de fertilizantes agrícolas. “O que a planta não absorve vai ser oxidado ou reduzido até chegar ao N2 (nitrogênio em estado gasoso) que vai para a atmosfera. O problema é quando essas reações não se fecham em N2, mas em formas mais reativas, que são os óxidos nitrosos, gases com potencial de causar efeito estufa maior até que o do CO2″, explica Fabrício Butierres, engenheiro químico e professor da Universidade Federal do Rio Grande.
“O nitrogênio em forma de nitrito ou amoniacal vai para as águas e causa eutrofização (falta de oxigênio), provocando perda de biodiversidade”, diz.
Conhecimento empírico
A constatação dessas conexões entre as fronteiras levou Rockström e seus colegas a estipular limites para as operações humanas. Mas, em alguns casos, segundo especialistas, esses limites não se aplicam.
“Os limites usados são medidas únicas. Mas poluição química é outra coisa: existem inúmeros tipos de poluentes”, explica Márcia Caruso Bicego, professora do Instituto Oceanográfico da USP, especialista em oceanografia química. “Muitos efeitos dos poluentes nós conhecemos pelas catástrofes: todo mundo sabe o que o mercúrio provoca, por causa do acidente de Minamata, no Japão. Todo mundo sabe o que acontece se alguém ingerir uma cápsula de césio-137, porque uma menininha em Goiás fez isso”, explica ela.
PERDA DE HÁBITAT, POLUIÇÃO E EXÓTICAS
A extinção de espécies é natural e aconteceria mesmo sem a intervenção humana. Mas está ocorrendo de forma acelerada: a taxa de extinção está entre cem e mil vezes maior do que seria natural. Os vilões são a perda de hábitat, a poluição e as espécies exóticas. Hoje, estão ameaçados de extinção 25% dos mamíferos, 12% das aves, 25% dos répteis, 20% dos anfíbios, 30% dos peixes e 12,5% das plantas.
Limites propostos: O estudo propõe uma taxa de extinção de até 10 espécies por milhão ao ano. Atualmente, perdemos mais de cem.
CHUVA ÁCIDA, EFEITO ESTUFA E MORTANDADE
O excesso de nitrogênio tem desdobramentos como aumentar a quantidade de nutrientes nas águas doces (provocando morte dos organismos). Sua interação com o oxigênio forma os óxidos de nitrogênio, que aumentam o efeito estufa. Reagindo com o hidrogênio, induz a ocorrência de chuva ácida, que pode corroer estruturas de metal e concreto nas cidades e interferir nos cultivos agrícolas no campo.
Limites propostos: Sugere-se a retirada de 35 milhões de ton/ano de N2 da atmosfera para uso humano. Hoje são retiradas 121 milhões ton/ano.
FOGO E DESMATAMENTO GERAM VULNERABILIDADE
O Protocolo de Kyoto não considera emissões oriundas de queima de biomassa, somente aquelas derivadas de processos industriais. Mas, no Brasil, cerca de 75% das emissões são derivadas de queimadas e desmatamento. Esse tipo de emissão modifica o clima local e as características da vegetação “de contato”, aquela que restou nos arredores do que foi retirado. Ela fica mais suscetível a incêndios.
Limites propostos: Hoje as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera são de 387 partes por milhão (ppm). O estudo propõe 350 ppm.
MARES MAIS ÁCIDOS PREJUDICAM CORAIS
A acidificação dos oceanos é um processo que vem se acentuando conforme aumenta a concentração de carbono na atmosfera. Quando o CO2 se dissolve na água do mar, ele forma o ácido carbônico, tornando a água mais corrosiva. Quem mais sofre com a acidificação são os organismos como corais, moluscos e conchas.
Limites propostos: Os cientistas sugerem que o nível de saturação de aragonita (forma cristalina do carbonato de cálcio) na superfície do mar seja de 2,75. Hoje é de 2,9.
FALTA DE OZÔNIO PODE ESTAR EVITANDO DEGELO
A principal causa da destruição é o uso de produtos químicos presentes em aerossóis, geladeiras e extintores de incêndio. É a camada de ozônio que protege os seres vivos dos efeitos nocivos dos raios ultravioleta. Porém, segundo estudos recentes, a ausência de ozônio sobre a Antártica pode estar ajudando a retardar o derretimento do gelo, pois a coluna atmosférica sobre a região absorve menos radiação.
Limites propostos: A redução da camada de ozônio não deve ultrapassar as 276 unidades Dobson (menor unidade de medida usada nas pesquisas sobre ozônio). Hoje é de 283.
BIODIVERSIDADE GARANTE ÁGUA POTÁVEL
As matas ciliares são as grandes responsáveis pela qualidade da água potável do mundo. Estima-se em 1,35 milhão de km3 o volume total de água na Terra. Desse total, 2,5% é de água doce, mas que se encontra em geleiras ou aquíferos de difícil acesso. E 0,007% é de água doce encontrada em rios, lagos e na atmosfera, que representa o que podemos realmente usar.
Limites propostos: Calcula-se que a humanidade use hoje cerca de 2,6 mil km3 de água por ano. O estudo propõe um teto de 4 mil km3/ano.
PARTÍCULAS DE AEROSSOL AFETAM CHUVAS
A quantidade de aerossol na atmosfera (partículas suspensas oriundas das atividades humanas e dos processos naturais) afeta diretamente a ocorrência de chuvas. O excesso de aerossol diminui a incidência pluviométrica e faz as gotas de chuva ficarem menores, às vezes evaporando antes de chegar ao chão. Os processos naturais de geração do aerossol estão associados com a ação do vento no solo e nas rochas, no mar, e ainda com vulcões e queimadas.
Limites propostos: Não há limites mínimos ou máximos de aerossol na atmosfera.
FLORESTA VIRA LAVOURA E CASA OCUPA MORRO
Algumas das consequências do uso equivocado do solo são bem conhecidas: deslizamentos e tragédias. A ocupação de topos de morro e regiões costeiras suscetíveis à erosão facilitam a ocorrência de acidentes na época de chuva. A mais impactante faceta dessa “fronteira” é a transformação de florestas em pastagens e áreas agrícolas, com o uso de fertilizantes e pesticidas.
Limites propostos: O limite sugerido para transformação da superfície terrestre em áreas cultivadas é de 15%. Hoje, já transformamos 11,7%.
(Ecodebate, 01/09/2011) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.
Falta de oxigênio na água doce, branqueamento de corais nos mares, inclusão de poluentes químicos na cadeia alimentar, esgotamento dos recursos hídricos, diminuição da capacidade dos oceanos de fixar carbono, deslizamentos de terra, queda ou aumento na produtividade de cultivos…
A reportagem é de Karina Ninni e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 31-08-2011.
Boa parte desses fenômenos tem sido atribuída ao ciclo do carbono e ao aquecimento global. Mas, há alguns anos, cientistas vêm defendendo que a estabilidade característica do período Holoceno (os últimos 10 mil anos), que permitiu o desenvolvimento da humanidade, depende de vários sistemas interconectados – além do ciclo do carbono – que o homem também modifica. São as “fronteiras planetárias”, segundo definição de Johan Rockström, do Stockholm Resilience Centre, na Suécia.
Fronteiras
Rockström e colegas de diversas especialidades estabeleceram nove “fronteiras” de atuação humana: perda de biodiversidade, lançamento de aerossol na atmosfera, poluição química, mudança climática, acidificação dos oceanos, redução da camada de ozônio, ciclos do nitrogênio e do fósforo, consumo global de água e mudança no uso do solo. Para seis delas, os cientistas sugerem limites de intervenção e concluem que, em três dessas fronteiras, nós já ultrapassamos os limites: perda de biodiversidade, ciclo do nitrogênio e mudança climática.
“As fronteiras definem os limites seguros para a ação humana e estão associadas aos processos e subsistemas biofísicos do planeta”, afirma o cientista. Seu artigo A safe operating space for humanity (“Um espaço operacional seguro para a humanidade”, em tradução livre), foi tema de um evento no mês passado na University College London, na Grã-Bretanha, às vésperas da 17.ª COP, em Durban, África do Sul.
“Estamos em um momento importante para o mapeamento das vulnerabilidades do planeta. Mas, em alguns casos, não sabemos nem mesmo quais são elas”, afirma o pesquisador Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
“Por mais que tentemos encarar esses limites de forma única, eles estão entrelaçados. Se aumenta a quantidade de carbono na atmosfera, provocando aquecimento, interfere-se na permanência das florestas e na manutenção dos recursos hídricos”, exemplifica Lúcio Bede, biólogo e membro da Conservação Internacional (CI).
Uma outra fronteira problemática é a do ciclo do nitrogênio, muito utilizado na formulação de fertilizantes agrícolas. “O que a planta não absorve vai ser oxidado ou reduzido até chegar ao N2 (nitrogênio em estado gasoso) que vai para a atmosfera. O problema é quando essas reações não se fecham em N2, mas em formas mais reativas, que são os óxidos nitrosos, gases com potencial de causar efeito estufa maior até que o do CO2″, explica Fabrício Butierres, engenheiro químico e professor da Universidade Federal do Rio Grande.
“O nitrogênio em forma de nitrito ou amoniacal vai para as águas e causa eutrofização (falta de oxigênio), provocando perda de biodiversidade”, diz.
Conhecimento empírico
A constatação dessas conexões entre as fronteiras levou Rockström e seus colegas a estipular limites para as operações humanas. Mas, em alguns casos, segundo especialistas, esses limites não se aplicam.
“Os limites usados são medidas únicas. Mas poluição química é outra coisa: existem inúmeros tipos de poluentes”, explica Márcia Caruso Bicego, professora do Instituto Oceanográfico da USP, especialista em oceanografia química. “Muitos efeitos dos poluentes nós conhecemos pelas catástrofes: todo mundo sabe o que o mercúrio provoca, por causa do acidente de Minamata, no Japão. Todo mundo sabe o que acontece se alguém ingerir uma cápsula de césio-137, porque uma menininha em Goiás fez isso”, explica ela.
PERDA DE HÁBITAT, POLUIÇÃO E EXÓTICAS
A extinção de espécies é natural e aconteceria mesmo sem a intervenção humana. Mas está ocorrendo de forma acelerada: a taxa de extinção está entre cem e mil vezes maior do que seria natural. Os vilões são a perda de hábitat, a poluição e as espécies exóticas. Hoje, estão ameaçados de extinção 25% dos mamíferos, 12% das aves, 25% dos répteis, 20% dos anfíbios, 30% dos peixes e 12,5% das plantas.
Limites propostos: O estudo propõe uma taxa de extinção de até 10 espécies por milhão ao ano. Atualmente, perdemos mais de cem.
CHUVA ÁCIDA, EFEITO ESTUFA E MORTANDADE
O excesso de nitrogênio tem desdobramentos como aumentar a quantidade de nutrientes nas águas doces (provocando morte dos organismos). Sua interação com o oxigênio forma os óxidos de nitrogênio, que aumentam o efeito estufa. Reagindo com o hidrogênio, induz a ocorrência de chuva ácida, que pode corroer estruturas de metal e concreto nas cidades e interferir nos cultivos agrícolas no campo.
Limites propostos: Sugere-se a retirada de 35 milhões de ton/ano de N2 da atmosfera para uso humano. Hoje são retiradas 121 milhões ton/ano.
FOGO E DESMATAMENTO GERAM VULNERABILIDADE
O Protocolo de Kyoto não considera emissões oriundas de queima de biomassa, somente aquelas derivadas de processos industriais. Mas, no Brasil, cerca de 75% das emissões são derivadas de queimadas e desmatamento. Esse tipo de emissão modifica o clima local e as características da vegetação “de contato”, aquela que restou nos arredores do que foi retirado. Ela fica mais suscetível a incêndios.
Limites propostos: Hoje as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera são de 387 partes por milhão (ppm). O estudo propõe 350 ppm.
MARES MAIS ÁCIDOS PREJUDICAM CORAIS
A acidificação dos oceanos é um processo que vem se acentuando conforme aumenta a concentração de carbono na atmosfera. Quando o CO2 se dissolve na água do mar, ele forma o ácido carbônico, tornando a água mais corrosiva. Quem mais sofre com a acidificação são os organismos como corais, moluscos e conchas.
Limites propostos: Os cientistas sugerem que o nível de saturação de aragonita (forma cristalina do carbonato de cálcio) na superfície do mar seja de 2,75. Hoje é de 2,9.
FALTA DE OZÔNIO PODE ESTAR EVITANDO DEGELO
A principal causa da destruição é o uso de produtos químicos presentes em aerossóis, geladeiras e extintores de incêndio. É a camada de ozônio que protege os seres vivos dos efeitos nocivos dos raios ultravioleta. Porém, segundo estudos recentes, a ausência de ozônio sobre a Antártica pode estar ajudando a retardar o derretimento do gelo, pois a coluna atmosférica sobre a região absorve menos radiação.
Limites propostos: A redução da camada de ozônio não deve ultrapassar as 276 unidades Dobson (menor unidade de medida usada nas pesquisas sobre ozônio). Hoje é de 283.
BIODIVERSIDADE GARANTE ÁGUA POTÁVEL
As matas ciliares são as grandes responsáveis pela qualidade da água potável do mundo. Estima-se em 1,35 milhão de km3 o volume total de água na Terra. Desse total, 2,5% é de água doce, mas que se encontra em geleiras ou aquíferos de difícil acesso. E 0,007% é de água doce encontrada em rios, lagos e na atmosfera, que representa o que podemos realmente usar.
Limites propostos: Calcula-se que a humanidade use hoje cerca de 2,6 mil km3 de água por ano. O estudo propõe um teto de 4 mil km3/ano.
PARTÍCULAS DE AEROSSOL AFETAM CHUVAS
A quantidade de aerossol na atmosfera (partículas suspensas oriundas das atividades humanas e dos processos naturais) afeta diretamente a ocorrência de chuvas. O excesso de aerossol diminui a incidência pluviométrica e faz as gotas de chuva ficarem menores, às vezes evaporando antes de chegar ao chão. Os processos naturais de geração do aerossol estão associados com a ação do vento no solo e nas rochas, no mar, e ainda com vulcões e queimadas.
Limites propostos: Não há limites mínimos ou máximos de aerossol na atmosfera.
FLORESTA VIRA LAVOURA E CASA OCUPA MORRO
Algumas das consequências do uso equivocado do solo são bem conhecidas: deslizamentos e tragédias. A ocupação de topos de morro e regiões costeiras suscetíveis à erosão facilitam a ocorrência de acidentes na época de chuva. A mais impactante faceta dessa “fronteira” é a transformação de florestas em pastagens e áreas agrícolas, com o uso de fertilizantes e pesticidas.
Limites propostos: O limite sugerido para transformação da superfície terrestre em áreas cultivadas é de 15%. Hoje, já transformamos 11,7%.
(Ecodebate, 01/09/2011) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.
Antropoceno: Cientistas proclamam que estamos no nascimento de uma nova era geológica
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Postado por
Unknown
em
6/07/2011 04:19:00 AM
Marcadores:
ciências,
crise ambiental
Publicado em junho 7, 2011 por HC
Aquecimento global, aumento do nível dos mares, extinção em massa de espécies: a humanidade está mudando o planeta de tal forma que um número cada vez maior de cientistas quer proclamar uma nova era geológica. Em entrevista à “Spiegel Online”, o geólogo britânico Jan Zalasiewicz defende a ideia da era Antropocena. Christian Schwägerl, Der Spiegel.
Spiegel Online: A humanidade está mudando a Terra de tantas maneiras e a longo prazo que se justifica mudar o nome da atual era Holocena para Antropocena?
Zalasiewicz: A humanidade provoca mudanças significativas na biodiversidade da Terra. Nossas emissões de CO2 levam a fenômenos como o aquecimento global e a acidificação do oceano. A lista de impactos humanos sobre o sistema da Terra é muito longa. Algumas dessas mudanças estão em andamento. Outras, como o aumento do nível do mar que provavelmente resultará do atual aquecimento global, apenas começaram, e acontecerão durante os próximos séculos e milênios. Baseado em nossos conhecimentos atuais, certamente há motivos para defender criação de uma nova era chamada Antropocena. Nossas mudanças envolvem a remodelação dos caminhos sedimentares que constroem novas camadas de solo. Isso inclui a construção dos estratos feitos pelo homem, que nós chamamos de cidades.
Spiegel Online: O que precisa ser feito cientificamente para determinar se nós já estamos vivendo na era Antropocena?
Zalasiewicz: Devemos primeiro demonstrar que as mudanças ambientais globais que aconteceram são suficientes para deixar sinais distintos e significativos nos estratos que estão se formando hoje e continuarão a se formar no futuro. Estou falando sobre sinais que marcam claramente a era Antropocena como um intervalo separado no tempo geológico. Assim, precisamos mostrar que o termo é geologicamente justificável. Em segundo lugar, precisamos estabelecer que um termo formal como este será, acima de tudo, útil para os cientistas, em vez de ser um empecilho ou um problema.
Spiegel Online: A ideia da era Antropocena foi oficialmente lançada pelo vencedor do prêmio Nobel Paul Crutzen em 2002 na revista Nature. Ela mudou sua forma de pensar como geólogo?
Zalasiewicz: Ela cristalizou uma consciência crescente de que as mudanças ambientais que estão em andamento são significativas numa escala de tempo geológica, e devem ser estudadas dentro de um contexto geológico da história profunda da Terra. Para um geólogo que é treinado para considerar períodos muito longos de tempo, este é um grande passo.
Spiegel Online: Há muita resistência à ideia Antropocena nos círculos de geologia, uma vez que ela pode ser vista como um termo precoce e especulativo?
Zalasiewicz: Há alguma resistência, certamente, por esses mesmos motivos, e por causa da acusação de orgulho. Mas minha impressão é de que também existe um interesse considerável em apoiar esse conceito. O interesse e o apoio são duas coisas diferentes, é claro. Mas, por exemplo, quando o termo foi discutido na Comissão de Estratigrafia da Sociedade Geológica de Londres, 21 entre os 22 estratigrafistas acharam que o termo tinha mérito e deveria ser melhor explorado. A sociedade é composta por uma seleção de estratigrafistas escolhidos por seu conhecimento técnico, não por radicalismo ambiental.
Spiegel Online: A crítica de que, quando os seres humanos se declaram uma força geológica isso não passa de uma atitude de orgulho, como se fossemos donos do planeta, é justificada?
Zalasiewicz: Existe esse perigo, é claro. Num sentindo, nós “somos donos” do planeta, uma vez que atualmente somos o predador dominante da Terra. Mas também, é claro, não somos tão importantes para a biosfera planetária quanto, por exemplo, as populações de micróbios. Sem eles, toda vida logo chegaria ao fim. Nós não temos um papel tão importante assim, longe disso. O que está expresso na ideia Antropocena é nosso impacto como espécie isolada.
Spiegel Online: A ideia da humanidade como dona da Terra – isso não é desconcertante?
Zalasiewicz: Embora hoje possamos dizer que “somos donos” do planeta, não é o mesmo que dizer que o controlamos. Nosso experimento global com o CO2 é algo que praticamente todo governo gostaria que fosse controlado, e apesar disso, somos incapazes de fazer isso coletivamente por enquanto. Isso parece evocar outros sentimentos que não o orgulho.
Spiegel Online: Você vê na era Antropocena algo mais do que apenas um termo geológico? É uma nova forma de pensar o papel da humanidade na Terra?
Zalasiewicz: Esta é, quase que certamente, parte da atração do termo para o público mais amplo. O termo encapsula e integra uma ampla variedade de fenômenos que normalmente são considerados separados. Ele também oferece um sentido de escala e significado para a mudança antropogênica global. Ele enfatiza a importância da longa história geológica da Terra como um contexto para entender melhor o que está acontecendo hoje.
O entrevistado
Jan Zalasiewicz é professor sênior do Departamento de Geologia da Universidade de Leicester na Inglaterra. A maior parte do trabalho de Zalasiewicz é baseada na estratigrafia: o geólogo estuda a história da Terra através da análise de camadas de rocha (estratificação). Seu livro “A Terra Depois de Nós: Que Legado os Humanos Deixarão nas Rochas?” questiona sobre que tipo de mundo os alienígenas encontrariam se pousassem na terra daqui a 100 milhões de anos. Zalasiewicz foi um dos primeiros geólogos a adotar o novo termo “Antropocena”. O termo foi cunhado pelo químico atmosférico holandês e vencedor do prêmio Nobel Paul J. Crutzen e significa “era do homem”.
Tradução: Eloise De Vylder
Entrevista [The Dawn of the Anthropocene Era - 'We Are the Top Predator on Earth'] do Der Spiegel, no UOL Notícias.
Aquecimento global, aumento do nível dos mares, extinção em massa de espécies: a humanidade está mudando o planeta de tal forma que um número cada vez maior de cientistas quer proclamar uma nova era geológica. Em entrevista à “Spiegel Online”, o geólogo britânico Jan Zalasiewicz defende a ideia da era Antropocena. Christian Schwägerl, Der Spiegel.
Spiegel Online: A humanidade está mudando a Terra de tantas maneiras e a longo prazo que se justifica mudar o nome da atual era Holocena para Antropocena?
Zalasiewicz: A humanidade provoca mudanças significativas na biodiversidade da Terra. Nossas emissões de CO2 levam a fenômenos como o aquecimento global e a acidificação do oceano. A lista de impactos humanos sobre o sistema da Terra é muito longa. Algumas dessas mudanças estão em andamento. Outras, como o aumento do nível do mar que provavelmente resultará do atual aquecimento global, apenas começaram, e acontecerão durante os próximos séculos e milênios. Baseado em nossos conhecimentos atuais, certamente há motivos para defender criação de uma nova era chamada Antropocena. Nossas mudanças envolvem a remodelação dos caminhos sedimentares que constroem novas camadas de solo. Isso inclui a construção dos estratos feitos pelo homem, que nós chamamos de cidades.
Spiegel Online: O que precisa ser feito cientificamente para determinar se nós já estamos vivendo na era Antropocena?
Zalasiewicz: Devemos primeiro demonstrar que as mudanças ambientais globais que aconteceram são suficientes para deixar sinais distintos e significativos nos estratos que estão se formando hoje e continuarão a se formar no futuro. Estou falando sobre sinais que marcam claramente a era Antropocena como um intervalo separado no tempo geológico. Assim, precisamos mostrar que o termo é geologicamente justificável. Em segundo lugar, precisamos estabelecer que um termo formal como este será, acima de tudo, útil para os cientistas, em vez de ser um empecilho ou um problema.
Spiegel Online: A ideia da era Antropocena foi oficialmente lançada pelo vencedor do prêmio Nobel Paul Crutzen em 2002 na revista Nature. Ela mudou sua forma de pensar como geólogo?
Zalasiewicz: Ela cristalizou uma consciência crescente de que as mudanças ambientais que estão em andamento são significativas numa escala de tempo geológica, e devem ser estudadas dentro de um contexto geológico da história profunda da Terra. Para um geólogo que é treinado para considerar períodos muito longos de tempo, este é um grande passo.
Spiegel Online: Há muita resistência à ideia Antropocena nos círculos de geologia, uma vez que ela pode ser vista como um termo precoce e especulativo?
Zalasiewicz: Há alguma resistência, certamente, por esses mesmos motivos, e por causa da acusação de orgulho. Mas minha impressão é de que também existe um interesse considerável em apoiar esse conceito. O interesse e o apoio são duas coisas diferentes, é claro. Mas, por exemplo, quando o termo foi discutido na Comissão de Estratigrafia da Sociedade Geológica de Londres, 21 entre os 22 estratigrafistas acharam que o termo tinha mérito e deveria ser melhor explorado. A sociedade é composta por uma seleção de estratigrafistas escolhidos por seu conhecimento técnico, não por radicalismo ambiental.
Spiegel Online: A crítica de que, quando os seres humanos se declaram uma força geológica isso não passa de uma atitude de orgulho, como se fossemos donos do planeta, é justificada?
Zalasiewicz: Existe esse perigo, é claro. Num sentindo, nós “somos donos” do planeta, uma vez que atualmente somos o predador dominante da Terra. Mas também, é claro, não somos tão importantes para a biosfera planetária quanto, por exemplo, as populações de micróbios. Sem eles, toda vida logo chegaria ao fim. Nós não temos um papel tão importante assim, longe disso. O que está expresso na ideia Antropocena é nosso impacto como espécie isolada.
Spiegel Online: A ideia da humanidade como dona da Terra – isso não é desconcertante?
Zalasiewicz: Embora hoje possamos dizer que “somos donos” do planeta, não é o mesmo que dizer que o controlamos. Nosso experimento global com o CO2 é algo que praticamente todo governo gostaria que fosse controlado, e apesar disso, somos incapazes de fazer isso coletivamente por enquanto. Isso parece evocar outros sentimentos que não o orgulho.
Spiegel Online: Você vê na era Antropocena algo mais do que apenas um termo geológico? É uma nova forma de pensar o papel da humanidade na Terra?
Zalasiewicz: Esta é, quase que certamente, parte da atração do termo para o público mais amplo. O termo encapsula e integra uma ampla variedade de fenômenos que normalmente são considerados separados. Ele também oferece um sentido de escala e significado para a mudança antropogênica global. Ele enfatiza a importância da longa história geológica da Terra como um contexto para entender melhor o que está acontecendo hoje.
O entrevistado
Jan Zalasiewicz é professor sênior do Departamento de Geologia da Universidade de Leicester na Inglaterra. A maior parte do trabalho de Zalasiewicz é baseada na estratigrafia: o geólogo estuda a história da Terra através da análise de camadas de rocha (estratificação). Seu livro “A Terra Depois de Nós: Que Legado os Humanos Deixarão nas Rochas?” questiona sobre que tipo de mundo os alienígenas encontrariam se pousassem na terra daqui a 100 milhões de anos. Zalasiewicz foi um dos primeiros geólogos a adotar o novo termo “Antropocena”. O termo foi cunhado pelo químico atmosférico holandês e vencedor do prêmio Nobel Paul J. Crutzen e significa “era do homem”.
Tradução: Eloise De Vylder
Entrevista [The Dawn of the Anthropocene Era - 'We Are the Top Predator on Earth'] do Der Spiegel, no UOL Notícias.
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