Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Novo consumidor quer produtos sustentáveis

"...Roberto Müller: O que representa sustentabilidade na cabeça do consumidor?


Marcos Gouvêa de Souza: Esse foi o ponto de partida das nossas preocupações. O tema sustentabilidade vem sendo de fato muito explorado. É presença constante na mídia e nos interessou muito discutir que impacto isso tem e terá no comportamento do consumidor: nos seus hábitos, nas suas atitudes, nas suas preferências. Nós temos um evento anual, que é o fórum de varejo da América Latina, que é considerado, do ponto de vista estratégico, o evento mais relevante que se faz na América Latina no setor de varejo. E este ano ele ocorreu nos dias 19 e 20 de outubro no hotel Transamérica, em São Paulo. Para tema central deste ano foi eleita a sustentabilidade. Para que não ficássemos no plano das opiniões, nós desenvolvemos uma pesquisa que envolveu 17 países -como Índia, Japão, EUA, Inglaterra, França, Espanha, México, Portugal, Chile e Turquia, entre outros- para entender como o consumidor vê o tema da sustentabilidade e como essa sua percepção e seu entendimento geram mudanças no seu comportamento e como isso é diferente do que ele fazia anteriormente. Nós estamos na fase de análise da pesquisa e é muito interessante perceber, em primeiro lugar, como sustentabilidade quer dizer tudo e quer dizer nada ao mesmo tempo. Porque é um tema que ainda é hermético para o consumidor. O outro aspecto que nós identificamos é que existe uma curva de aprendizagem e uma curva de maturidade daquilo a que chamamos de metaconsumidor. O metaconsumidor seria aquele consumidor que, além do benefício econômico, tem uma preocupação adicional com a origem desse produto, e nós percebemos que o primeiro momento dessa curva de aprendizagem é o estágio da sensibilidade. "Eu estou ouvindo falar nesse tema, e repito coisas mesmo que eu não entenda nenhuma profundidade sobre o significado real de tudo isso", é o que pensa o consumidor nessa fase, que é um estágio que estamos vivendo de forma ampla no mercado hoje. O estágio final -nós identificamos cinco estágios- é o estágio da advocacia em relação ao tema, que é quando ele se torna um defensor e o seu comportamento é fortemente influenciado pelo que ele percebe e pelo que ele comprova em relação a isso. E o outro aprendizado que temos nesse processo, usando os dados de uma pesquisa que foi feita nos EUA: o consumidor norte-americano aceita pagar uma média ponderada de até 6% a mais em um produto quando ele percebe benefícios ligados a consumo consciente, sustentabilidade. Esse estudo, estamos fazendo pela primeira vez no Brasil, e vamos ter esta medida a partir de agora, além de repetir este estudo a cada dois anos. A predisposição de pagar um pouco mais ainda é pequena, mas a atitude de rejeição é muito mais forte.

Márcio Rodrigues: A pesquisa foi feita em diversos países, alguns desenvolvidos, outros, emergentes. Há uma diferença muito grande de percepção de sustentabilidade dentro destes dois polos?

Marcos Gouvêa de Souza: a hipótese que nós temos trabalhado é de que essa consciência e atitudes ligadas a sustentabilidade são fortemente impactadas por variáveis e, de uma forma ou de outra, acabam definindo o nível socioeconômico do País. O nível de educação, a maturidade do consumidor, a competitividade do mercado, a renda per capita. Então, esses elementos acabam determinando, mais do que o nível econômico do país, o socioeconômico, e acabam criando as diferenças.

Milton Paes: No Brasil, apesar de toda a desigualdade há outras questões que contam. Na bolsa de valores, esse novo mercado é um paradigma sobre a empresa ser sustentável. É verdade a afirmação de que as empresas mais preocupadas com a questão da sustentabilidade passam a ter cada vez mais valor de mercado?

Marcos Gouvêa de Souza: Sem dúvida nenhuma passam a ter maior valor de mercado, o mercado já está reconhecendo. A dimensão com que isso merecia ser considerado eu não saberia dizer ainda, mas é inegável que o volume de informações que se disponibilizam, o processo de informação que tem acontecido e o fato de que alguns fundos internacionais, por exemplo, têm hoje de avaliar práticas ligadas a sustentabilidade antes de definir em quais empresas investirão, faz com que se comece a desenhar uma nova realidade de mercado. São justamente esses os aspectos que nós estamos querendo trazer para discussão, para que se veja de forma mais abrangente o impacto da sustentabilidade nos negócios, não só a partir do que nos parece vital, que é o comportamento do consumidor, mas, de fato, e até de maneira mais abrangente, quais movimentos econômicos e de negócios isso precipita. "... ( continua)

Acesse aqui a entrevista na integra.

Oferta de produtos cresce, e brasileiro já pode ser cliente bancário 'sustentável' /// estadao.com.br

Fundos de investimento, empréstimos, seguros e até planos de previdência são algumas das opções disponíveis nas prateleiras das instituições financeiras
Roberta Scrivano, de O Estado de S. Paulo


- Já é possível ser um cliente bancário sustentável no Brasil. Fundos de ações, CDBs, seguros, financiamentos e até planos de previdência com viés social ou ecológico já estão disponíveis para pessoas físicas nas gôndolas das instituições financeiras.

Escolher entre um financiamento de automóvel comum ou um que, pelo mesmo preço, plante árvores para compensar a emissão de carbono do carro adquirido só depende do conhecimento do cliente - ou da boa vontade do gerente em apresentar a alternativa.

Fundo de ações que, em vez de ter uma carteira aleatória, aplique somente em empresas consideradas sustentáveis pelo mercado é outra opção para o clientel.

A demanda espontânea pelos produtos que englobam o conceito das 'finanças sustentáveis' ainda é pequena, sobretudo pelo desconhecimento do público, já que custos e taxas são iguais ou até menores que os tradicionais, segundo observam especialistas.

Todos os bancos de varejo têm, ao menos, dois tipos de produtos dentro do quesito sustentabilidade. Os fundos de investimentos são a maioria, impulsionados pelo surgimento, em 2005, do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBovespa.

Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o mercado conta hoje com 29 fundos de ações com viés sustentável. Mesmo com o crescimento das finanças sustentáveis para outras linhas de produtos, a Anbima, por enquanto, só compila dados dos fundos.

Sonia Favaretto, diretora de Sustentabilidade da Bovespa, lembra que, antes da criação do ISE, existiam apenas dois fundos de ações sustentáveis. "O investidor vai perceber a vantagem de investir em empresas sustentáveis e, dessa forma, nascerão cada vez mais produtos nessa linha."

Luiz Maia, diretor da Anbima, afirma que "já há a percepção de que empresas com visão socioambiental têm menos risco no longo prazo, o que pode gerar rendimentos melhores ao investidor".

Bradesco, Itaú Unibanco, HSBC, Santander Real, Banco do Brasil e Caixa oferecem fundos que, ou são lastreados no ISE, ou têm uma carteira própria embasada em empresas consideradas sustentáveis pelo mercado.

O Itaú Unibanco tem ainda um fundo DI que reverte 50% da taxa de administração a entidades sem fins lucrativos e um outro fundo de investimentos lastreado no índice de carbono da Bolsa de Nova York. "Não há muita demanda espontânea para esses produtos, mas estamos falando de assuntos simpáticos que, ao serem apresentados, têm boa aceitação do público", diz Paulo Corchaki, diretor de gestão de recursos do banco.

O Bradesco é um pouco mais ousado e, além dos fundos de investimentos semelhantes aos que os concorrentes disponibilizam, oferece quase 20 linhas de crédito com o cunho socioambiental. "Nós percebemos que as pessoas que têm esses princípios nos procuram para ter um crédito social ou ambientalmente correto", afirma José Ramos Rocha Neto, diretor de crédito do Bradesco.

Árvores
A linha de financiamento de maior sucesso, conta, é a de automóveis, fruto de parceria com a SOS Mata Atlântica, que planta árvores para compensar a emissão de carbono. "Também temos CDC para a compra de material didático, linhas que financiam telefones para deficientes auditivos e CDC aquecedor solar" exemplifica. "Todos têm condições especiais."

Produtos parecidos são oferecidos pelo Santander Real. "Pensamos sempre em novos produtos. A sociedade vai cobrar cada vez mais esse tipo de ação", diz Linda Murasawa, superintendente de Desenvolvimento Sustentável do grupo.

Para Graziella Comini, professora da Universidade de São Paulo (USP), o conceito 'finanças sustentáveis', com o tempo, estará cada vez mais presente. (Ver mais na página ao lado) "Acredito que, em algum momento, teremos apenas produtos financeiros sustentáveis", afirma.

Correntista tem várias opções para escolher

SEGUROS ÀS PESSOAS DE BAIXA RENDA: Bradesco, por exemplo, tem um seguro de vida com custo mensal a partir de R$ 5,98, para pessoas entre 16 a 80 anos.

CDB SUSTENTÁVEL: para o cliente, na prática, é uma aplicação tradicional oferecida pelo Santander Real. No entanto, três quartos dos recursos captados apoiam, por meio de crédito, entidades filantrópicas de saúde e educação.

PREVIDÊNCIA:planos que mesclam renda fixa com ações de companhias consideradas sustentáveis.

CRÉDITO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA: Itaú Unibanco, Santander Real e Bradesco têm linhas específicas para reformas em residências de pessoas com deficiência. As taxas de juros, segundo as instituições, são mais vantajosas do que as de linhas tradicionais.

CARTÃO DE CRÉDITO: quanto mais o cliente gasta, mais árvores serão plantadas pelos bancos para compensar a emissão de carbono.

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