Carta da Terra

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações." (da CARTA DA TERRA)
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Esther Vivas: ‘Comemos o que nos dizem as grandes empresas agroalimentares’

Publicado em março 4, 2011 por HC
Esther Vivas é membro do Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais de la Universitat Pompeu Fabra en Barcelona, ativista e co-autora de livros como Del campo al plato (Icaria editorial, 2009) o Supermercados, no gracias (Icaria editorial, 2007), entre outros.

Comprar em uma grande superficie um kilo de açúcar, um litro de leite ou um pacote de bolachas pode parecer um ato dos mais comuns. Mas, sob esta aparencia inócua subjaz a relevancia política de nossas ações, inclusive as mais inocentes.

Esther Vivas, ativista social, pela soberanía alimentar e militante do movimento antiglobalização, alerta sobre a primazia do capital privado na hora de impor gostos, marcas e produtos. Junto com Xavier Montagut publicou os livros “Del Campo al Plato”, “¿Aonde va el comercio justo?” e “Supermercados, no gracias”.

Você é co-autora do livro “Del Campo al Plato” (Ed. Icaria, 2009). É sua opinião que estão nos envenenando?

O modelo de produção de alimentos antepõe interesses privados e empresariais às necessidades alimentares das pessoas, a sua saúde e a respeito ao meio ambiente. Comemos o que as grandes empresas do setor querem. Hoje há o mesmo número de pessoas no mundo que passam fome que pessoas com problemas de sobrepeso, afetando, em ambos casos, aos setores mais pobres da população tanto nos países do norte como do sul. Os problemas agrícolas e alimentares são globais e são o resultado de converter os alimentos em uma mercadoria.

925 milhões de pessoas no mundo ainda passam fome. Esta é uma prova do fracasso do capitalismo agro-industrial?

Sim. A agricultura industrial, quilométrica, intensiva e petrodependente demonstrou ser incapaz de alimentar a população, uma vez que tem um forte impacto no meio ambiente reduzindo a agro-diversidade, gerando mudança climática e destruindo terras férteis. Para acabar com a fome no mundo não se trata de produzir mais, como afirmam os governos e as instituições internacionais. Pelo contrário, faz falta democratizar os processos produtivos e propiciar que os alimentos estejam disponíveis para o conjunto da população.

As empresas multinacionais, a ONU e o FMI propõe uma nova “revolução verde”, alimentos transgênicos e livre comécio. Que alternativa pode ser proposta desde os movimentos sociais?

Faz falta recuperar o controle social da agricultura e da alimentação. Não é possível que umas poucas multinacionais, que monopolizam cada uma das etapas da cadeia agro-alimentar, acabem decidindo o que comemos. A terra, a água e as sementes devem estar nas mãos dos campesinos, daqueles que trabalham na terra. Estes bens naturais não devem servir para fazer negócio, para especulação. Os consumidores devem ter o poder de decidir o que comer, se queremos consumir produtos livres de transgênicos. Em definitivo, temos que apostar na soberanía alimentar.

Poderia definir o conceito de “soberanía alimentari”?

Consiste em tener a capacidade de decidir sobre tudo aquilo que esteja relacionado com a produção, distribuição e consumo de alimentos. Apostar no cultivo de variedades autóctonas, de temporada, saldáveis. Promover os circuítos curtos de comercialização, os mercados locais. Combater a competencia desleal, os mecanismos de dumping, os incentivos a exportação. Conseguir este objetivo implica uma estratégia de ruptura com as políticas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Mas reivindicar a soberanía alimentar não implica um retorno romântico ao passado, pelo contrário, se trata de recuperar o conhecimento das práticas tradicionais e combiná-las com as novas tecnologías e saberes. Asim mesmo, não consiste em uma proposição localista e sim de promover a produção e o comércio local, na qual o comércio internacional funcione como um complemento do anterior.

A Vía Campesina afirma que hoje comer se converteu em um “ato político”. Está de acordo?

Completamente. O que comemos é resultado da mercantilizaç]ao do sistema alimentar e dos intereses do agro negócio. A mercantilização que se está levando a cabo na produção agro-alimentar é a mesma que afeta a outros muitos âmbitos de nossa vida: privatização dos serviços públicos, precarização dos direitos trabalhistas, especulação com a habitação e o território. É necessário antepor outra lógica e organizar-se contra o modelo agro-alimentar atual nos marcos de um combate mais geral contra o capitalismo global.

Estamos nas mãos das grandes cadeias de distribução? O que implica isso e que efeitos tem este modelo de consumo?

Hoje, sete empresas no Estado Español controlam 75% da distribuição dos alimentos. E esta tendencia representa mais. De tal maneira que o consumidor cada vez tem menos portas de acesso a comida e o mesmo acontece com o produtor na hora de chegar ao consumidor. Este monopolio garante um controle total aos supermercados na hora de decidir sobre nossa alimentação, o preço que pagamos pelo que comemos e como foi elaborado.

Servem as soluções individualistas para romper com estas pautas de consumo?

A ação individual tem um valor demostrativo e aporta coerência, mas não gera mudanças estruturais. Faz falta uma ação política coletiva, organizar-nos no âmbito do consumo, por exemplo, a partir de grupos e cooperativas de consumo agroecológico; crias alternativas e promover alianças amplas a partir da participação em camapanhas contra a crise, em defesa de territorio, fóruns sociais, etc…

Também és necessário sair as ruas e atuar políticamente, como em determinado momento se fez com a campanha da Iniciativa Legislativa Popular contra os transgênicos impulsionada por “Som lo que Sembrem”, porque, como já sew viu em muitas ocasiões, aqueles que estão nas instituições não representam nossos interesses mas sim os privados.

Kyoto, Copenhague, Cancún. Qual o baçanço geral que se pode fazer das diferentes cúpulas sobre mudança climática?

O balanço é muito negativo. Em todas estas cúpulas pesaram muito mais os interesses privados e o curto prazo e não a vontade política real para acabar com a mudança climática. Não foram feitos acordos vinculantes que permitam uma redução efetiva dos gases de efeito estufa. Ao contrário, os critérios mercantis têm sido uma vez mais a moeda de troca, e o mecanismo de comércio de emissões são, neste sentido, a máximo expressão disso.

Em Cancún foi muito utilizada a ideia de “adaptação” a mudança climática. Se escondem detrás os interesses das companhias multinacionais e de um suposto “capitalismo verde”?

Isso mesmo. Em lugar de dar soluções reais, se opta por falsas soluções como a energía nuclear, a captação de carvão da atmosfera para seu armazenamento ou os agro-combustíveis. Se trata de medidas no qual o único que fazem é agudizar ainda mais a atual crise social e ecológica e, isto sim, proporcionar uma grande quantidade de beneficios para umas poucas empresas.

O Movimento pela Justiça Climática trata de oferecer alternativas. Como nasce e quais são seus princípios?

O Movimiento Pela Justiça Climática faz uma crítica às causas de fundo da mudança climática, questionando o sistema capitalista e, como muito bem diz seu lema, se trata de “mudar o sistema, não o clima”. Deste modo expressa esta relação difusa que existe entre justiça social e climática, entre crise social ecológica.

O movimento vem tendo um forte impacto internacional, sobretudo esteve na raíz dos protestos na cúpula do clima de Copenhague e, mais recentemente, nas mobilizações de Cancún. Isto contribuiu para visualizar a urgencia de atuar contra a mudança climática. O desafio é ampliar sua base social, vinculando as lutas cotidianas e buscar alianças com o sindicalismo alternativo.

A solução é mudar o clima ou mudar o sistema capitalista?

Faz falta uma mudança radical de modelo. O capitalismo não pode solucionar uma crise ecológica que o sistema mesmo criou. A crise atual coloca a necessidade urgente de mudar o mundo de base e fazê-lo desde uma perspectiva anticapitalista e ecologista radical. Anticapitalismo e justiça climática são dois combates que devem estar estreitamente unidos.

*Entrevista realizada por Enric Llopis para Rebelión.

Tradução de Paulo Marques para o site Brasil Autogestionário http://www.brasilautogestionario.org/
** Esther Vivas é colaboradora e articulista internacional do Portal EcoDebate.

O campo brasileiro, os Movimentos Sociais e a diversidade cultural

Em outubro de 2003, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA),iniciava, no Rio Grande do Sul, no Instituto de Capacitação e Pesquisa na Reforma Agrária (Iterra), um novo curso: era o Pedagogia da Terra, cuja finalidade era a formação deeducadores para atuarem nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Graças a um Convênio estabelecido entre a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), 50 jovens das áreas de Reforma Agrária, entre os milhares de camponeses e camponesas, acessaram mais um curso de nível superior.

Essa foi uma entre as centenas de parcerias estabelecidas com as mais de 50 instituições de ensino médio e superior, ao longo dos 10 anos, que ofereceram condições para que cerca de 400 mil jovens e adultos assentados tivessem se escolarizado e acessado níveismais elevados de escolaridade. Somente neste ano de 2008, estão em processo educativo formal 48 mil estudantes em 134 cursos.

O texto abaixo á parte do estudo: "Discutindo a cultura camponesa no
processo de ensino-aprendizagem em três escolas do sul do Brasil",autores: Luiz Paulo de Almeida,Maria Rosenilda Pingas,Paula Elizabete Pinto,Gelsa Knijnik.

O estudo faz parte de um conjunto que compõe o livro Teoria e prática da educação do campo cuja coordenação é de: Carmen Lucia Bezerra Machado,Christiane Senhorinha Soares Campos e Conceição Paludo. O livro é resultante do Convênio estabelecido entre a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

O campo brasileiro, os Movimentos Sociais e a diversidade cultural

"Na longa história deste nosso país e agora reforçado na conjuntura contemporânea,com a implementação das políticas neoliberais, dentre elas o agronegócio, o espaço geográfico denominado “campo” pelos trabalhadores organizados é visto como um lugar atrasado porque não se inclui no que é visto como “padrão da sociedade”. Além disso, é rotulado como monótono, sem vida e que apenas serve para produzir alimentos e matéria-prima para o lugar considerado civilizado: a cidade.

Quando os educadores não são camponeses, é essa cultura urbana que é considerada superior e, portanto, a que merece destaque na escola. Os livros didáticos reforçam essa idéia, mostrando o camponês como ingênuo, atrasado, “sem cultura”.
Isso faz com que nos acampamentos e assentamentos, muitas vezes os modos de vida camponesa, seus valores e suas crenças sejam desprezados, até mesmo pelos camponeses. A partir dos parâmetros hegemônicos, é possível compreender como os próprios agricultores se desacreditam, permanecendo num limite de reprodução apenas de seus meios de existência, envergonhados a ponto de negarem sua própria cultura ou abandonarem suas terras em busca de outra vida na cidade, que lhes é apresentada como melhor, mesmo que a maioria acabe indo parar nas favelas, vivendo uma vida desumana.

Por outro lado, há uma invasão cultural de mercado, de compra e venda, de lucro, de exploração não só dos bens materiais como também dos simbólicos. Essa invasão da sociedade capitalista também atinge o campo, principalmente o pequeno camponês que, por muitas vezes, tem seus direitos negados, entre esses a educação escolar, até o próprio reconhecimento de sua profissão e que acaba, muitas vezes, por abandonar o campo e entrar na lógica do capital.

Com esses inúmeros mecanismos de dominação, podemos perceber que já não há mais somente a apropriação da força de trabalho, das riquezas naturais e do poder econômico e político, mas também fica silenciada a cultura popular e no seu lugar se instala uma cultura da ambição, da violência, da destruição e principalmente, uma cultura do consumismo.
Com isso, os camponeses vêem negada sua forma de vida, seu jeito de se relacionar com as outras pessoas e com o mundo e passam a se enxergar como “jecas”, atrasados, sem saber qualquer.

Contudo, toda vez que se produz a negação cultural, a exclusão social e a desigualdade, se instaura a resistência. Assim, uma das maneiras de resistir, permanecendo no campo e se contrapondo à lógica do capital, é passar a fazer parte de um movimento social, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST que, por seu jeito de produzir ações e modos de resistência tem grande reconhecimento na sociedade.

Atualmente muitas pessoas estão fazendo um percurso inverso ao feito na chamada Revolução Verde, ao longo das décadas anteriores. Muitas pessoas que haviam abandonado o campo, que possuem suas raízes na agricultura, muitas pessoas jovens, por falta de espaço na sociedade, estão voltando a viver no campo e uma das alternativas encontradas por elas acaba sendo participar do MST.

Essa nova realidade faz com que hoje exista uma diversidade na composição social do MST, que passou a incorporar pessoas oriundas das periferias das grandes cidades, moradores de rua que, em sua condição de marginalizados, buscam no Movimento uma perspectiva de vida. No centro-oeste paranaense, em particular, o movimento hoje acolhe famílias brasiguaias (que retornam ao país após terem buscado alternativas de sobrevivência, há 30 ou 40 anos, no Paraguai).

Toda essa diversidade social e cultural faz com que aquilo que é comumente chamado de cultura camponesa precise ser re-significado. Assim, o conjunto do MST vai adquirindo formas diferentes de viver, hábitos, costumes, posturas, modo de trabalhar e produzir sua existência, de se relacionar com as pessoas, de educar os filhos. Isso forma os valores desse meio, que não são os mesmos dos camponeses de uma década atrás.

Porém, muitas coisas da cultura camponesa precisam ser resgatadas, como a mística vivida no cotidiano dos camponeses, que sempre foi pouca estudada ou percebida e que recarrega suas energias; e o mutirão, puxirão ou trabalho cooperado, outro símbolo forte da vida camponesa e que foi aos poucos sendo abafado pelo domínio do capital.

Outro aprendizado camponês que é preciso resgatar pode ser sintetizado pelo ditado: “Temos que ter a garantia da próxima planta”, que implica saber guardar as sementes para que não se estraguem, cuidando o período da “lua boa” para o plantio e a colheita.

Assim, fica resgatada uma grande marca da cultura camponesa: a resistência, pois carrega o fardo do seu desaparecimento por antecipação e, mesmo assim, insiste em germinar e dar sinal de vida.

Acesse o livro neste link: http://www.nead.org.br/index.php?acao=biblioteca&publicacaoID=366







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